Arquivo para Maio, 2008

Deixar a casa é mergulhar, de início, num desamparo completo. Falta-nos odores conhecidos, afagos desinteressados, olhares insuspeitos. Tudo se revela e se desnuda maravilhosamente novo, seduzindo os olhos e criando uma falsa sensação de conforto. Sim, são decisões e experiências necessárias. Contudo, por melhor que seja a novidade, ainda não inventaram nada melhor do que o colo materno para aliviar o peso da responsabilidade.

Deixar a casa é mergulhar, de início, num desamparo completo. Falta-nos odores conhecidos, afagos desinteressados, olhares insuspeitos. Tudo se revela e se desnuda maravilhosamente novo, seduzindo os olhos e criando uma falsa sensação de conforto. Sim, são decisões e experiências necessárias. Contudo, por melhor que seja a novidade, ainda não inventaram nada melhor do que o colo materno para aliviar o peso da responsabilidade.

Blogues em debate 8 – Questões legais

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Semana passada Diogo Mainardi falou sobre internet em seu podcast:

Hooligans da internet

A internet promete tomar o lugar do jornalismo impresso. Se é assim, algumas das regras que valem para o jornalismo impresso devem valer também para a internet.

Em minha última coluna, citei os comentários anti-semitas recebidos por Caio Blinder em seus artigos online. Muita gente acha que a internet está acima da lei. Que todo mundo deve ter o direito de escrever o que quiser, como quiser. Que o anti-semitismo é uma opinião, e que censurar uma opinião é atentar contra a liberdade de expressão. Calma aí, rapaziada: há uma certa confusão entre o que é opinião e o que não é. Acusar os judeus de oprimir os palestinos é uma opinião. Defender a dissolução do estado de Israel é uma opinião. Defender o extermínio dos judeus, passado ou presente, por meio de nazistas ou de jihadistas, é um crime. Mais do que isso. É fazer apologia do mais bárbaro de todos os crimes: o genocídio.

Lá no finzinho da coluna, sugeri que o Ministério Público brasileiro perseguisse judicialmente um ou dois comentaristas anti-semitas da página de Caio Blinder. O próprio Caio Blinder, num artigo inteligente e ponderado, rejeitou a idéia. Tarde demais: cismei que sou o Émile Zola do Posto 8 e meio, e insisto – o racismo interneteiro tem de ser punido por lei. O anti-semitismo tem um longo histórico de processos judiciais. Um dos casos mais célebres é o do professor Leonard Jeffries, que perdeu o cargo de chefe de departamento do City College, de Nova York, por causa de suas teses anti-semitas. Ele processou o City College e, em 1995, foi derrotado na Corte Suprema dos Estados Unidos. Digamos que um dos comentaristas anti-semitas de Caio Blinder seja professor de uma universidade pública. Como ele pode ser punido administrativamente? Só o Ministério Público tem a autoridade para pedir seu IP e tirá-lo do anonimato, identificando-o como autor do crime.

A internet precisa de regras, de normas, de leis. E ninguém me amole dizendo que isso é coisa de estados totalitários, como a China. Nos campeonatos de futebol da Europa, quem é pego cantando coros nazistas é afastado dos estádios. A internet tem de fazer o mesmo: arrumar um jeito de desconectar seus hooligans. Na última segunda-feira, a Corte Suprema dos Estados Unidos sancionou a lei que permite perseguir criminalmente aqueles que disseminam material pedófilo na internet. Os opositores da lei argumentaram que isso contraria a primeira emenda constitucional americana, que garante a liberdade de expressão. Por sete votos a dois, os juízes decidiram que a pedofilia não é uma forma de liberdade de expressão. A negação do Holocausto também não é. A apologia do terrorismo também não é.

Insiro o texto na série sobre blogues porque acho que algumas questões são aplicáveis, especialmente se vocês virem o programa Aqui e agora, do canal de TV português SIC Notícias, cujo tema foi Os perigos da internet. O foco são os blogues, que têm uma importância em Portugal que um dia pode vir a ter no Brasil.

A culpa é de Portugal

Iniciei no texto Brasileiros: vícios ou virtudes? uma tentativa de elaborar perfis dos vários tipos de brasileiros que vivem em Portugal. Dividi-os em quatro categorias e fiz um esboço do tipo 1, o trabalhador braçal que veio em busca de um padrão de vida melhor.

