Arquivo para Setembro, 2008



O senhor Mann na montanha mágica

Quando me perguntam sobre os melhores livros que li um deles salta logo dos lábios: A montanha mágica, de Thomas Mann. Divido com vocês um excerto da página 59 na clássica tradução de John E. Woods:

“Ha ha ha. What a sarcastic man you are, Herr Settembrini.”

“Sarcastic? You mean malicious. Yes, I am a little malicious,” Settembrini said. “My great worry is that I have been condemned to waste my malice on such miserable objects. I hope that you have nothing against malice, my good engineer. In my eyes it is the brightest sword that reason has against the powers of darkness and ugliness. Malice, sir, is the spirit of criticism, and criticism marks the origin of progress and enlightenment.” And all of a sudden he began to speak about Petrarch, whom he called the “Father of Modernity.”

PS: Há tradução brasileira. Consulte o trecho e aproveite. Bom domingo!

Quanto mais estudo mais gosto de política e mais desconfio dos políticos


Charles Krauthammer

Antes que eu me torne uma caricatura que apóia incondicionalmente o Partido Republicano só por causa da Sarah Palin, mantenho a opinião de que a escolha da governadora do Alaska foi talvez o maior fato político da campanha para as eleições presidenciais americanas. Mas a surpresa pela indicação e pelo discurso desmobilizador da campanha democrata feito pela senhorita Palin já passou (com os devidos dividendos obtidos pelos republicanos a partir dos números das pesquisas que mostram o pequeno crescimento da vantagem de McCain sobre bObama. Meu entusiasmo, repito, era pelo fato político, não pela candidata à vice. Quanto mais estudo mais gosto de política e mais desconfio dos políticos.

Quando o caro Igor Taam defende a idéia segundo a qual os republicanos devem ser punidos eleitoralmente porque o partido precisa corrigir o rumo fiquei sem saber se ele referiu-se ao partido ou à atuação do governo booBush. Se for em relação ao partido, seria preciso saber quais são as falhas consideradas pelo Igor; se pela atuação do governo booBush, McCain, cuja plataforma e atuação política é bem diferente da de booBush, não deveria ser punido eleitoralmente só por pertencer ao mesmo partido.

Igor ainda lembra um post em que falo dos ataques sofridos pela senhorita Palin:

6) O caríssimo Bruno lembra que Palin está sendo atacada por hoax por todos os lados. É verdade, mas o é para todos. Eleições são assim mesmo. Agora, vejam os próprios falando, sem boataria. Os hoaxes lhes são mais favoráveis.

Concordo plenamente: é do jogo político usar as munições que cada candidato tem. Mas uma coisa é explorar as falhas do adversário. Outra, da qual discordo frontalmente, é difundir mentiras. Porque saímos de uma campanha política para outro tipo de embate que eu, antes um estudante empolgado do que um participante ativo da vida partidária, recuso-me a aceitar. É do jogo usar mentiras? Bom, não estou no jogo, o que me faz defender essa idéia, que pode soar ingênua, de que a política prescinde de inverdades. Não só contra a direita; contra a esquerda também (e nem é preciso mentir para desmontar a esquerda).

Sobre a entrevista para o senhor Gibson, bem, a Palin não foi nem sombra daquela política que fez o discurso na convenção republicana, mas o jornalista, Santo Deus, arriscou uma explicação sobre a doutrina Bush que faria corar qualquer estudante sério de ciência política, à esquerda ou à direita.

Sobre a entrevista, o melhor artigo que li porque está muito próximo do que penso foi escrito pelo colunista Charles Krauthammer:

Charlie Gibson’s Gaffee

by Charles Krauthammer

“Ms. Palin most visibly stumbled when she was asked by Mr. Gibson if she agreed with the Bush doctrine. Ms. Palin did not seem to know what he was talking about. Mr. Gibson, sounding like an impatient teacher, informed her that it meant the right of `anticipatory self-defense.’” — New York Times, Sept. 12

WASHINGTON — Informed her? Rubbish.

The Times got it wrong. And Charlie Gibson got it wrong.

