Caros amigos e leitores,
Esta época do ano é assim mesmo. Escrevi aqui no Natal e lá vai eu de novo torrar as vossas paciências com esta mensagem de Feliz Ano Novo. Mas, antes das felicitações, gostaria de dizer umas coisinhas.
A primeira é que estou numa fase de bem-estar e certa felicidade. Como bom conservador, prefiro aquele bem-estar de que falava Aristóteles aos arroubos e oscilações da felicidade, que surge como uma explosão e acaba, invariavelmente, com certo lamento (uso aqui uma imagem do poema de T. S. Eliot). A certa felicidade de que falo é aquela que se pretende controlada, embora eu saiba o desvario que é tentar controlar a felicidade. Mas cada indivíduo sabe a melhor maneira de conduzir sua vida de forma a evitar sofrimentos desnecessários.
E lembro de como o primeiro semestre de 2007 foi, para mim, uma época de sofrimento. Primeiro profissional, depois pessoal, que teve como nota mais triste a morte de um amigo na sala do meu apartamento no Rio. Seguindo Blake, fiz com que a maldição me movesse. Antecipei um projeto pessoal antigo de morar fora do Brasil para estudar. Juntei os trapinhos e vim para Lisboa.
Dizer o que tem sido os últimos três meses aqui seria abusar ainda mais de vossas paciências, o que não farei de forma alguma. Só digo que estou muito bem, estudando muito, conhecendo pessoas interessantes, fazendo novas amizades de infância. E aqui enquanto escrevo lembro de um poema do nosso poeta maior, Bruno Tolentino, que diz assim:
In passim
Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,
pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.(O mundo como idéia. São Paulo: Globo)
Antes que algum de vocês ache esse poema niilista ou pesado demais, recorro ao que escreveu sobre o texto um amigo que é grande crítico de poesia: ao falar dos versos “Tudo vai-se acabando” e “tudo passa / do que é ao que era”, explica que “é mais razoável dizer que tudo passa do que é ao que será. Passa-se da potência ao ato”.
Pode se ver no poema o movimento da vida, o presente que se torna passado e, ao mesmo tempo, o futuro sendo desenhado em tempo real. Um dos grandes desafios da vida é transformar, da melhor forma, a potência em ato, pois não? Somos o que fazemos de nossas vidas, claro. Um caráter também se manifesta pela potência e pelo ato. E salta aqui ao meu lado uma frase de C. G. Lichtenberg: “O livro é um espelho: se um asno o contempla, não se pode esperar que reflita um apóstolo”. Se trocássemos a palavra livro por vida o aforismo ficaria ainda melhor.
Toda essa peroração para dizer a cada um de vocês que desejo um Feliz Ano Novo e um excelente 2008.
Abraços e beijos no coração,
Bruno Garschagen




