Arquivo para Dezembro, 2003

Enquanto agonizo

O ano de 2003, apesar de tantas alegrias, vai terminar com um sabor amargo. Dois dos escritores de que eu mais gostava, Paulo Salles e Rafael Azevedo, resolveram ferir de morte as páginas que mantinham nesta teia cibernética. Não fizeram isso hoje, nem ontem. Esta tardia mensagem fúnebre era uma esperança vã de que pudessem voltar atrás. Nada feito.

Se há um sentimento difícil de assimilar é o da orfandade intelectual. Alguns podem achar um exagero de minha parte. Não é. Lia-os desde que compartilhamos por algumas semanas a mesma trincheira virtual. Depois, nas tribunas que escolheram para jogar pedras nas Genis: o Salles com seu humor grave; o Azevedo com sua virulência extrema.

Salles escreveu o melhor texto sobre Faulkner que eu já li. O Rafael me fez estudar história e dar um chute na minha preguiça por estudar outras línguas.

Eles encerraram seus trabalhos, mas o epitáfio de hoje é meu:

Aqui jaz uma mente ingênua.

Trainspotting, ou a última vez que falo deles com comiseração

Tenho horror a temas sociais e toda essa literatura Carandiru dos chamados jovens escritores. Asco, asco! E sabe que esses livros já vêm com o, digamos, odor da transpiração? O fato é que há um grupinho que acha bonito falar de marginais, na esperança de chocar o leitor, mas não podem ver um negrinho no ônibus que se borram; ou se ouvem um tiro são capazes de atravessar do Leblon ao Catete num só fôlego.

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Causa-me espécie blogs que se limitam a contar historinhas (“gente, hoje fui ao cinema”; “gente, hoje comprei verduras e alface fresquinhas”; “gente, minha unha está encravada”). São de uma inutilidade absurda, brutal. Deveriam ser circuncidados.

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Tenho lido muita gente na internet. A maioria não vale uma crase. Há muita boa vontade acompanhada de muita besteira e deslumbramento. Outro defeito é que alguns tentam elaborar uma escrita de internet e voltada para o próprio umbigo, geralmente sujo.

Além do mais, quem se limita à linguagem rápida, com abuso de links, não vira escritor. No máximo, um moto-boy na avenida Paulista.

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Li, infelizmente, bastante gente dessa nova geração e… O que dizer? O que me irrita — aí falo como leitor — é que o nível, em geral, é muito baixo. A escolha é pelo menos pior.

Realmente, não sei se se trata de geração ou de grupinhos que se reúnem num bar para fazer reunião de pauta. Reunião de pauta é o fim da picada.

O gosto dessa gente pelo indivíduo urbano, assalariado, que fuma, bebe, trepa (desculpem os palavrões) e tira meleca do nariz em público é de uma lástima sem precedentes.

O Rafael Lima, num texto inspiradíssimo, definiu de forma irrepreensível: essa turma quer escrever sobre a vida marginal sem sair de casa com medo da violência que eles adoram relatar. O sujeito tem que ser um masoquista inveterado para ler sobre marginais do beco das garrafas que gostam de fumar Continental.

Dos escritores realmente novos que li e que tem livro lançado — e que fique claro não pertencer às gerações citadas —, o Alexandre Soares Silva é a grande referência. Não é qualquer um que escreve de maneira elegante um parágrafo sobre anjos querendo sodomizar uma vaca ou que transforma com maestria uma criança, não inglesa, num detetive charmoso.

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Além do Alexandre, o Fábio Danesi Rossi será um grande escritor. Tem um livro de contos pronto para publicação. Nem precisam anotar o nome porque um dia vocês vão saber quem ele é e nunca mais o autor desta nota.


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