There is no single meaning of the Bush doctrine. In fact, there have been four distinct meanings, each one succeeding another over the eight years of this administration — and the one Charlie Gibson cited is not the one in common usage today.

He asked Palin, “Do you agree with the Bush doctrine?”

She responded, quite sensibly to a question that is ambiguous, “In what respect, Charlie?”

Sensing his “gotcha” moment, Gibson refused to tell her. After making her fish for the answer, he grudgingly explained to the moose-hunting rube that the Bush doctrine “is that we have the right of anticipatory self-defense.”

Wrong.

CONTINUA…

Sobre a doutrina Bush e neoconservadorismo, recomendo, dentre tantos, um que se encontra facilmente (há traduções no Brasil e aqui em Portugal) e tem a virtude ser bastante didático: O dilema americano.

PS: Os posts que venho trocando com o Igor mostra que é possível, sim, manter um diálogo pontuado por discordâncias sem a necessidade de apelar para a retórica do “eu sei de tudo, você não entende nada e não discuto com você” (recurso usado, aliás, por blogueiros que considero inteligentes – quando não fazem isso, claro). Vou aproveitar para usar o tema como assunto da série Blogues em debate, que volta esta semana. Aliás, há uma vivacidade na discussão pelos blogues daqui em Portugal que não vejo no Brasil (não quer dizer que não exista, eu é que desconheço. Se alguém souber de exemplos, enviem-me. Sobre os blogues portugueses eu devo tratar esta semana com exemplos).

Trecho do livro O País dos Petralhas

Um trecho do livro também publicado no site da Veja:

A CACHAÇA DOS INTELECTUAIS E A IMPRENSA

A FÁBULA PETISTA E O DEMÔNIO TOTALITÁRIO*

“Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil.” Não é a primeira vez que escrevo sobre a frase que mais me rendeu protestos. Até alguns “conservadores” fizeram um muxoxo: “Cheira a preconceito.” E daí? O preconceito também é uma realidade discursiva definida por marés influentes de opinião. Não ter alguns corresponde a reforçar outros. Vejam dom Tomás Balduíno, que trocou a Teologia pela Escatologia da Libertação. Ele acredita que lugar de auto-intitulados sem-terra é quebrando o Parlamento ou tungando propriedade alheia. Opor-se a tal prática seria preconceito.

Um “progressista” tem de estar afinado com os deserdados profissionais dos padres, das ONGs e do Chico Buarque. Os “conservadores” preferem ficar no armário, praticando uma ideologia que não ousa dizer seu nome. Ou vão para a fogueira. A esquerda leva vantagem na guerra de valores. Jornalistas acham normal ter como fonte um ladrão – sobretudo se ele roubar em nome da causa -, mas fogem de um “reacionário” ou “direitista”. Supostas maiorias teriam mais direito a preconceitos do que um indivíduo. Com efeito, não existiria totalitarismo sem as massas e suas rebeliões – aprendi com Ortega y Gasset, antes ainda de começar a fazer a barba.

Sou tentado a defender o direito que todos temos de ter alguns “preconceitos”. Um sujeito cem por cento tolerante é desprovido de moral pessoal e imprestável para uma ética coletiva. É preciso dizer em certos casos: “Isso não!” Um homem sem preconceitos é um empirista empedernido, uma besta, um monstro amoral.

Há um quarto de século toleramos a ladainha petista sobre “um outro mundo possível”. Até há pouco, os petistas nos vendiam um certo “socialismo democrático”, binômio antitético que a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) ressuscitou em entrevista ao programa Roda Viva. A propósito: ela afirmou lá que apenas 17% das terras agriculturáveis do país são cultivadas. Seria mentira ainda que Marina Silva derrubasse a floresta amazônica e secasse o Pantanal para plantar soja. Não foi contestada em sua logorréia narcotizante. Uma bobagem choca; uma penca delas paralisa os sentidos, especialmente se vêm embaladas naquela cascata de disparates reiterados por sinonímias vertiginosas.

