Arquivo para Maio, 2004

Orkutismo, ou a sociedade secreta da grande rede

Sempre esqueço que faço parte do Orkut. Acho isso bom. Só entrei por conta do convite do Alexandre. Há semanas não acessava. Quando finalmente entrei, 66 mensagens me aguardavam serelepes. 99,45% eram de pessoas cujos nomes desconhecia completamente. O que fazer. Xinguei silenciosamente essa invasão, mas como não me emocionar ao ser avisado por um sujeito chamado Feijão de que não posso perder “a próxima e inesquecível feijoada”? Um outro, tentava me vender uma flauta transversal, com manual e tudo, a módicos R$ 2 mil. Pelo menos descobri, após breve pesquisa, o que era uma flauta transversal, algo que, tenho certeza, mudou minha vida de alguma forma.

Uma moça me convidava para entrar numa comunidade em que os homens não podiam usar boné. O que é pior, eram satirizados por isso. Eu, que usei muito boné na adolescência, não soube o que fazer. Até coloquei um boné na cabeça para relembrar a sensação. Talvez essa moça esteja certa, “quem usa boné é mané”. Nem minha idade, cabelos brancos e barba longa parece impor respeito. Até para um tal de Clube do xoxo, para ficar exalando maledicências, fui chamado.

O Orkut é um troço meio estranho mesmo, que se pretende a bar, mas sem o uísque. Alguém sai de casa para conversar sobriamente?

Nacht musik

A única coisa boa em visitar o Orkut foi, paralelamente, encontrar e ouvir “The Well Tempered Clavier Book I”, de Bach, por Glenn Gould.

Cohen brothers

Nunca tolerei conversas chatas, pessoas deselegantes, gritaria, mau-cheiro e funcionário público. Isolei-me em casa. Eventos sociais me causavam coceiras terríveis. Preferi reler os livros de que gostei a me decepcionar com os jovens amantes de Carandiru. Os relacionamentos me aborreciam a níveis intoleráveis e o sexo gratuito com mulheres honestas virou um fardo pesado demais para um homem de minha idade. Meus poucos familiares não se falavam mais, uma das poucas coisas boas acontecidas na família desde a morte de meu pai.

Pensei que ia ser diferente. Agora revejo com a vista embaçada amigos perdidos, canalhas gentis, amantes da mocidade, conhecidos que ainda me devem e algumas pessoas que me odiavam com sincera devoção. Pensei que ia ser diferente. Neste lugar apertado e de cheiro doce de flores brancas nem posso indicar com o dedo a minha reprovação. “Saiam idiotas, saiam, daqui”. Minha voz não mais atingia nenhum plexo solar.

Uma mão cobriu minha testa e algumas gotas escorreram pelos vincos de minha pele ressecada. Meu irmão, que me tomou o carrinho de madeira na infância; as namoradas na adolescência; a empresa de papai na mocidade; e meu humor durante a vida. Meu irmão que chora sadicamente a perda de seu sparring preferencial. Meu irmão falido, cujo nome figura no meu testamento como beneficiário de um lindo cemitério na periferia. Meu irmão chora desatinamente enquanto eu rio com os miasmas.

Reencontro

As mãos sujas deixam marcas pela casa, e na velhice um pigarro na alma. O sapato ainda está no mesmo canto, marcado pelas vísceras de um inseto negligente. A poeira abraça os objetos, num sono lerdo e duradouro interrompido por um sopro. Coberta pela neve fina do passado, a foto recupera tons, luzes e lembranças. Todos ali, sorrisos espontâneos a vencer o tempo. As mãos estão trêmulas, a pele abriga precipícios, os lábios perderam agilidade. A voz não é a mesma.

No silêncio solitário e nas tosses involuntárias, o velho sente que as cortinas começam a descerrar. A vista embaçada ainda busca um rosto conhecido na platéia vazia. Nem aplauso nem vaia, apenas os ruídos de uma senhora que dormindo sonhava com a última apresentação.

Curso de idioma do tio Rafael

“Ó, agora não tem desculpa, pega essa merda aqui e lê, no original. Não quero nem ouvir mais você dizer que não está lendo em inglês”.

