Em Portugal não há “o” brasileiro. Há vários tipos de brasileiros. Como, aliás, no Brasil. O Brasil é um só país para efeitos de soberania. Na práctica, cada região, ou, dependendo da região, cada estado, é um país. Bahia e Espírito Santo, por exemplo, dois estados que fazem fronteira, têm cultura e maneiras de falar completamente diferentes. Mas, divago. Conheci, em Lisboa, vários brasileiros, cada qual com seus vícios e virtudes. E o vício, tal como a virtude, cresce em passos pequenos, já disse o dramaturgo francês Jean Racine, no que assino embaixo. Ainda há, nesses intrépidos compatriotas, em quase igual medida, uma demasiada esperança e um sem fim capital de queixas.
Quais seus vícios e virtudes? Antes de fazer esse esboço, divido os brasileiros em Portugal em quatro categorias: 1) trabalhador braçal que veio em busca de um padrão de vida melhor; 2) o estudante universitário ou de pós-graduação; 3) o estudante que veio, não concluiu o curso e aqui ficou trabalhando em subempregos; 4) o casal de brasileiros que veio estudar, conseguiu trabalho e preferiu viver numa capital segura a voltar para as grandes e violentas capitais brasileiras. Neste artigo falarei um pouco sobre o Tipo 1.
O trabalhador braçal imigrante é, regra geral, um ignorante consciente ou não, com baixo grau de escolaridade e uma indiferença brutal em relação a tudo o que não seja amealhar euros, pagar as contas, mandar dinheiro para familiares no Brasil e beber no fim de semana embalados por músicas brasileiras execráveis (sertaneja pop, pagode, samba et caterva).
Esse tipo é reconhecido a quilômetros de distância. Veste-se mal, deselegante nos gestos e não muito dado ao silêncio. Se descobre outro brasileiro, socorro!, quer logo abraçar, ficar íntimo. É capaz de virar amigo de infância em poucos minutos.
Outro de seu vício é decorrência de sua vontade em transformar sua morada em sucursal do Brasil. Por qual razão? Porque esse brasileiro médio nunca sairia do país se lá pudesse viver bem com os rendimentos de seu trabalho. O brasileiro é, antes de tudo, um provinciano. Por isso que, em outro país, procura a comida brasileira, a música brasileira e conserva as idiossincrasias e falta de educação brasileiras.
Para fazer do país de terceiros o seu próprio país tenta trazer todos os seus que, no Brasil, estão numa situação financeira nada boa. Primeiro vem o cônjuge; depois, os irmãos; depois, os tios; depois, os vizinhos; depois, as amantes; depois, os pais — e há quem traga animais de estimação (Já vi rafeiros aqui com passaporte brasileiro). Há sítios em Lisboa em que português é coisa rara, como em Arroios, onde brasileiros e africanos proliferam-se sem rédeas.
Virtudes? Esse tipo de brasileiro é de boa índole. Trabalha como mouro, a qualquer dia, hora e local, sem reclamar. Se houver trabalho e remuneração, estará lá, regiamente, segundo o combinado. Outra de suas virtudes é a disposição em ajudar. Se precisar dele, pode contar. Com sorriso largo no rosto, divide a própria refeição com quem precisa.
Além do mais, esse brasileiro, como nenhum outro, carrega na alma um patriotismo que o faz pensar e falar sobre o Brasil sempre com grande saudade e certo orgulho. O orgulho seria completo se não tivesse sido obrigado a sair de lá. Mas é importante notar que, a exemplo do que disse o crítico e poeta suíço Henri-Frédéric Amiel, “há dois graus no orgulho: um, em que nos aprovamos a nós próprios, o outro, em que não podemos aceitar-nos. Este provavelmente o mais requintado”. Acho que a alma desse tipo de brasileiro transborda, em maior ou menor grau, uma auto-aprovação combinada com uma impossibilidade inconsciente de auto-aceitação.
Em conversas que tive com brasileiros do Tipo 1 eles desfiaram um capital de queixas. O primeiro é o preconceito. Dizem ser maltratados pelos portugueses. Contaram-me casos nos quais patrícios recusaram-se a ser atendidos por funcionários brasileiros. E de proprietários que, ou se recusaram a alugar apartamentos, ou que, para alugá-los a brasileiros, tiveram que convencer os outros moradores.
Morei quase três meses na casa de uma amiga brasileira que passou por isso. E nos primeiros meses recebia toda semana as visitas do casal proprietário. Eles queriam constatar que, afinal, minha amiga e a irmã não eram as selvagens que imaginavam. Ao final de cada visita saíam com aquela cara aliviada como que a dizer: “tão educados! Nem parecem brasileiros…”. Nossa fama aqui não é nada boa.
PS: Texto publicado na edição de fevereiro da revista portuguesa Atlântico.