Nunca houve socialismo democrático ou marxismo cristão. Quem acata essas bobagens ou está comprometido com a causa ou procura ser simpático com os “progressistas”. Não ambiciono a ração de boa vontade de adversários. O socialismo matou quase 200 milhões para criar o “novo homem”, e sua primeira vítima foi a liberdade. Tentam pôr no meu colo os mortos das ditaduras de direita. Dispenso-os. Façam como eu: joguem todas elas no lixo. Esquerdistas, no entanto, não reconhecem em Fidel Castro um facínora e têm num homicida compulsivo como Che Guevara um herói, ainda a render filmes e rococós sentimentais. Entronizam um bufão como Hugo Chávez no posto de futuro mártir das causas populares. “Mártir”? Eu e minhas esperanças…

Que bom se a esquerda light e a socialdemocracia estivessem certas, e tudo isso cheirasse à naftalina da guerra fria, sepultada sob os escombros do Muro. Mas estão erradas, e a metáfora é óbvia demais. No Brasil, as seduções do demônio totalitário estão ativas e plasmadas no PT, que segue o figurino do Moderno Príncipe gramsciano. É confortável para os covardes a suposição de que a lenda lulo-petista se esgota no clepto-stalinismo dos quarenta quadrilheiros. É uma forma de colaboracionismo.

Essa lenda contamina as instituições e busca mudar a natureza da democracia. Leiam o texto a seguir:

O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.

É como Gramsci queria o “partido” que faria a transição para o socialismo aproveitando-se das fragilidades da democracia. Leninismo e fascismo em pacote único. Ele já havia aposentado as ilusões armadas na Europa, mas não a tara totalitária. O PT também arquivou as ambições socialistas – embora financie tropas de assalto à democracia -, mas não a vocação para submeter a sociedade a um ente de razão partidário.

Os sem-preconceito e liberais de miolo mole vêem o partido de Lula seguindo a bula dos mercados e o supõem convertido. Será? O que antes era “criminoso” passou agora a ser “virtuoso” na medida em que “tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe”. Ele é capaz de “subverter todo o sistema de valores intelectuais e morais”. E até os ju ros reais mais altos do mundo se tornam variantes de um “imperativo categórico”.

A trama criminosa é só entrecho de narrativa mais ambiciosa. Nem a eventual derrota de Lula poria fim a essa história. Se vitorioso, o PT tentará perpetuar-se no poder mudando as regras do jogo: o caminho é tornar irrelevantes as eleições como meio de alternância de poder. E pode fazê-lo fingindo obediência ao rito democrático. É de sua natureza. Se derrotado, a “Al-Qaeda” – rede presente nos três Poderes, sindicatos, fundos de pensão, igrejas, estatais, imprensa, movimentos sociais e ONGs – tentará emparedar o próximo governo por meio do confronto e da chantagem. O que fazer? Dizer não ao demônio totalitário. Outras divergências são secundárias.

Tudo o que é ruim para o PT é bom para o Brasil.

* Artigo publicado em O Estado de S. Paulo em 19 de junho de 2006

Diogo Mainardi escreve sobre O País dos Petralhas

A Veja publicou no site o texto de Diogo Mainardi sobre o livro O País dos Petralhas:

Livros
Alto lá, em nome da lei

Em O País dos Petralhas, Reinaldo Azevedo, o melhor blogueiro do país, conta sua luta diária com a turma da situação

Um petralha indignado pergunta a Reinaldo Azevedo como ele consegue dormir em paz. Resposta:

– Com Stilnox.

E conclui:

– Por isso defendo os laboratórios, as patentes e a propriedade intelectual.

Esse é o resumo perfeito de O País dos Petralhas (Record; 337 páginas; 38 reais). O livro reúne os melhores textos de Reinaldo Azevedo sobre o petralhismo, publicados em seu blog em VEJA.com desde junho de 2006 e, antes disso, em sua coluna em O Globo. O que significa “petralha”? Um glossário, no fim do livro, esclarece: “Neologismo criado da fusão das palavras ‘petista’ e ‘metralha’ – dos Irmãos Metralha, sempre de olho na caixa-forte do Tio Patinhas. Um petralha defende o roubo social”.

