Arquivo para Outubro, 2008

Uma delícia chamada Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004

Acabo de chegar de uma prova cega de vinhos na excelente loja Wine O’clock, que fica em Lisboa (por isso, adio a série sobre uísque).

Foram nove vinhos de diferentes regiões. Às marcas:

1- Fronteira Selecção do Enólogo 2003 (Portugal – D’Ouro);

2- Quartetto 2006 (Portugal – Alentejo);

3- L’Excellence de Bonasssia 2006 (Marrocos);

4- Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004 (Portugal – D’Ouro);

5- Nepenthe Pinnacle Zinfandel 2004 (Austrália);

6- Cono Sur 20 Barrel Pinot Noir 2006 (Chile);

7- Glen Carlou Gravel Quarry 2005 (África do Sul);

8- Chryseia 2006 (Portugal – D’Ouro);

9- Symmetria Best Alentejo 2006 (Portugal – Alentejo).

Os vinhos do D’Ouro dominaram a prova. Mas fiquei imensamente feliz por degustar todas as marcas. O único que eu conhecia era o inusitado e saborosíssimo L’Excellence de Bonasssia 2006. Inusitado porque fabricado no Marrocos, lugar que eu sequer imaginava ser possível ter água para irrigação, que dirá para produzir um vinho desse nível e extraordinária relação custo-benefício.

Mas no texto de hoje vou me limitar ao meu preferido da prova: o Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004, produzido na região do D’Ouro, em Portugal:

O aroma é uma excelente prévia do sabor que precede. É daqueles perfumes que preenchem o olfato e preparam o espírito para um sabor tocante. É um vinho forte sem ser rude. Explode na boca liberando felicidades frutadas.

Prefira taças grandes para potencializar a experiência. Além do mais, a bebida exige estar bem vestido e uma amiga/amigo que fale pouco. Para compartilhar esse vinho é necessário certa dose de silêncio contemplativo. E nada de comentários sobre as impressões iniciais. Tal vinho requer conversas prazerosamente frívolas para não macular a apreciação.

Desfrute e civilize-se. Volto na próxima semana.

Artigo no Eu&Fim de Semana do Valor Econômico

Saiu texto meu na edição de hoje do caderno Eu&Fim de Semana do Valor Econômico. O título é Com McCain ou Obama no poder, antiamericanismo deve diminuir. Infelizmente, o site é exclusivo para assinantes. Quem quiser ler o texto onde faço a relação entre eleições americanas e o sentimento antiamericano terá de conseguir o jornal na banca.

Machado de Assis no Ação Humana

Guilherme Roesler, do sempre recomendável Ação Humana, também escreveu sobre Machado de Assis. Sugiro vivamente a leitura:

O que fazem de Machado de Assis?

Machado de Assis está sendo lembrado a todo instante graças ao centenário da sua morte. Não tenho certeza (pois estou fora desse circuito), mas selos postais, cadernos culturais, jornais de bairro e reuniões universitárias e de sindicatos, devem ter todas um quê da aura do antigo morador do Cosme Velho. Eu gosto da sua pessoa (um autêntico self-made man), apesar de não gostar tanto da sua literatura como nos obrigam desde o nascimento. O que me incomoda nem é tanto as constantes evocações ufanistas – julgadas por essa humilde pessoa como legítimas –, mas justamente o espírito que essas mensagens pró-machadianas parecem invocar. Ele foi um grande escritor? Sim, não tenhamos dúvida. Soube como poucos descrever o pathos brasileiro? Verdade, e não há razão para querermos desqualificar a sua obra nesse sentido. Mas uma coisa é apresentarmos o escritor Machado de Assis como um literato, homem das letras, e outra bem distinta é querermos vendê-lo – não encontro palavra melhor – como tendo sido um crítico político e qualificações do gênero.

Alguns querem fazer Machado de Assis um profeta das nações oprimidas da América Latina, cientista social, ou sei lá eu mais o quê. Digo isso porque essas tentativas de fazer de Machado de Assis um observador atento de todas as facetas da vida social brasileira é esvaziar de sobremaneira o conteúdo da sua obra literária. É deixar em segundo plano a sua literatura. Machado era um excelente literati, mas duvido que no momento em que ele estivesse escrevendo sobre Capitu ele também estaria pensando nas implicâncias sócio-familiares que uma suposta traição feminina ocasionaria numa sociedade conservadora e fortemente patriarcal. Essa espécie de interpretação normalmente parece ser construída com o intuito de usar Machado de Assis como autoridade dos pontos de vista daquele que interpreta sua obra. Isso para não fazermos referência ao universo que foi construído ao redor da sua pessoa.

