Quando se mora longe dos seus há momentos de saudades insuperáveis.
Arquivo para Janeiro, 2008
Quando se mora longe dos seus há momentos de saudades insuperáveis.
Quando se mora longe dos seus há momentos de saudades insuperáveis.
Sei que isso não é de todo interessante, mas, aos 32 anos, e confesso isso um tanto quanto compungido, cozinhei pela primeira vez. Tenho horror a blogues que servem como confessionários estéreis, mas calhou de ser o momento de falar minimamente sobre minha vida em Lisboa. O que cozinhei? Não esperem muito. Uma massa simples, que ficou bastante saborosa. É claro que o vinho estava muito melhor do que a comida, mas a adega que fez o vinho, leio aqui no rótulo, tem muito mais experiência do que eu – algo, que, aliás, louvo com todas as papilas gustativas disponíveis.
Mas, para não chateá-los com dotes culinários que não tenho, o elemento essencial da preparação do prato, ou dos momentos em que eu não precisava efetivamente cuidar do prato, foi o que dediquei à leitura de alguns trechos de Pride and prejudice, de Jane Austen. Acho que nunca falei aqui neste blogue sobre minha paixão por Jane Austen. Estou relendo, vagarosamente pela internet e agora na língua original, um livro que me trouxe imenso prazer: estético, intelectual, politico, sentimental.
Chapter XIII
“I hope, my dear,” said Mr. Bennet to his wife, as they were at breakfast the next morning, “that you have ordered a good dinner to-day, because I have reason to expect an addition to our family party.”
“Who do you mean, my dear? I know of nobody that is coming, I am sure, unless Charlotte Lucas should happen to call in–and I hope MY dinners are good enough for her. I do not believe she often sees such at home.”
“The person of whom I speak is a gentleman, and a stranger.”
Mrs. Bennet’s eyes sparkled. “A gentleman and a stranger! It is Mr. Bingley, I am sure! Well, I am sure I shall be extremely glad to see Mr. Bingley. But–good Lord! how unlucky! There is not a bit of fish to be got to-day. Lydia, my love, ring the bell–I must speak to Hill this moment.”
“It is NOT Mr. Bingley,” said her husband; “it is a person whom I never saw in the whole course of my life.”
This roused a general astonishment; and he had the pleasure of being eagerly questioned by his wife and his five daughters at once.
After amusing himself some time with their curiosity, he thus explained:
“About a month ago I received this letter; and about a fortnight ago I answered it, for I thought it a case of some delicacy, and requiring early attention. It is from my cousin, Mr. Collins, who, when I am dead, may turn you all out of this house as soon as he pleases.”
“Oh! my dear,” cried his wife, “I cannot bear to hear that mentioned. Pray do not talk of that odious man. I do think it is the hardest thing in the world, that your estate should be entailed away from your own children; and I am sure, if I had been you, I should have tried long ago to do something or other about it.”
Os diálogos são uma delícia – e não consigo pensar numa expressão mais original e menos óbvia dado o adiantado da hora e o vinho que, como disse um amigo, “não cessa de terminar”. Prazer semelhante tenho ao ler os diálogos escritos por Oscar Wilde – e lembro que devo uma resposta a um grande amigo que me cobra acertadamente minha fascinação pela Inglaterra. A resposta vai depois.
Extra! Extra! Entrevista com Reinaldo Azevedo na íntegra
Publicado Janeiro 18, 2008 Texto 1 Comentário
A revista Atlântico, em seu blogue, publica na íntegra a entrevista que fiz ccom Reinaldo Azevedo para a edição de dezembro do ano passado. Espero que gostem:
Publicamos na íntegra a entrevista a Reinaldo Azevedo [Revista Atlântico de Dezembro]
Conversas Atlânticas
“Saramago é um produto do capitalismo”
O colunista e jornalista brasileiro, Reinaldo Azevedo, publica na mais influente publicação de circulação nacional, a revista Veja. Mantém ainda o blogue político com o seu próprio nome, um dos mais visitados e polémicos do país desde que abriu em 2006. Em entrevista, diz que o comunismo substituiu a religião e vive da ignorância, também no Brasil: “do socialismo, sobram, no máximo, os interesses corporativistas disfarçados de interesse público”. Reinaldo, hoje com 46 anos, foi trotskista nos tempos da ditadura militar no Brasil. Entrou, por acaso, na militância esquerdista na clandestinidade. “Eu tinha 14 anos, em 1975, e era dono de uma certa inquietude política. Não havia nada de propriamente ideológico. Era inconformismo”. Aqui fica a entrevista.
por Bruno Garschagen
A capa da Atlântico com Che Guevara convertido em Hitler foi discutida em Portugal e, depois de a referir no seu blogue, ampliou a repercussão na blogosfera portuguesa e rufou os tambores na blogosfera brasileira. Soube da repercussão? O que achou da imagem?