Mas antes de retomar aquelas categorias, e pretendo fazê-lo contando histórias de indivíduos, imigrantes bem-sucedidos ou não, acho que devo falar de minha própria condição de brasileiro vivendo em Lisboa, Portugal. Vim para cá em outubro do ano passado para cursar o mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Daqui trabalho como jornalista freelancer de publicações brasileiras.

Estranha esta minha condição de indivíduo deslocado em país estrangeiro. Mas noto, antes, que também era assim no Brasil. Como assim, Garschagen? Em Terras de Vera Cruz, bastava eu dizer ter nascido em Salvador, na Bahia, para o interlocutor esperar que eu tirasse um tambor do bolso e começasse a tocar (sic) e a dançar. Não ria porque é verdade.

Aqui, nos lugares que freqüento, não costumo ser alvo de perguntas estereotipadas. Algumas e poucas vezes fui obrigado a responder se gosto de futebol. Diante de um sim sem qualquer convicção, gritos ou saltos com soquinhos no ar meu interlocutor vacila entre continuar ou não a conversa. Mas basta eu dizer que morava no Rio de Janeiro para que seus olhos voltem a brilhar. Gostava? Eu: “Sim, mas num dia sem sol e calor”. Praia? “Quatro vezes em quase cinco anos”. Por quê? “Muita gente, muita areia, muita água, muito sal. Como dizia minha bisavó, tudo o que é demais, excede”. Do lado do meu já relutante conviva, o silêncio do tédio. Sigo em frente, empolgado e sem rédeas: “Além do mais, estou com Paulo Francis: intelectual não vai à praia, intelectual bebe”.

Ao contrário do Brasil, aqui em Portugal há curiosidade sobre o país e os brasileiros. Nosso desinteresse, no entanto, é profundo. É raro ouvir brasileiro dizer que Portugal está incluído em seus planos de turismo pela Europa. Aliás, para uma parte dos brasileiros Portugal nem faz parte da Europa. A indiferença se traduz na imprensa. Sei que há correspondentes de jornais portugueses no Brasil. Do Brasil, aqui, salvo engano, não há algum.

Não temos idéia do que se passa em Portugal. Por qual razão? Sei lá, eu. Desconfio que se deva ao fato de nas escolas sermos ensinados que os portugueses descobriram nosso território, colonizaram o país e isso não foi nada bom. Pior. Foi uma catástrofe. A razão de nossa tragédia política e econômica é culpa de Portugal. Já vi diretor de empresa a vendedor de picolé responsabilizar a herança portuguesa por algo que deu errado. Não importa se a razão é de ordem econômica ou sentimental. Adultérios e homicídios já foram debitados na conta de Pedro Álvares Cabral e de D. João VI.

A família real e seus feitos, claro, também são motivos de chacota. Os dois menos satirizados são D. Pedro I, pela independência, e a Princesa Isabel, pela abolição da escravatura. Mas isto não os absolve. Uma das imagens mais engraçadas que já vi foi uma charge no Pasquim que reproduzia o quadro da Independência do artista Pedro Américo com D. Pedro II sobre o cavalo, espada em punho e um balãozinho no alto onde se lia: “eu quero é mocotó!”

Nosso desinteresse, acho, é mais fruto da ignorância, que leva à indiferença, do que propriamente algum tipo de reação psicológica de fundo histórico pela condição de colonizados. Basta que alguém num grupo de amigos saiba um pouco de história para, rapidamente, todos ficarem interessados. E é sintomático que um jornalista brasileiro como Eduardo Bueno tenha se tornado um bestseller com livros sobre a história Brasil/Portugal.

Voltando à vaca fria, ou seja, a mim mesmo, é gozado ouvir brasileiros falando de brasileiros, brasileiros falando de portugueses e portugueses falando de brasileiros (vou contando o que ouvi ao longo dos textos para o blogue). Porque dificilmente me reconheço nas características. E não vai aqui qualquer traço de esnobismo (está bem, está bem, mas só um pouquinho). O fato de ter morado em várias cidades brasileiras tirou-me as raízes, aquela sensação de pertencer a algum lugar.