O roubo social é uma disciplina que, praticada pelos operadores do petralhismo entranhados no partido e no setor público, se baseia no – como dizer? – roubo. Pode ser o roubo para eleger um candidato, ou o roubo para enlamear um opositor, ou o roubo para encher as burras de dinheiro. Em geral, tudo isso junto. Para que um petralha possa roubar sem constrangimentos, ele precisa contar com a cumplicidade de outros petralhas, enfronhados na imprensa, na internet, nas salas de aula, nos gabinetes, nos tribunais, nas delegacias, nas rodas de samba. O papel deles é fazer a defesa teó-rica do banditismo, acobertando todos os crimes cometidos em nome do partido. Esta é a gangue que Reinaldo Azevedo combate: a gangue que violenta as idéias, que corrompe os conceitos, que brutaliza a verdade. Se o Brasil do PT é Patópolis, Reinaldo Azevedo só pode ser o nosso Mickey.

Ele, o camundongo sabido de Dois Córregos, é o melhor blogueiro do país. O termo blogueiro, para quem está acostumado só com a imprensa escrita, pode soar ligeiramente depreciativo. Corrigindo: Reinaldo Azevedo é o melhor articulista do país. É o único capaz de passar com desenvoltura de Robert Musil à egüinha Pocotó, de G.K. Chesterton a Marilena Chaui, de Ortega y Gasset a Marco Aurélio Garcia. Com 900 000 páginas lidas todos os meses, seu blog é também um dos mais populares da internet. O resultado é espantoso: se, num dia, ele indica um filme no Youtube, como aquele sobre a pancadaria da PF em Raposa Serra do Sol, no dia seguinte o filme já contabiliza 18 000 espectadores.

LADRÃO É LADRÃO
Irmãos Metralha, os inspiradores do título
Para nossa sorte (eu, Diogo, sou uma das centenas de milhares de macacas-de-auditório de Reinaldo Azevedo, e entro no blog umas cinco vezes por dia, como a média de seus leitores), o melhor articulista do país é igualmente o mais compulsivo. Reinaldo Azevedo trabalha sem parar. Até a última quarta-feira, seu blog já publicara 14 943 artigos. Dois anos atrás, os médicos abriram uma tampa em seu cocuruto e arrancaram lá de dentro dois hemangiomas ósseos do tamanho de bolas de gude. Três dias depois, no quarto do hospital, ele já estava na frente do computador, fazendo chacota de seu aspecto de golfinho Flipper e de seus tumores benignos – o único produto benigno saído de sua cachola.

Reinaldo Azevedo costuma escrever seu primeiro artigo às 3 da tarde, quando acorda, e o último às 5 e meia da madrugada, quando toma seu comprimido de Stilnox e vai dormir. Ao petralha indignado: Reinaldo Azevedo nunca dorme em paz, ele dorme em guerra. Em guerra contra os petralhas indignados, contra os esquerdopatas, contra os tocadores de tuba, contra o Apedeuta (consulte o glossário de O País dos Petralhas). Isso lhe rende, todos os dias, centenas de mensagens ofensivas. Chamam-no de canceroso, de nazista, de Opus Dei. A primeira triagem dos comentários dos leitores, em que se eliminam todos os insultos, é feita por sua mulher. Ela se chama Lilian, mas os leitores do blog a conhecem como Dona Reinalda. Há também as Reinaldinhas, suas duas filhas, Maria Clara, de 13 anos, e Maria Luíza, de 11.

Apesar de estar sempre em guerra, Reinaldo Azevedo se considera “bastante convencional”. O que isso quer dizer? Quer dizer que ele chama “crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido”. E acrescenta: “No auge de minha esquisitice, defendo o cumprimento da lei”. Essa é uma idéia repetida incessantemente ao longo do livro. Para ele, “a impunidade destrói qualquer chance de futuro. Se a lei é cumprida, entra-se numa espiral positiva de direitos e deveres”. Por isso ele se bate pelas leis e pelas regras da democracia, da gramática, da lógica, dos bons costumes e da patente dos remédios. No país dos petralhas, o assombroso é ficar do lado da lei.