Estou sabendo agora. É bom que assim seja, não é? Está na hora de enterrar este cadáver adiado da ideologia, que ainda procria. A imagem é muito boa. Ele teve uma vida facinorosa e a alusão ao tirano-modelo cai-lhe muito bem. Em Loués soient nos seigneurs, Régis Debray [Paris, Gallimard, 1996, com o subtítulo Une éducation politique], que foi seu colega de luta e de ideologia na Bolívia, diz o diabo a respeito do mártir. Guevara cumpriu o destino dos heróis da esquerda desde Robespierre. Destino não, escolha: não é possível impor o comunismo se não for debaixo de porrete e sobre uma montanha de cadáveres. Então, eles escolhem a tirania, que faz parte da essência do modelo. A esquerda pode tentar fazê-lo com cravos, como em Portugal. Como se vê, não dura muito. Se há liberdade, é claro que viceja o capitalismo, e a ilusão passa depressa. Do socialismo, sobram, no máximo, os interesses corporativistas disfarçados de interesse público. Não conheço a realidade portuguesa, mas eu apostaria alguns bons tostões que os sindicatos são de esquerda. Quase sempre eles são. E o que garante a sua existência? Ora, o modelo com o qual eles gostariam de acabar se chegassem ao poder. Não se consegue ser esquerdista sem cultivar esse paradoxo, que “eles” chamam “dialéctica”. A dialéctica é o esconderijo dos canalhas intelectuais que, ou querem reescrever o passado, ou tentam justificar os seus erros de prospecção.
É preciso ser um gênio literário? Precisamos de gênios literários?
Publicado Janeiro 14, 2008 Texto 4 ComentáriosA cada lançamento de livro de autor celebrado, surge a dúvida: é possível, nessa altura do campeonato, fazer algo novo na literatura? Algo que, valendo-se da tradição, seja representativo? Vou além: é possível esperar esse algo novo de escritores medianos que ocupam as capas das publicações literárias? O decurso do tempo não tem sido generoso com essa turma. E sempre lamento os hectares de árvores cortadas para imprimir tanta coisa deplorável ou que, de tão insossa, também não vale um caule de eucalipto.
Qualquer pessoa que já tenha conversado com um eloqüente escritor mediano sabe que o único sentimento que suplanta nele a vaidade é o desejo inflamante de escrever uma obra-prima, e este é uma das causas de sua miséria. O gozado é que não consegue, sequer, forjar um livro mediano. A maioria dos escritores acalenta o sonho, mesmo que escondido no banheiro, de entrar para o panteão literário. Nada de mau, certo? Errado. Esse desejo vira uma obsessão paralisante e improdutiva.
Fica sempre a dúvida, a mais cruel das dúvidas. Por que diabos o sujeito não espera o necessário tempo de maturação interior para só depois lançar palavras no papel ou no HD do computador? Por qual razão não lapida o que escreve, não guarda os textos na gaveta para voltar a eles tempos depois e, assim, analisá-los de novo, reescrevê-lo se preciso, jogar no lixo, se necessário? Por que essa sanha de querer ser publicado?
Se houve um tempo no qual escritores transformavam suas doenças do corpo, mentais e psíquicas em boa literatura, vemos hoje escritores adoecendo a literatura para conseguir celebração, coquetéis, viagens, resenhas nos jornais, quem sabe até uma foto na revista Caras. Se herdar é humano, como diria Millôr, só quero minha parte no bom quinhão, asséptico e são.
Educação? Para sair do caminho da servidão que se dê uísque para as crianças
Publicado Janeiro 13, 2008 Texto 5 ComentáriosThomas Huxley tinha razão? Em sua época, afirmava que a política educacional estava assentada em duas enormes falácias. Primeira delas: o intelecto, sendo uma caixa de ideias autónomas, podia ser “aberto” e nele introduzido novas idéias. Segunda falácia: por serem semelhantes, todas as mentes podiam ser beneficiadas como o mesmo sistema de ensino. “Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados”, torpedeou Huxley no livro Sobre a democracia e outros estudos.
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E por qual razão, Garschagen, tratas disso? Respondo, ligeiro: mal cheguei a Lisboa, há um mês, e fui atropelado pelo debate sobre as novas diretrizes centrais sobre a educação em Portugal. Pelo que li, discute-se a sério uma tolerância extraordinária com alunos faltosos e a retirada de escritores canônicos do currículo escolar. No Brasil, o debate sobre educação é infindável e igualmente improdutivo. Demora-se séculos para escolher ou manter, sempre, a pior idéia.
