Arquivo para Setembro, 2003

Sagração da primavera

Nem era para tanto. Não era preciso palavras deselegantes, nem insultos à mamãe. Nem esses ternos picotados, com prestações a vencer. Muito menos esse chantilly sobre os livros. Nada disso deveria ter acontecido. Achei uma covardia separar Charles Mingus de seu contrabaixo com um simples rasgo. E nem ficaria chateado se esse prato não estivesse acertado a testa de P. G. Wodehouse, antes na parede da sala. Mas nada se compara a esse insulto supremo, de me deixar reclamando sozinho, enquanto seu corpo abriga as últimas gotas de sangue que lavam o chão do nosso quarto.

Fábulas fabulosas (© Millôr)

Certo dia, dois camundongos (Big e Mac) se arrastavam em busca de um queijinho, ralado que fosse. Esfregaram seus corpinhos no chão durante horas, salivando secamente enquanto conversavam sobre o rato que, dizia-se pelas tubulações, havia jantado um camundongo numa discussão sobre Tales de Mileto. O horror da população roedora era porque o comentário dava conta de um artifício de retórica usado pelo ratinho malvado: a hipérbole bizarra.

A partir daquilo, o rato passou a ser atacado por vários camundongos que discutiam se o que ele disse era aquilo o que ele disse ou se o que ele havia dito era diferente do que queria dizer. Finalmente, um naco de queijo. Big e Mac começaram a degustação, embalada pelas considerações sobre o ardil 22. Big, versado em Eliphas Levi e Marilena Chauí, avançou sobre a inteligência do ratinho maldoso: “devia ler Aristóteles, antes de dizer aquelas bobagens”, mal sabendo que o malvado ratinho havia lido o grego, em grego. Mac, do auto da compadecida, bradou aos ventos, aos seixos e à purpurina. Invocou seus conhecimentos jurídicos e quis retomar Talião. Falou até em levar o sofista roedor ao tribunal, sob vara, se preciso fosse. O papo durou mais algumas horas e Mac ficou com soninho. Para arrematar sua blague com Big, roeu o último pedaço e salpecou: “e tem mais, não quero mais saber dessa conversa chata. Eu vou é assistir o jogo do meu fluminense”.

Mobral da história: nunca discuta com camundongo que lê Marilena Chauí ou que torça pro Fluminense. Dá sapinho.

Posfácio: o ratinho malvado continua irascível.

inside joke

Este blog está de luto por sete dias.

“A coisa que mais me incomoda hoje em dia no teatro, que me

dá vergonha, é ver o público cair na gargalhada cada vez que uma atriz solta um palavrão. Me dá uma vergonha como brasileira ver as pessoas acharem aquilo uma maravilha. Não estou querendo censurar, nem quero um teatro moralista, mas não se pode deseducar a esse ponto. Tenho certeza que todas aquelas porcarias que levam para os teatros lá em Miami, como eu chamo a Barra da Tijuca, estão sempre cheias e com as pessoas às gargalhadas. É um prejuízo para o Brasil. Se fizerem bem-feita uma comédia de um ato de Molière, na periferia do Rio ou de São Paulo, o público vai adorar. É muito melhor dar a eles a chance de vivenciar novos mundos, de ampliar seus horizontes, em vez de limitar”. (Barbara Heliodora)

Um dia eu ainda consigo dar um beijo na testa dessa senhora. É hoje a jornalista brasileira que mais leio com prazer.

“A coisa que mais me incomoda hoje em dia no teatro, que me

dá vergonha, é ver o público cair na gargalhada cada vez que uma atriz solta um palavrão. Me dá uma vergonha como brasileira ver as pessoas acharem aquilo uma maravilha. Não estou querendo censurar, nem quero um teatro moralista, mas não se pode deseducar a esse ponto. Tenho certeza que todas aquelas porcarias que levam para os teatros lá em Miami, como eu chamo a Barra da Tijuca, estão sempre cheias e com as pessoas às gargalhadas. É um prejuízo para o Brasil. Se fizerem bem-feita uma comédia de um ato de Molière, na periferia do Rio ou de São Paulo, o público vai adorar. É muito melhor dar a eles a chance de vivenciar novos mundos, de ampliar seus horizontes, em vez de limitar”. (Barbara Heliodora)

Um dia eu ainda consigo dar um beijo na testa dessa senhora. É hoje a jornalista brasileira que mais leio com prazer.