Digo já que não sou caso raro entre compatriotas da terra avistada e avivada com notas de rodapé por Pero Vaz de Caminha. Conheço alguns que não são o, digamos, brasileiro típico, daqueles capazes de rir e tocar cavaquinho em velório de família. Não gosto de samba e de suas variações, acho carnaval uma chumbada, não vejo graça no folclore brasileiro, não jogo capoeira, não tenho qualquer santo protetor no candomblé, o calor me deixa com a sensação de que a morte, vá lá, não deve ser assim tão ruim quanto dizem.

Não existe, insisto, “o” brasileiro. Mas há, sim, idiossincrasias e interesses comuns que fazem de grupos de brasileiros o estereótipo daquilo que se convencionou chamar de “o” brasileiro típico. Com ou sem clichês.

Tanto a fazer, tão pouco tempo…

Leituras acumuladas, imerso em anotações, tentando conseguir trabalho honesto e ainda tendo que dar conta do mestrado. Vocês não têm nada com isso, claro, mas devo uma justificativa por sumiços ocasionais e não-intencionais.

Sem poder elaborar algo para continuar a série sobre blogues gostaria de sugerir alguns links.

1) O caro Igor Taam, do perspicaz e wit Dicionário Invertebrado, tem publicado bons artigos na seção de Opinião do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, o que mostra uma virtude do jornal até então desconhecida para mim. Dois artigos dele podem ser lidos aqui e aqui.

2) O Claudio Maio, em comentário num dos posts da série sobre blogues, indicou o site do Daniel Drezner (o Igor também indicou o mesmo texto), especialmente o artigo Blogs, public intellectuals and the academy, que merece um comentário mais detido.

Blogues em debate 7

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Estou saindo agora para o lançamento do livro O paradigma do pudor, da tradutora e crítica italiana Maria Bochicchio (convite aí em cima).

Quando eu retornar quero tratar, um por um, dos seguintes textos para a série Blogues em debate:

Dante:

Penso que o blog é um meio que permite reunir praticamente todos os sentidos da palavra crônica. Do historiador que reporta ao rei quantos galos comeram um bebê em setembro ao diário da minha avó adolescente. (Mas, até aí, também penso que o Socially Incorrect estava ao lado de Rubem Braga, no sentido mais votado da crônica.) Penso ainda que o post partilha do poema ou dos Lieder (e mesmo do bubblegum), daquilo que nos faz ouvir e cantar mais uma vez.

A vantagem de ter um portal de blogs é a chance de conhecer mais do que prometia a força humana. Quando havia aqueles 100 blogs que se conheciam, a barra de links dava conta do que o portal hoje pode fazer.

O Wunderblogs era um blend sobre brand. Mais importante que a wunderbrand era que funcionava como uma prateleira (em que o wundermestre acomodou os blogs que ia achando interessante) e havia a chance de experimentar cada um deles e misturar conforme o gosto. A barra de links de alguém permite a mesma coisa, mas o portal amplia as misturas.

O portal permite que as estradas, a rede de conexões, perdure mais.

A vantagem de estar integrado a um portal é poder acomodar melhor as tralhas quando há um servidor na parada. (Há a competição ou fome para postar, para quem se anima nisso.)

Desvantagens? Uma única, e pequena, que a convivência determina regras mínimas. Sangue mínimo. Pode chamar de assanhamento, mas me comprometi a manter a decência até onde conseguia. (E por isso o deuscanino só passou a ter imagens ao final de 2003. E por isso não resenhei alguns filmes no WMDB. No tempo do blogspot era falta de recursos e analfabetismo mesmo.)

Se tiver de comparar com outros portais, os wundi foram unidos por gosto, mais do que por afinidades ou amizades. Inicialmente, pelo menos. E isso, em comparação, me diz porque era tão característico e tão diferente. (Outros podem ter outra impressão, eu só posso dizer que lia os blogs que estavam ali e os que não estavam.)

Gosto do peso do capricho num portal.

Estar no Wunderblogs trouxe a vantagem de ser xingado em bloco e de ser repudiado por coisas que não fiz, não disse nem pensei. A vantagem maior, real, eram as piadas internas. Vantagem bem pessoal. A sensação de entrar na universidade e atravessá-la para ir ver as meninas da outra faculdade.