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Em abril do finado ano de 2007, o município do Rio de Janeiro publicou uma resolução que aboliu os conceitos de avaliação Ótimo e Insuficiente, autorizou a aprovação automática e abriu as pernas para os alunos faltarem quanto quisessem às aulas. Houve uma grita geral dos educadores e dos sindicatos dos professores. O que propunham? Se a Inês ainda não é morta, que deixe tudo como está. E lá vão os brasileirinhos a seguir o caminho da servidão involuntária.
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E a quantas anda a educação no Brasil, você me pergunta? Eu respiro fundo, sorvo uma dose imperial de J&B 15 anos e respondo: quando se acha que algo não pode piorar, touché, é aí que piora mesmo. O desempenho do país no Pisa, teste internacional de qualidade da educação aplicado a cada três anos pela OCDE, mostrou que a vaca já foi pro brejo e mandou lembranças. O desempenho geral do país foi desolador. E se o mundo, segundo T. S. Eliot, acaba, não com uma explosão, mas com um lamento, o Brasil podia mudar a inscrição na bandeira. Em vez de “Ordem e Progresso”, o verso do poeta: “E tomba a sombra”.
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Numa lista que analisava 40 países, o Brasil foi o 37º colocado na área de leitura. Nas contas, somos piores ainda: último lugar em matemática. E nas ciências? Penúltimo. E se havia uma esperança no país de que as escolas privadas estivessem a salvo dessa tragédia, outra revelação aterradora: os estudantes que fazem parte da elite nacional amargaram um desempenho inferior à média dos mais pobres dos paises desenvolvidos da OCDE. No Brasil, onde a elite é a culpada de sempre de todos os males nacionais, no campo da educação, é tão vítima quanto o resto da turma. Valha-me Deus…
Vocês leram a revista Atlântico deste mês? Leiam porque está, como sempre, ótima. Reproduzo trecho da coluna do sempre excelente João Pereira Coutinho e que serve de inspiração para o comentário que faço no post aí de cima.
Saber, saber fazer, saber estar
COMO VAI O NOSSO ENSINO? Mal, muito obrigado. Não sigo as estatísticas, porque o governo, lamentavelmente, só continua a trabalhar para as ditas. Sigo a experiência pessoal. Há uns tempos, fui jantar a casa de uma amiga e colega de curso que, para infortúnio dela, licenciou-se em História e enterrou-se num liceu qualquer. Moral da história: está de baixa há três semanas (com depressão) quando o copo transbordou de vez. E como transbordou o copo? À mesa, ela resolveu partilhar com o cronista a última insanidade do Ministério. Segundo parece, os alunos do ensino básico não serão avaliados como antigamente.
A ideia, moderna e tão pedagógica, não passará por premiar, ou reprovar, os alunos que sabem, ou não sabem, História (ou Português, ou Matemática, ou Ciências). Saber História é apenas um pormenor para a classificação geral e vale, mostrou-me ela em folhas de gráfico, uns míseros 40% da nota. Os restantes 60% cabem direitinhos na rubrica “saber fazer” (40%) e “saber estar” (20%). E em que consistem estas misteriosas entidades? “Saber fazer” signifi ca que o aluno coloca dúvidas e dificuldades na aula; organiza o seu caderno diário com primor; utiliza a linguagem (?) adequada; mostra iniciativa e espírito de iniciativa; e etc. etc. etc. Mas o melhor vem nos 20% do “saber estar”, que por sua vez se dividem nas categorias de “responsabilidade”, “adequação da atitude” e “pertinência da participação”. “Saber estar” procurará inquirir se o aluno é pontual e assíduo; se respeita o material e o “património” (?); se entra e sai da sala de forma ordenada (sic); se respeita os colegas e os professores; se respeita outras opiniões; se não cospe em ninguém; se não se pendura no candeeiro. As duas últimas, concedo, foram inventadas. Mas não me espantaria encontrá-las na “grelha” de avaliação com que o Ministério pretende infantilizar e enlouquecer os professores. Para o Ministério, o aluno pode não saber o que foram as invasões dos bárbaros. Mas basta que o aluno não seja um para que os 60% de “saber fazer” e “saber estar” o aprovem a História. Desconheço as percentagens nas restantes disciplinas. Mas conheço a filosofia que sustenta esta aldrabice: sob a capa do “sucesso educativo”, que o eng. Sócrates gosta de proclamar sem pudor, sconde-se um crime pedagógico e produzem-se gerações de analfabetos polidos.