©

No Brasil, nem a burrice respeita as leis de copyright.

A máquina de Pimba!

Semana passada eu quase quase fiz um favor à humanidade. Eu iria aproveitar aquela babaquice de deixar um livro na rua para explodir maus leitores. Como se identifica os maus leitores? Simples: coloque um livro daquela lista óbvia de escritores ruins (os irmãos Campos, Nélida Piñon, Clara Avebôca, etc.) e quem pegar, pimba!, é o incréu que não deveria ter sido alfabetizado.

Mas eis o problema depois de pronto o artefato explosivo: com entrar num sebo para comprar o livro cuja capa maquiaria a traquinagem? Não, não, violão, o sujeito não pode, assim, lançar pela janela do ônibus sua reputação, mesmo que a causa seja boa. Pensei em pedir a algum conhecido, mas lembrei de que não tenho conhecidos aqui no Rio. E isso não é coisa que se peça a amigos. Eu já sonhava em ver matérias no jornal Nacional sobre funerais de “simples brasileiros, leitores, pessoas que queriam apenas ler e foram lançadas pelo ar”. Ou depoimentos dos que sobreviveram manetas, contando como “tudo escureceu” assim que abriram, sei lá, um livro de Glauco Mattoso.

Resolvi deixar pra lá. Mesmo com direito a cela especial, ser obrigado a tomar contato com um advogado, mesmo que fosse por telefone, me soava bem mais desagradável e deselegante (descobri dia desses que fiz cinco anos de direito para odiar essa turma com fundamento).

Posfácio do Prólogo

Eu só não entendo como uma pessoa pode pegar um livro de que gosta e deixar em algum lugar para que outra pessoa pegue. Eu não gosto de emprestar para quem não seja muito amigo, imaginem os outros. Mas aí me vem outra questão: será que quem se dispôs a deixar seu livro num canto qualquer escolheu um bom livro? Se fez isso, não merece a minha consideração, se deixou um livro ruim, deveria ser enquadrado na lei de crimes hediondos.

Porque, minhas senhoras e meus senhores, dar livro ruim é semelhante a maltratar animais, crianças, velhos e mulheres (alguns homens merecem).

A pena

Uma cela pequena, uma voz citando hai-cais no original e uma tevê, sem som, passando O Globo Repórter.

É tudo verdade

(Cena final. A câmera mostra a sala, o avô entra e para em frente a neta, de 12 anos, que está de costas, sentada no sofá)

— Minha querida neta, consegui aquela antologia do Mencken que você tanto queria.

— Vovô, não acredito.

— Pode acreditar, pode acreditar. E não é só isso, também consegui a primeira edição dos diários de Mencken.

— Nossa, nem sei o que dizer, vovô.

— Vamos até ao meu escritório para que você veja.

(A menina se levanta, abraça o avô e eles saem da sala em direção ao escritório/biblioteca. A avó coloca um objeto sobre a mesa e diz para a filha, sentada no sofá bebendo uma taça de vinho)

— Eu não vou perder isso por nada.

(Cena do seriado Tal mãe tal filha, sábado passado, SBT, que tem no elenco a belíssima mãe Lorelai Gilmore, vivida pela atriz Lauren Graham, e sua filha Rory Gilmore, interpretada pela Alexis Bledel)

II

(Cena final, o caminhoneiro, sentado, lê a Odisséia, de Homero. Close na capa. O filho chega interrompendo a leitura, pois deve embarcar no ônibus que o espera).

— E aí pai, gostou do livro?

— Sim, sim.

— Então tá, pai, preciso ir.

— Espera meu filho. Eu marquei um negócio no livro.

— Depois conversamos pai, preciso ir, o ônibus já está saindo.

— Meu filho você é o Odisseu, que enfrenta as trovoadas e todos os problemas. Eu sou Calisto!

— Não é Calisto, pai, é Calipso.

— É isso mesmo, Calisto. É que seu pai não sabe falar direito.

(Noite de terça, cena final do seriado Carga Pesada, da Rede Globo. Stênio Garcia, como Bino, lê o clássico presenteado pelo filho, Pedrinho, interpretado por Wagner Moura)

Não entendo o que anda acontecendo com esses seriados de televisão.


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