No país dos petralhas temos Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo anuncia lançamento do livro O País dos Petralhas:

VEJA 1 – Nas livrarias

O País do Petralhas, deste escrevinhador, chegou ontem às livrarias. É o meu modo de comemorar os 64% de popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva. Quando comecei a reunir os textos, acho que estava em 55%. Sou mesmo incorrigível. Pareço aquelas moças de vida fácil do Rick’s Bar, de Casablanca. O ambiente pode estar um pouco inóspito à volta, mas levanto e canto A Marselhesa… Os petralhas, aqueles do título, já descobriram: “Vai encalhar! Lula está com tudo”. Mal sabem que espero vender 14,4 milhões de exemplares para os que o consideram ruim/péssimo…

Vender? Se vocês comprarem, vou achar muito bom. E conto já uma grande honra: Diogo Mainardi assina a resenha do livro na VEJA desta semana.

Biografia de Rubem Braga finalista do Jabuti!

Grande notícia! O livro Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho, é finalista do Prêmio Jabuti 2008 na categoria Biografia.

Marco demorou cerca de 12 anos para elaborar o livro. Pesquisou e estudou incansavelmente a vida do Rubem e a história da época. Realizou 267 entrevistas. Esses anos todos não foram dedicados exclusivamente à obra. Marco foi trabalhando na biografia enquanto sobrevivia como jornalista e tradutor freelancer. Quebrou financeiramente umas três vezes para bancar o trabalho do próprio bolso. As eventuais ajudas financeiras que recebeu eram um pequeno paliativo na dolorosa missão que se incumbiu de escrever um livro à altura do biografado e do biógrafo.

Convivi com o Marco durante vários anos e acompanhei a maior parte de seu trabalho. Era um abnegado. Entregou-se à tarefa com uma disposição empolgante. Com ele aprendi que o jornalista devia ler tudo ou, na total impossibilidade, quase tudo o que um entrevistado havia escrito ou sobre o que se escreveu sobre ele. O mesmo procedimento se fosse escrever sobre algum livro. Marco era daqueles sujeitos que tornava melhor quem estava em torno dele. Era exigente de uma maneira extraordinariamente elegante. Era uma exigência exercida não por palavras, mas com seu próprio exemplo de empenho e dedicação.

Quando Marco falava sobre os muitos livros que havia lido para entrevistar alguma pessoa que seria fonte para a biografia era impossível sequer reagir de forma preguiçosamente humana: “era mesmo necessário ler isso tudo?” Porque antes dessa dúvida surgr ele ia contando que só conseguiu formular uma determinada e importante pergunta porque passou a conhecer bem o entrevistado. E havia algo, talvez, ainda maior: com o conhecimento acumulado Marco conseguia estabelecer uma relação tão íntima com o entrevistado que não havia questões sem respostas. Independente da importância da sua fonte de ocasião, ele conversava de igual para igual sem nunca passar uma imagem de soberba. Era um grande conversador. Só pelo que conversamos e bebemos no meu apartamento no Rio podíamos, perfeitamente, sermos patrocinados pelo J&B.

Minha impressão era de que ele sempre soube que faria um grande livro mesmo quando a obra ainda era um grande rascunho que passava pelas mãos de alguns poucos e sortudos amigos, cuja opinião ele respeitava com uma sobriedade incomum (e não me refiro especificamente a escritores).

Marco morreu em junho do ano passado sem ver publicada a biografia, entregue semanas antes à editora Globo. O grande livro que deixou, muito menor do que seu legado pessoal, recebe uma justa homenagem ao figurar entre os finalistas. Mas mesmo que a obra seja premiada, não vai levar, como, aliás, aconteceu no ano passado com o livro A imitação do amanhecer, do poeta Bruno Tolentino. O regulamento diz o seguinte:

7. A classificação final poderá ser alterada caso um dos vencedores seja falecido, conforme descrito em IV – DA PREMIAÇÃO, item 10 – ou se a obra sofrer algum tipo de impugnação julgada procedente pela Comissão do Prêmio.