Roger, do Cafeínado:

Vou falar de obviedades: há quem critique os blogueiros em geral por serem estes meros palpiteiros, e os acusam de comentarem até sobre a translucidez das águas-vivas albinas e caolhas sem o menor conhecimento de causa. (…) O conteúdo opinativo foi uma evolução e, até onde sei, blogueiros tradicionais não têm pretensões de formar opinião. A tal blogosfera seria, assim, uma espécie de pracinha de cidade do interior, aonde vão aqueles que querem bater um papo e eventualmente encontrar gente nova. (…) Se eu achasse que poderia escrever o livro definitivo sobre a translucidez das águas-vivas albinas e caolhas, não faria isso usando um blog. Gente que forma opinião e que escreve em blog sabe que o blog é um meio, não um fim. Usa-o como ferramenta de propagação e retorno. (…) A blogosfera é um ambiente, uma grande praça. Tem gente que faz xixi no matinho, tem gente que sobe no coreto e toca oboé.

William, do Esboços, rascinhos e ensaios:

Posts atrás, na tentativa de contribuir para o debate sobre blogues (e a partir de agora pretendo assumir de vez a grafia assim, com -gue!) proposto pelo Bruno Garschagen, mencionei o lingüista francês Dominique Maingueneau apenas de memória; não me estendi sobre o assunto para não falar bobagens. (…) Não sei se na continuação de seus estudos Maigueneau chega a tratar especificamente sobre os blogues (consegui grafar! mas com esforço!), mas me parece o próximo passo de sua narrativa. Duas coisas importantes: os blogues são um novo suporte para os discursos, isto é, um novo mídium, e por conta de todos os recursos que este mídium possibilita, temos um novo gênero de discurso. Pensar em gênero do discurso é diferente de pensar em gêneros literários. Enquanto Olavo de Carvalho, em seu livro Os gêneros literários e seus fundamentos metafísicos, trata do fenômeno especificamente literário, Maingueneau pretende propor uma classificação que abarque todo e qualquer tipo de texto, ou melhor, de discurso, chegando ao extremo de considerar até mesmo uma conversa de elevador um gênero.

Dois textos na Spectator

Fiquei o fim de semana afastado do computador. Às vezes é necessário. Enfim. Divido com vocês dois artigos imperdíveis para lerem enquanto preparo mais um texto da série Blogues em debate.

Ambos os artigos foram tirados da mais recente edição da Spectator inglesa. O primeiro é do historiador Paul Johnson, de quem sou fã confesso:

And Another Thing – Paul Johnson

Heaven may be the perfect library but some on earth come close

I sympathise with those mediaeval Jewish rabbis who, asked to describe heaven, pictured it as a perfect library. For them books were, or ought to be, inseparable from holiness. The words themselves, even the ink, had divine attributes. One 11th-century rabbi said that the works already present welcomed or rejected newcomers. They sensed whether new writings were edifying or not. If so, they would crowd themselves together and say: ‘Welcome! Plenty of room here!’ If they smelt wickedness, they would spread out: ‘No place here for you! Go away!’ So the heavenly library was always equally full, or empty, like a magic drinking vessel. This dealt with the main difficulty of an earthly library, a problem which is insoluble. A library must be full, for nothing is more repellent than empty shelves. On the other hand, if it is full, how is space to be found to accommodate new books, without which the library dies?

My perfect library would be a wing of a country house, with very high ceilings and a gallery; below it French windows opening on to a meadow with trees in the distance. Shelves would cover all the walls, with an oak staircase on wheels to get at the higher reaches, and a spiral staircase to the gallery, also full of books. A door would lead to an inner room, my study, with French windows leading on to an orchard. A spiral staircase within this room would ascend to a small bedroom above, with a tiny bathroom and rudimentary kitchen. So I could, at need, live a self-contained existence within my library-stronghold. In the main room would be a large mahogany table with racks containing portfol-ios of drawings and watercolours by its sides. No pictures on the walls — just books — and no nonsense of terrestrial and celestial globes.

I have two libraries. Because of the size of the volumes, my library of art history has to be kept in Somerset, where it occupies an entire large room, with a vast window opening on to the Quantock Hills and forest — a noble prospect. All the walls are covered in deep shelves from floor to ceiling, and to get to the top I have a superb piece of furniture. It is a delicate circular set of steps, in mahogany, but so light that I can lift up the tapering centre-post with one hand and carry it from one end of the room to the other without effort. It is an ingenious piece of design, the like of which I have never seen elsewhere, and as carpentry it is a model piece of craftsmanship. Where I got it I have quite forgotten. A mediaeval rabbi would have said: ‘Oh, the angels brought it.’

