
Depois que James Joyce escreveu aquele monumento literário chamado Ulisses era natural que criasse, ao mesmo tempo, uma via de mão única. É extraordinário que o romance inaugural de um novo modelo de prosa é o mesmo que decreta o início e o fim de si mesmo. Para os outros era impossível imitá-lo ou tê-lo como manual do romance moderno; para Joyce, ou se superava enquanto escritor ou decretava a morte pública através de uma experiência radical de linguagem. E veio Finnegans Wake, “the illegible book”, nas palavras de um professor de inglês que tive em Cambridge.
Finnegans Wake é o atestado de óbito da invenção literária cuja causa mortis só era conhecida por Joyce, a mãe em estado puerperal. Já li e ouvi que Finnegans Wake não era um livro para ser lido. Alguns afirmam que aquilo sequer podia ser considerado uma obra literária, tamanho o delírio, tamanha a transgressão. Em carta, Joyce confessou seu desejo em voltar a escrever um romance na forma tradicional. Como imaginar o resultado literário do livro que sequer chegou a ser escrito depois dessas duas experiências abissais (Ulisses e Finnegans Wake)?
Num exercício de imaginação posso tentar uma aposta provocadora: sem a preocupação com a forma iria direcionar seu talento para a história e para os personagens. Mas ao escrever isso desvalorizo o trabalho de artesão feito por Joyce em Ulisses na construção e condução dos personagens e da história. Como seria o último livro do Joyce? Um Ulisses sem os experimentos? Um Dublinenses mais maduro e ainda melhor escrito? Será que Joyce, mesmo que não tivesse morrido, continuaria a escrever?
Perguntas sem respostas são igualmente interessantes e inúteis.
PS: O vídeo com o excelente Miguel Esteves Cardoso que inseri no post Transatlântico: Miguel Esteves Cardoso, um homem civilizado está novamente disponível. Se ainda não viu, corra lá!
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