Rafael Lima

Black sweet angel

Ela deu um bico nas chamadas “condições adversas”. Filha de um mecânico de automóveis e de uma professora que participava de campanhas pelos direitos civis, freqüentou escolas segregacionistas em Birmingham, Alabama, onde nasceu em 26 de janeiro de 1944. Saiu de lá para estudar literatura francesa em Nova Iorque, depois em Paris, França. Seu interesse por filosofia a levou até a Universidade Goethe, em Frankfurt, na Alemanha. Foi aluna, vejam só, de Theodor Adorno, autor de ensaios importantes como “Culture industry reconsidered” (“Indústria cultural reexaminada”). Quando voltou aos Estados Unidos, tornou-se professora da Universidade da Califórnia

O que tem isso demais? Espere um pouquinho, afobado. Respeitada na academia, em 1969 a professora universitária Angela Davis foi acusada de participar de ações armadas junto com os Panteras Negras e da tentativa de fuga de dois prisioneiros negros da prisão Soledad da Califórnia (que nome bonito para uma prisão). Três pessoas morreram na ação. Angela foi procurada pelo FBI por alguns meses. Conseguiu se manter livre durante um tempo com a ajuda dos Panteras, partido de defesa do direito dos negros cujos membros volta e meia se matavam em brigas entre as facções. Em 1971, foi presa e encarcerada durante 17 meses até ser julgada e considerada inocente. Nesse período, artistas, intelectuais e ativistas realizaram diversas manifestações pedindo sua libertação.

Pegue na minha mão, leitor afobado, e saiba como Angela se enfiou nessa enrascada. No final dos anos de 1960 ela participava ativamente de uma campanha para melhoria das condições carcerárias (E você pensou que isso só acontecia aqui, né? Confessa, vai). Cada dia mais envolvida, descobriu a história de dois afro-americanos, George Jackson e W. L. Nolan, que haviam fundado um diretório dos Panteras Negras na Prisão Soledad da Califórnia. “There’s coming a shitstorm”, já dizia Norman Mailler (“Vem aí uma tempestade de merda”). Houve uma tentativa frustrada para libertar os dois e Angela foi tida como culpada e presa.

Os atos em prol de sua liberdade pipocaram em outros estados americanos e países. Numa manifestação na Place de la Bastille, em Paris, Bianca e Mick Jagger, cantor do Rolling Stones, grupo no auge do sucesso, declararam seu apoio a Angela. Apesar da admiração do cantor pela professora que não tinha medo de expressar sua opinião, Jagger fica chocado ao ver alguns jovens empunhando a bandeira da antiga URSS, já naquela época famosa por dar cabo de intelectuais como Angela. Inteligentemente, deixa o local perplexo e em casa escreve a letra de “Sweet Black Angel” (e eu nunca pensei que fosse elogiar o senhor Jagger). Angela já era comunista, tadinha.

Em dia 13 de janeiro de 1970, um guarda de Soledad matou Nolan e dois outros prisioneiros negros. O Grande Júri do condado de Monterey, dias depois, decidiu que o guarda cometeu homicídio justificado, algo como no cumprimento do dever que tanto vemos por aqui. A segunda “shitstorm” veio quando, meses depois, um guarda foi assassinado. George e outros dois prisioneiros, John Cluchette e Fleeta Drumgo, foram indiciados pela morte sob a alegação de que Jackson queria vingar a morte de seu amigo Nolan. Acabou? Não, violão. A terceira “shitstorm” se deu em 7 de agosto de 1970. Jonathan Jackson, de 17 anos, irmão de George, invadiu a sala da corte do condado de Marin, com cara de poucos amigos e empunhando uma metralhadora. Tomou como refém o juiz Harold Haley e exigiu que seu irmão, John e Fleeta fossem libertados. Como a rapadura não é mole, Jonathan foi alvejado e morto quando tentava fugir do tribunal.