CONTINUA…

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O outro é do jornalista Toby Young, associate editor e colunista da revista, além de autor do altamente recomendável Como perder amigos e alienar pessoas, que, para minha supresa e felicidade, virou filme.

Status Anxiety – Toby Young

I never thought I’d claim I was quoted ‘out of context’ — until I went to Cannes

‘Memo to writers and others,’ wrote Kingsley Amis. ‘Never make a joke against yourself that some little bastard can turn into a piece of shit and send your way.’

I should have borne this in mind when I was in Cannes last week to promote How To Lose Friends & Alienate People, the forthcoming film of my book. I was at a press conference on the Croisette when a journalist asked how I felt about being played by Simon Pegg. For those of you who don’t know, Simon is a gifted comic actor whose last two films — Hot Fuzz and Run Fat Boy Run — have done so well he is now considered the No. 1 box office star in the UK.

‘To tell the truth, I was a bit disappointed,’ I drawled. ‘I wanted Brad Pitt to play me, but for some reason the producer thought he wouldn’t be right.’

I was being ironic, obviously. Simon was sitting beside me and he laughed, as did the assembled hacks. However, just to make things crystal clear, I told the audience I was joking and went on to sing Simon’s praises. He has always been my first choice, far more suitable than any of the alternatives, such as Hugh Grant. There is something incredibly winsome about him, a huge asset when it comes to playing someone as widely disliked as me. Indeed, whenever Bob Weide, the director, is asked how on earth he managed to turn me into a sympathetic character, he always says, ‘Two words: Simon Pegg.’

I didn’t realise the enormity of my error until I was sitting in a taxi on my way home from the airport. I got a call from a journalist on the Independent who said she was writing a piece for the following day’s paper on the ‘feud’ between Simon and me.

‘What feud?’

‘It’s all over today’s papers,’ she said. ‘Apparently, you gave a press conference in Cannes in which you said you were ‘bitterly disappointed’ that Simon is playing you. He’s responded by calling you a “self-promoter”.’

‘But that was a joke. I was being ironic.’

CONTINUA...

Tradutora e crítica italiana lança livro sobre obra do poeta José Régio

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A tradutora e crítica italiana Maria Bochicchio, que além de inteligente escreve divinamente, lança na terça, 27, seu livro O paradigma do pudor – edição crítico-genética de “A Chaga do Lado”, de José Régio. Estarei lá, firme e forte, como diria meu buldogue, o Barão de Münchausen. Os leitores portugueses ou os brasileiros que estiverem por aqui recomendo vivamente dar um pulo lá.

Do prefácio desse livro que ainda não li, reproduzo duas opiniões abalizadas:

“Um óptimo exemplo de edição crítico-genética (…), um modelo de reconstrução filológica do itinerário que presidiu à elaboração da colectânea [A Chaga do Lado]. (…) ao contrário do que tem sido corrente afirmar, uma obra importante do cânone regiano e não um livro que anuncia o começo da decadência do poeta. Nesse aspecto, subscrevo, com gosto, a importância que a investigadora italiana lhe atribui e que tão galhardamente se esforça por fundamentar. (…) E fê-lo com inteligência, calor e sensibilidade – aquela sensibilidade que Régio dizia dar asas à própria inteligência”.

Giuseppe Tavani (catedrático de Filologia Românica e professor emérito da Universidade de Roma La Sapienza)

“Estamos na presença de uma poesia que expressa, com a escolha corajosa da forma satírica – e isto numa época de forte censura –, a inquietude e a indignação de uma consciência”.

Eugénio Lisboa (ensaísta e crítico literário)

Quem nunca ouviu falar do poeta portguês José Régio sugiro que leia também aqui. Alguns poemas podem ser lidos no Jornal de Poesia. Infelizmente, não achei na internet qualquer trecho de A chaga do lado.