IV – DA PREMIAÇÃO

10. Obras inéditas de autores falecidos, classificadas pelo júri entre os 3 primeiros lugares, serão transferidas para a seção Homenagem Póstuma da mesma categoria em que tenham sido inscritas, sendo premiadas apenas com o Troféu Jabuti, não concorrendo ao prêmio em dinheiro nem ao Livro do Ano. O lugar deixado vago pela transferência de seção será ocupado pela obra subseqüente na classificação geral da categoria.

Daqui de Lisboa, a torcida por um reconhecimento que agracia a obra e honra seu autor.

O País dos Petralhas, de Reinaldo Azevedo, hoje nas livrarias!

A editora Record informa que o livro O País dos Petralhas, do Reinaldo Azevedo, estaria hoje disponível para venda nas livrarias. No site da editora já é possível comprá-lo.

É o segundo livro do Reinaldo. Sobre o primeiro, o ótimo Contra o consenso (editora Barracuda), escrevi para a Gazeta Mercantil o texto Um bico no consenso. Recomendo entusiasticamente.

Como estou em Lisboa não há chance de comprar O País dos Petralhas pelo Correio. O frete custa um absurdo.

Enfim, leiam e me digam o que acharam.

11 de setembro: um minuto de silêncio

O reflexo diabólico da mentalidade revolucionária

Um dos reflexos mais diabólicos da mentalidade revolucionária, no conceito definido pelo filósofo Olavo de Carvalho, é a inversão das relações entre sujeito e objeto, verdade e mentira. Uma verdade, então, passa a ser denunciada como mentira; a mentira, como verdade.

Na parte da mentira convertida em verdade, temos a campanha difamatória contra Sarah Palin, intensificada a partir do discurso que ela fez na convenção do Partido Republicano que ratificou a nomeação de John McCain como candidato do partido à presidência dos Estados Unidos. Um artigo publicado na Newsweek desmonta as acusações, que incluía desde o corte de 62% nos recursos destinados à crianças portadoras de necessidades especiais (ela triplicou os investimentos na área para os próximos três anos fiscais 2009/2011); passando pela ameaça de incendiar uma livraria que não queria tirar de circulação livros que Palin supostamente queria banir); e que tinha sido filiada ao Alaskan Independence Party, um partido que tenta fazer jus ao próprio nome (o primeiro e único partido a que ela se filiou foi o Republicano em 1981).

Melhor do que a síntese que aqui fiz é ler o texto publicado na Newsweek, que na edição mais recente faz um perfil da governadora do Alaska. Um trecho:

Sliming Palin
False Internet claims and rumors fly about McCain’s running mate.

Brooks Jackson, Jess Henig, Emi Kolawole, Joe Miller and Lori Robertson

We’ve been flooded for the past few days with queries about dubious Internet postings and mass e-mail messages making claims about McCain’s running mate, Gov. Palin. We find that many are completely false, or misleading.

Palin did not cut funding for special needs education in Alaska by 62 percent. She didn’t cut it at all. In fact, she tripled per-pupil funding over just three years.

She did not demand that books be banned from the Wasilla library. Some of the books on a widely circulated list were not even in print at the time. The librarian has said Palin asked a “What if?” question, but the librarian continued in her job through most of Palin’s first term.

She was never a member of the Alaskan Independence Party, a group that wants Alaskans to vote on whether they wish to secede from the United States. She’s been registered as a Republican since May 1982.

Palin never endorsed or supported Pat Buchanan for president. She once wore a Buchanan button as a “courtesy” when he visited Wasilla, but shortly afterward she was appointed to co-chair of the campaign of Steve Forbes in the state.

Palin has not pushed for teaching creationism in Alaska’s schools. She has said that students should be allowed to “debate both sides” of the evolution question, but she also said creationism “doesn’t have to be part of the curriculum.”

We’ll be looking into other charges in an e-mail by a woman named Anne Kilkenny for a future story. For more explanation of the bullet points above, please read the Analysis.

CONTINUA…

Enquanto isso, bObama segue manipulando e omitindo suas inverdades com uma complacência extraordinária. Acho que o único jornalista brasileiro que vem denunciando a mentalidade revolucionária em ação é o próprio Olavo no seus artigos para o Jornal do Brasil e para o Diário do Comércio.

Dia enfurnado na biblioteca

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