Fortunas foram feitas e carreiras construídas não com base na análise sincera das suas obras (que abrangem a crônica, a poesia e o romance), mas apenas orientadas à busca de, nas suas páginas, encontrarem uma possível evocação (por menor que fosse, não importa) que justificasse o próprio ponto de vista daquele que as estudava. Nesse estágio de interpretação e análise o que menos importa é a literatura de Machado de Assis. O que importa não é tanto o que Machado de Assis escreveu, mas o que poderíamos pensar que ele tivesse escrito. Obvio que esse é um assunto estritamente psiquiátrico, mas pode ser estendido a qualquer autor imaginável. Se quiséssemos, por exemplo, investigar a obra Os Lusíadas de Camões até encontrarmos vestígios de uma crítica ao sistema mercantilista de exploração e dominação; se quiséssemos também considerar que as palavras proferidas pelo Velho de Restelo eram na realidade a opinião privada de Camões, e que ele não as disse por estar impedido por um sistema monárquico que reprimia cruelmente a opinião de poetas e intelectuais, tudo poderíamos, pois que não existem barreiras à imaginação. E teses e dissertações se alimentam dessas pequenas divagações.

Contudo, serão elas necessárias? Até certo ponto creio que não. Quando procuramos um Machado de Assis que foge ao entendimento daquilo que o próprio Machado tinha sobre a sua pessoa, o caminho tomado para se chegar ao autêntico autor deveria ser repensado. Ao contrário do que pretende essa espécie de crítico e intérprete literário que vemos diariamente nos meios de comunicação – onde que para cada problema possível Machado de Assis já elaborou uma respectiva reflexão embebida na mais fina e sublime ironia – os constantes atos de divulgação da sua obra apenas fazem o leitor que procura literatura de qualidade delas se afastar. A partir daí, toda a obra de Machado de Assis passa a ser compreensível apenas aos iniciados de seita por todos conhecida, cujo templo é sempre uma empoeirada academia.

Na mesma quarta-feira publiquei aqui o post Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor, a respeito de um texto publicado no TLS.

PS: Não conheço autor mais usado como arma de destruição em massa de leitores brasileiros do que Machado de Assis.

Ars Traductoris pode virar mensal

O fato é que não consegui dar conta desta seção. Vou avaliar no fim de semana se vale a pena mantê-la como semanal ou transformá-la em mensal. Perdoem-me a, até agora, burla de expectativa.

Obama presidente do mundo?

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A The Economist desta semana declara seu apoio ao candidato do partido Democrata Barack Obama:

The Economist does not have a vote, but if it did, it would cast it for Mr Obama. We do so wholeheartedly: the Democratic candidate has clearly shown that he offers the better chance of restoring America’s self-confidence. But we acknowledge it is a gamble. Given Mr Obama’s inexperience, the lack of clarity about some of his beliefs and the prospect of a stridently Democratic Congress, voting for him is a risk. Yet it is one America should take, given the steep road ahead.

Ao mesmo tempo em que justifica sua tomada de posição com a crença de que Obama mostrou de forma mais clara ser a melhor alternativa para restaurar a autoconfiança dos Estados Unidos, afirma que votar nele é não só uma aposta, mas um risco.

Contra McCain, a desconfiança com o fato de o candidato à presidência contrariar os atos como senador na questão dos impostos, religião, subsídios para biocombustíves e crise financeira.

A escolha da The Economist não surpreende quem a acompanha semanalmente. A surpresa é a fragilidade dos argumentos contra McCain e a favor de Obama (havia críticas mais profundas a se fazer contra ambos os candidatos). Na semana passada, The Economist publicou uma matéria mostrando o crescimento dos Obamacon, conservadores, neoconservadores e gente ligada ao Partido Republicano, como Colin Powell, que declararam apoio ao candidato democrata.

Um desses casos mais emblemáticos é o de Francis Fukuyama, que de ideólogo do movimento neoconservador e acusado de anabolizar intelectualmente o staff do governo George W. Bush, deu uma guinada radical. Depois de lançar o livro America at the crossroads, praticamente uma declaração de independência (ou carta de alforria), declarou apoio a Obama nas páginas da edição de novembro da The American Conservative sob o argumento de que “é difícil imaginar uma presidência mais desastrosa.

