Neste final de semana, infelizmente, por contenção de despesas, não terá uísque. Uma lástima.
Arquivo para Agosto, 2003
Enquanto aluno, sempre imaginamos uma classe ideal: colegas inteligentes, boas perguntas durante as aulas, professores iconoclastas. Passamos anos e anos convivendo com bestas quadradas e alimentando a certeza de que, claro, o mundo nunca iria melhorar.
Imaginemos, porém, se lhe fosse dado o poder de escolher a turma ideal e professores idem. O que aconteceria, hein, hein?
Se eu pudesse reunir numa sala alguns amigos que admiro, das duas uma: ou ficaríamos amuados, com receio de falarmos alguma besteira universal, ou diríamos sandices e piadas internas que nenhum professor toleraria nosso, digamos, histrionismo.
Mamãe eu não sou… o que falam de mim são calúnias!
Publicado Agosto 27, 2003 Texto Deixar um Comentário“Não querendo, porém, admitir a censura ao próprio comportamento – talvez porque adestrados para achar que todo impulso é “natural” e que sentir culpa é feio -, (os gays) preferem atribuí-la a um ectoplasma chamado “sociedade”, que, no mundo real, está se lixando completamente há pelo menos trinta anos”.
Meu ídolo, Paulo Salles, disse algo óbvio e que ninguém nunca havia escrito: há anos que a turma dá de ombros se o sujeito é ou não é. A recriminação, hoje em dia, talvez seja muito maior na família, quando esta descobre a opção sexual do familiar tão querido. No geral, se não houver histeria ou roupas florescentes, o que uns e outros fazem nas horas de folga não está interessando mais ninguém. O senão, é bom que se diga, vale para qualquer um, de dono de bingo a funcionário público.
Essa gritaria toda por melhores condições de vida me parece mesmo coisa de gente que quer aparecer na Globo. Só mesmo um megalomaníaco para achar que o pessoal vai ao bar falar mal dele.
Por isso, sempre digo: essa síndrome de sindicato é mesmo uma temeridade.
O inteligente Felipe Ortiz relacionou os blogs de que gosta com signos astrológicos, levando em conta as personas explícitas no textos. Este Vertigem ficou muito feliz por estar ao lado do Letra Miúda, de Herr Quandt, sob o signo de Touro. Mas como o signatário nada entende de astrologia e quetais, fica devendo uma resposta sobre a relação. Mas torço para que seja coisa boa.
Minha cabeça fervilha e, várias vezes, tenta fazer-se passar por saltimbanco. O grande problema é que meu alter-ego, escritor, muito tímido, me priva de escrever as muitas bobagens de que tenho vontade de compartilhar. Penso em distribuir xingamentos e preconceitos duramente concebidos (que, obviamente, já se tornaram “conceitos”), mas lá vai o outro e exige que eu me sirva de adjetivos histriônicos, que, enfim, abuse de uma ironia lírica que faça o texto parecer arte. É claro, meus caros, que essa idéia é absurda e que o que escrevo nem serve atualmente para embrulhar peixe, coisa impossível nesse negócio de texto para a www.
Mesmo assim, acho que sou melhor conversando do que escrevendo, o que os amigos íntimos acham o contrário, e o que, sinceramente, acredito ser uma artimanha deles para me manter de bico fechado. E sem escrever.
O que eu não daria, agora, por um Johnnie Walker Gold Label.
(Final: sedoso, delicado, a mais delicada secura mentolada. Por este, vale a pena hipotecar a casa novamente)
Nem sempre estamos preparados. Na maioria das vezes, pensamos que sim, acreditamos sinceramente que sim, mas é o engano disfarçado, que logo vai sorrir pela traquinagem.
Aqueles momentos finais de ansiedade, aquela mão invisível que aperta o pescoço, os ombros que despencam para frente, a coluna vertebral que tenta simular um ponto de interrogação.
Sim, podemos até sentir o cheiro do que está por vir, o odor de coisas inodoras, ou sentir que podemos acariciar aquilo que tanto se desejou. Os olhos dilatados festejam silenciosamente, pois já sabem, com aquela certeza inabalável dos tolos, que o caminho chegou ao fim.
Mas tudo aconteceu tão rápido, tão ligeiro, tão impiedoso, de uma cruel insensibilidade, que desrespeita o prazer da degustação prolongada.
Como pode um vinho durar apenas alguns goles; o beijo, breves duelos de línguas; a vida, algumas caneladas?
“Na cidade mais bonita sinto vertigem em seus beijos e a embriaguez de um poeta em alma que na superfície bem de leve pousa sem medo de amar, sem medo… Do lado de fora da casa abandonada ele me leva no colo e me faz crescer entre livros, grandes amores e sorrisos incontroláveis, que me salvam e me perdem.
Em apresentações, um sorriso de Senhor, seu olhar nobre e atento percorre com calma e volúpia todos ao redor, testemunha discreta. Lembro-me então do romantismo e do silêncio de um conterrâneo cachoeirense, fechado tal caramujo, doce tal manga carlotinha; um passarinho chamado Braga.
Um brinde ao único colorido de sua vida que nos dias mais cinzentos e escuros pede para dar uma volta no céu. Lá estava eu, encantada, gostei tanto que pedi para experimentar um pedaço de doce de leite” (Michelle Mucelini).
O que eu não daria, agora, por um Glenfiddich (Cooran Reserve, 12 anos).
(Final: suave, maltado e frutado. De fumo perfumado com notas medicinais)
Bob, me assusta a garotada chefiando publicações. Quando comecei no jornalismo, há sete anos, sonhava em trabalhar com jornalistas mais experientes. O Sérgio Augusto disse numa entrevista há alguns anos que seu desejo quando começou no ofício era “escrever como os velhos (Otto Maria Carpeaux, Antonio Callado, José Lino Grünewald, Carlos Heitor Cony)” com quem ele convivia no Correio da Manhã. O que podemos esperar do jornalismo sem essa identificação?
Bob Fernandes: Caro, entendo sua pergunta e concordo, na essência do que você quer dizer, com ela. Mas o meu susto não é com a garotada – até porque pode ter, e tem, garotada muito boa. O meu susto é com a medianidade, para ser ameno, que assola as redações. É óbvio que redações que não tenham exemplos de grande talento, experiência, história, tendem a ser mais medíocres. Isso não é uma lei divina, não é inevitável, mas é o que temos visto. Não creio que redações devam viver de um dilema Parque dos Dinossauros x Fraldinhas. Acredito no talento e na mescla de experiência com sangue novo.
Se há quase uma unanimidade dos profissionais da imprensa quanto aos problemas da imprensa, por que o problema ainda existe?
Bob Fernandes: Porque na verdade essa unanimidade não existe e porque quem está mais interessado em discutir o assunto não tem, geralmente, espaço e poder para tanto. Onde, por exemplo, você tem visto na Grande Imprensa o debate sobre a quebradeira da Grande Imprensa, as alternativas, e o projeto para a comunicação eletrônica de massa que dorme nas gavetas em Brasília? Se não se discute isso, como é e com quem – com que sociedade – se vai discutir de verdade os problemas?
PS: Estas são as duas perguntas que fiz ontem ao jornalista Bob Fernandes, da Carta Capital, num chat do site Comunique-se.