Jackson continuou enfrentando a cana dura e publicou dois livros, “Cartas da prisão” (“Letters from prison”) e “Irmão Soledad” (“Soledad Brother”). E eis que vem a quarta “shitstorm”, entoada por anjos e suas trombetas. No dia 21 de agosto de 1971, George foi alvejado no pátio da prisão. Portava uma pistola automática 9mm, segundo a versão oficial, a mesma que encerrou o caso como tentativa de fuga. Só isso? Não, leitor querido. Os guardas acusaram Angela de ter dado a arma para George.

Angela foge mais uma vez. O FBI a classifica como a criminosa mais procurada do país. Foi presa novamente, dois meses depois, num motel de Nova Iorque. O governador da Califórnia na época, Ronald Reagan, proibiu-a de lecionar nas universidades do estado. Libertada por falta de provas, Angela foi trabalhar como professora de estudos afro-americanos na Claremont College (1975-77) e depois na Universidade do Estado de São Francisco na cadeira de mulheres e étnica.

Em 1979, visitou a União Soviética, onde foi premiada com o Prêmio Lênin da Paz (ahn?) e recebeu o título de professora honorária da Universidade Estatal de Moscou. Por duas vezes, em 1980 e 1984 concorreu à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Comunista. Leitor, sei que irá relevar o fato dela ser comunista (e obviamente comer criancinhas) e participar de passeatas (compartilhando odores diversos).

Mulher, negra, intelectual, professora, comunista, ativista. Angela Davis tornou-se símbolo do cidadão oprimido e da luta pela defesa dos direitos dos negros e justiça social. Angela ainda é professora, hoje do Departamento de Filosofia da Universidade da Califórnia, e autora de vários livros, como “If they come in the morning: voices of resistance” (Se chegarem pela manhã: vozes da resistência”), de 1971, análise marxista da opressão racial na América; “Angela Davis: An Autobiography” (“Angela Davis: uma autobiografia”, de 1974; “Mulheres, raça e classe social” (“Women, Race and Class”), de 1981, sobre o movimento feminista; e o mais recente “Blues Legacies and Black Feminism” (“Herança do blues e feminismo negro”), que aborda a contribuição das mulheres negras (Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith e Billie Holiday) através do blues.

“Apesar de nossas conquistas, acho que hoje é o pior momento para o negro nos Estados Unidos, com exceção do final da escravidão”, disse Angela em entrevista para a revista Raça Brasil, onde ela revelou que 700 mil mulheres e homens negros estão encarcerados nas prisões americanas e que um terço dos jovens negros está na prisão.

Discorde-se ou não do que Angela Davis fez, ou do seu comunismo, impressiona como reagiu aos contratempos, perseguições e se manteve ativa. Sem nunca propor a instalação de um Tribunal de Crimes contra a Melanina para imolar os brancos, pardos ou amarelos-hepatite como eu. Dubidu.

"Marcha soldado, cabeça de papel…"

O povo americano, dizem-me os jornais brasileiros, ficou horrizado com as fotos dos soldados humilhando presos iraquianos. Não acredito. Acho que todo americano médio, o pior tolo entre todos os outros, pensou nessa possibiidade, nessa vontade que todos temos de dar um bico na canela de quem achamos “inferior”. Não bastava rifar Saddam Hussein. Era preciso reconstruir o Iraque. Reconstruir as cabecinhas dos iraquianos, colocar nas cabecinhas dos iraquianos as ideiazinhas dos soldadinhos americanos. Ratátátá.

O que me chocou profundamente foram as duas mulheres rindo entre homens nus. Porque é impossível rir diante de homens nus, a menos que o sujeito tenha menos três parafusos na cabecinha. Diante de homens nus só o que podemos a fazer é lamentar por deus, se é que existe, ter nos criado num dia de mau humor. Ou achá-lo um grande gozador, o que é pior. Se verdadeira a imagem bíblica de que ele nos fez à sua imagem e semelhança, minha nossa senhora, meu nome é Valdemar e nos ferramos bonitinho.

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assina ainda esta semana um decreto autorizando as Forças Armadas a atuarem no combate à violência no Rio” (O Globo, 10 de maio de 2004).

Já vi muita gente dizendo, otoridades inclusive, que se sente mais segura com a presença da polícia na rua. Eu não. Quando vejo alguém fardado , à exceção dos escoteiros, ou carros de polícia penso que alguma coisa está errada e vai começar a feder. Algo óbvio, claro. Porque os caras estão ali se não há nada de errado? Esse negócio de que a presença da polícia inibe a atuação dos bandidos e que a população se sente mais segura é conversa de garoto maroto, no diminutivo.