Blogues em debate 6 – Blogue e a grande imprensa

O abnegado Guilherme Roesler, do ótimo blogue Ação Humana, entra na conversação sobre blogues:

A questão dos blogues

O Bruno Garschagen iniciou um debate sobre os blogues. Bem, creio cada pessoa tenha uma noção variada da utilidade desse interessante recurso; para uns, serve basicamente para expor suas próprias idéias, debater com amigos, ou simplesmente comentar notícias veiculadas em grandes mídias. O fato é que existem centenas de milhares de blogues, e muito provavelmente uma fatia grande desse percentual não dure mais do que singelos doze meses.

Sobram, basicamente, após esse período de decadência, apenas os blogues que acrescentam algo que não é de interesse da grande mídia publicar. Mas existe um outro tipo de blogue que está crescendo, e, a meu ver, tem importância fundamental nesse processo informativo: os blogues de tradução ou veiculação de textos já “perdidos”, de livros não mais publicados ou qualquer outra excentricidade textual.

Este blogger não quer expor “suas” idéias, mas as idéias alheias que lhe fizeram a cabeça. Não quer sem um escritor, mas um panfletário; nada mais quer ser do que divulgador de idéias alheias. Assim, traduz textos que não são encontráveis em língua portuguesa, transcreve textos de obras com edições já esgotadas, comenta pensamentos já “esquecidos”, e, na maior parte dos casos, trabalha unicamente com ilusão que pode mudar alguma coisa de como as coisas agora estão.

E esse novo tipo de blogger não existe apenas no Brasil; existe em qualquer lugar onde não existe completa liberdade de acesso a obras literárias e políticas sobre determinados assuntos; a maioria desses jovens – não existem muitos senhores na rede com esse objetivo – quer discutir livremente, mas, pela falta de material básico, sacrifica uma parcela preciosa de seu tempo com a pretensão de fazer um pouco daquilo que seria o dever da grande imprensa: veicular todas as informações.

O ponto essencial apresentado pelo Guilherme é a vocação intrínseca do blogueiro de querer compartilhar, seja idéias próprias, seja o capital intelectual alheio (como há com música, vídeo, imagens etc.). Além desse interesse altruísta há, com isso, um desejo decorrente: ter com quem conversar.

É um projeto, também, de natureza pedagógica. Apresenta-se as obras para quem não as conhece e descobre-se mais gente que compartilha preferências por assuntos e autores. Posteriormente, uma conversação é estabelecida e as conjeturas partilhadas são expressas nos respectivos blogues.

Só discordo do Guilherme em dois aspectos que convergem no mesmo ponto: a mídia. Destaco as frases e comento:

a) “O fato é que existem centenas de milhares de blogues, e muito provavelmente uma fatia grande desse percentual não dure mais do que singelos doze meses. Sobram, basicamente, após esse período de decadência, apenas os blogues que acrescentam algo que não é de interesse da grande mídia publicar”.

Evito fazer essa relação entre interesse e função dos blogueiros com a função e interesse da grande mídia porque vejo uma dissociação muito grande na motivação, nos assuntos escolhidos e no tratamento dado pelos blogues na comparação com os veículos de comunicação. Os blogues são muito mais diversificados e cobrem uma gama de temas muito mais amplos do que qualquer publicação se atreveria a pensar. E a frase também dá a entender que que há uma preocupação dos blogueiros e dos leitores de selecionar os assuntos de acordo ou não com a pauta dos jornais e das revistas. O Dante, do Saudades do Presidente Figueiredo, comentou no dia 19:

Os meios tradicionais são de massa, o blog é aberto à massificação por conta de seu meio, a rede, e é o que têm em comum. (O que já é muito, permite que qualquer blog seja integrável, com os devidos salamaleques e castrações.) (…) A única função social dos blogs é frustrar expectativas. (O jornal tem de sair todo dia.) Todo o resto a mídia pode fazer.

Os blogueiros, em geral, salvo no caso dos jornalistas, ao escreverem os blogues não estão muito preocupados com a ordem do dia. Eu, por exemplo, também uso o conteúdo das grandes publicações para esboçar uma reflexão em pontos que não foram ou foram superficialmente abordados numa matéria, artigo ou ensaio. Mas isso é decorrência da minha atividade profissional. Geralmente, não é isso que acontece. E nem tem que ser. A graça dos blogues é justamente a diversificação criativa;

b) “(…) a maioria desses jovens – não existem muitos senhores na rede com esse objetivo – quer discutir livremente, mas, pela falta de material básico, sacrifica uma parcela preciosa de seu tempo com a pretensão de fazer um pouco daquilo que seria o dever da grande imprensa: veicular todas as informações”.

Além do que eu escrevi aí em cima, faço um adendo: nunca foi o dever da grande imprensa, por absoluta impossibilidade técnica, humana ou falta de interesse mesmo, veicular todas as informações. A intenção dos jornais sempre foi cobrir a maior gama de assuntos possíveis de interesse do leitor. Esse “interesse do leitor” é o recorte necessário para que um jornal possa ser produzido a contento. Acredito que no íntimo muitos jornalistas que exercem ou já exerceram a função de editor se sentiram mais ou menos frustrados por não conseguir dar conta de todos os assuntos do dia (no caso dos jornais) ou da semana (no caso das revistas) em períodos breves férteis de notícias.

Sou capaz de arriscar uma reflexão: a queda nas vendas dos jornalões devem-se, em parte, à vã tentativa de querer inserir o máximo de conteúdo numa edição diária ou semanal em vez de explorar bem determinados assuntos. Isso levou a explosão das publicações especializadas, que tratam de bijuterias, passando por penteados de cachorros a como produzir jujubas. Basta passar numa banca de jornal para ver a diferença brutal entre a quantidade de publicações generalistas (a grande imprensa) e as especializadas.

Os blogues podem mais. Muitos já estão avançando ao ponto de não serem mais identificados como blogues, o que é um equívoco. Num comentário do dia 19, a Raquel, do My Pillow Book, disse que não tinha mais certeza se o blogue do Reinaldo Azevedo, para ficarmos num exemplo, ainda poderia ser considerado um blogue. Se levarmos essa idéia adiante teremos que concordar necessariamente que há uma regra bem clara que define o que é e o que não é blogue. E o elemento extraordinário do blogue é poder ser o que quiser, dependendo das escolhas do seu autor.

PS: Ao longo dos dias pretendo estabelecer o mesmo diálogo com os demais comentaristas que gentilmente passaram por aqui e deixaram suas opiniões.

Blogues em debate 5 – A repercussão (ainda modesta)

Selecionei aqui alguns blogueiros que gentilmente entraram na conversação sobre blogues:

Cláudio Shikida:

(…) existe um padrão interessante entre os blogs de economia que vejo por aí.

i) este blogueiro, modéstia a parte, é um dos precursores dos blogs de economia do Brasil;

ii) a maior parte dos jovens blogueiros de economia são oriundos do RS, não de SP ou RJ.

iii) esta distribuição vai da graduação a pós (como está claro nos exemplos acima).

Djabal:

O blog é uma abertura imensa para o diálogo. Diálogo pertinente, impertinente, culto, inculto, sobre coisas sérias ou nem tanto. Mas diálogo.

(…)

É evidente que a possibilidade de se colocar no ar, a um custo acessível qualquer texto, também ajudará a aumentar a confusão de fontes, de dados, e de pseudos. Mas não precisamos dar importância ao que é irrelevante. Uma pesquisa consistente elimina todas as impurezas. Ler e desconfiar são atos siameses.

De outro lado não espero nenhuma modificação no fator humano, não é isso que estou tentando argumentar ou prever. É apenas uma nova possibilidade diante da qual teremos que tomar uma decisão. E é inteiramente nova.

William, do Esboços, rascunhos e ensaios:

Para evitar incompreensões, explico: o que estou chamando de recente, ao menos no Brasil, é o fato de haver blogs que podem ser tratados com seriedade, não aqueles diarinhos de adolescente que costumavam dominar a cena até bem pouco tempo atrás.

O lingüista francês Dominique Maingueneau, em seu livro Análise de textos de comunicação, apresenta-nos a noção de midium, e procura mostrar como o veículo pelo qual determinada mensagem é transmitada molda a própria mensagem. Não vejo exemplo mais eloqüente desse conceito do que os blogs. A profusão de links que remetem às mais diversas fontes de informação, quer sejam de empresas de comunicação já bem estabelecidas, quer sejam de outros blogs possibilita — na verdade, exige — uma outra postura do leitor frente ao texto. Se quisermos compreender o que determinado autor está dizendo, devemos ter acesso à mesma informação que ele. Mas isso é o de menos: a informação está a apenas um clique!

Além desses textos quero comentar nos próximos dias os comentários que recebi pelo blogue e por e-mail.

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