Diz a matéria que “enquanto vigorar o decreto, todas as forças de segurança que estiverem participando das ações, inclusive as polícias Militar e Civil, deverão se submeter ao Comando Militar do Leste, braço do Exército sediado no Rio”. Lascou-se. Alguém aí acha que as polícias civil e militar, que nunca se entendem e voltam e meia saem no tiro aqui no Rio, vão respeitar a turma de verde? Acho isso bastante ingênuo, para usar um eufemismo.

E não vejo porquê esse prurido em assumir que se trata mesmo de uma intervenção. Aliás, essa intervenção não deveria se limitar à segurança. O Executivo anda precisando de uns puxões de orelha, uns pitos e nada de de sair para brincar com os amiguinhos no final da tarde.

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assina ainda esta semana um decreto autorizando as Forças Armadas a atuarem no combate à violência no Rio” (O Globo, 10 de maio de 2004).

Já vi muita gente dizendo, otoridades inclusive, que se sente mais segura com a presença da polícia na rua. Eu não. Quando vejo alguém fardado , à exceção dos escoteiros, ou carros de polícia penso que alguma coisa está errada e vai começar a feder. Algo óbvio, claro. Porque os caras estão ali se não há nada de errado? Esse negócio de que a presença da polícia inibe a atuação dos bandidos e que a população se sente mais segura é conversa de garoto maroto, no diminutivo.

Diz a matéria que “enquanto vigorar o decreto, todas as forças de segurança que estiverem participando das ações, inclusive as polícias Militar e Civil, deverão se submeter ao Comando Militar do Leste, braço do Exército sediado no Rio”. Lascou-se. Alguém aí acha que as polícias civil e militar, que nunca se entendem e voltam e meia saem no tiro aqui no Rio, vão respeitar a turma de verde? Acho isso bastante ingênuo, para usar um eufemismo.

E não vejo porquê esse prurido em assumir que se trata mesmo de uma intervenção. Aliás, essa intervenção não deveria se limitar à segurança. O Executivo anda precisando de uns puxões de orelha, uns pitos e nada de de sair para brincar com os amiguinhos no final da tarde.

Bouvard e Pecuchet

Li os quatro livros publicados por Diogo Mainardi, que outro dia deu um cacete em figurinhas conhecidas da imprensa e chamou Ratinho de jornalista. Eh! Eh! Mainardi é um grande escritor, debochado, cruel e nem aí para as convenções. Há imagens mil em suas quatro obras, dessas que ficam martelando e podem ser contadas aos risos em qualquer conversa animada.

Duas para animar o papo: em Arquipélago, os sobreviventes da inundação da cidade estão tentando, de jangada, achar território. Um dos mastros cai sobre o braço de um deles, que grita desatinadamente. Não há jeito, cortam o braço. Perdidos há meses, qualquer indicação serve como referência para mudarem o curso. Não vacilaram ao ver que o braço mutilado que continuava debaixo da madeira apontava na diagonal: seguiram a indicação do dedo rígido, na beirola da putrefação. Em Polígono das secas, pai e filho ficam presos numa caverna. O filho morre. O pai, sem nada para fazer, cata pedrinhas e treina a mira na boca do menino teso.

Estou preparando um ensaio sobre seus livros e pretendo fazer um perfil. Vou balebando e conto quando der à luz.

***

A pedido de um amigo fui buscar um documento com o filho do cronista Rubem Braga, Roberto, que ainda mora na famosa cobertura do pai. Fui para lá todo animado, achando que ia conhecer o lugar onde o PIB literário reunia-se para bebericar. Nada. Da escada, recebi um envelope pardo e um bom dia ligeiro que se perdeu nas costas de quem deveria ter sido um bom anfitrião. Eu sou um cara tão legal, poxa.

Ela navegou

Minha vida tem cor, é azul e tem nome de mulher: M-I-C-H-E-L-L-E.

Próxima Página »


Páginas