Num artigo para o Washington Post, jornal que sempre apóia o Partido Democrata e já havia declarado suporte a Obama, Robert Kagan satiriza o apoio de Fukuyama e do jornalista e editor da Newsweek Fareed Zakaria. Kagan cita a diferença entre o discurso adequadamente otimista sobre o futuro da América mantido por Obama durante a campanha, razão pela qual ele vai bem nas sondagens, e as análises de seus dois apoiadores. “Se ele fosse como Zakaria e Fukuyama diz que ele é, já seria carta fora do baralho”.

Num texto curto para The American Conservative, Llewellyn H. Rockwell Jr. esboça a tragédia representada pelos dois candidatos e defende a liberdade de não votar. Num fecho ao melhor estilo publicista, afirma: “This year especially there is no lesser of two evils. There is socialism or fascism. The true American spirit should guide every voter to have no part of either”.

Na eleição virtual realizada no site da The Economist Obama já está eleito presidente do mundo. Vence em quase todos os países, com exceção de Argélia (McCain 53% x Obama 47%), República Democrática do Congo (McCain 54% x Obama 46%), Myanmar (McCain 53% x Obama 47%), Sudão (McCain 55% x Obama 45%) e Iraque (McCain 59% x Obama 41%).

Há casos interessantes como os de Camboja e Camarões, onde Obama vence com 100% dos votos. E Cuba, onde cada candidato obteve 50% dos votos.

No Brasil, Obama vence com 83% dos votos contra 17% de McCain. Em Portugal, Obama obteve 85% dos votos contra 15%. Somos ou não somos países irmãos?

No final das contas, tenho por Obama uma percepção muito parecida com a que tinha com Lula: o risco de eleger um Messias é ele assumir o governo com a certeza de que o apoio interno e internacional legitima qualquer tipo de ato e decisão. Entregar um cheque em branco para chefe de governo é abrir caminho para as tentações totalitárias que o acometem, em maior ou menor grau, após a conquista do poder.

Hieronymus Bosch


O julgamento final, de Hieronymus Bosch

Sombrio, grave, soturno. Sempre amei Hieronymus Bosch. Com o passar dos anos a sensação aparente de gravidade lúgubre foi sendo lapidada para outros aspectos que exige um mergulho de apreciação. Como mergulhar num quadro? Escolha aquele (ou aqueles) que provoque um prazer estético e, em certa medida, psicológico. Ao longo do tempo, que vai variar de acordo com a dedicação à tarefa, será possível perceber a maravilhosa intimidade criada.

Alguns pintores, como Bosch, exigem um esforço mais intenso. Vale a pena.

Dica para apreciar o quadro que reproduzo aqui: olhe cada ser criado pelo pintor isoladamente. Depois que os tiver escrutinado, com paciência, individualmente, olhe o conjunto, mas forçando o olhar para que todos se destaquem, como se saltassem do quadro. Tendo uma idéia dos indivíduos terás uma compreensão mais aprofundada do conjunto. E assim verás que a aparência antes preponderantemente soturna ganha vivacidade com as nuances da descoberta pessoal.

Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor

Só hoje fui ler um texto publicado no TLS, em 8 de outubro, sobre Machado de Assis:

Realism from Brazil

The genius of Machado de Assis, Rio de Janeiro’s laureate of irony

Machado de Assis
A CHAPTER OF HATS AND OTHER STORIES
Translated by John Gledson
288pp. Bloomsbury. £16.99.

Stephen Henighan

The hills above Rio de Janeiro, now covered with shanty towns, were already poor, marginal districts in 1839, when Joaquim Maria Machado de Assis, a mulatto orphaned at an early age and raised by his black (or possibly mulatta) stepmother, was born. One of the many enigmas which surround Machado de Assis is how a writer whose sensibility is as finely pitched of that of Chekhov, who extended the possibilities of realist fiction through experiments with point of view as subtle as those of Henry James, and whose savage disenchantment might have earned him the respect of Jonathan Swift, emerged from an impoverished background in a tropical empire run on a regime of slavery. It is almost as if Tolstoy, rather than having inherited Yasnaya Polyana, had been born a serf.

Machado educated himself by eavesdropping on lessons given at the girls’ school where his stepmother worked in the kitchen. He persuaded an immigrant baker to teach him French, found an apprenticeship with a printer in order to learn about typesetting and books, taught himself to read English and German, and by the age of twenty-five had become a literary celebrity. Even though slavery was not abolished in Brazil until the year he turned forty-nine, Machado climbed the social ladder with ruthless efficiency. He made a sensible marriage to a cultured white woman from Portugal five years his senior and obtained a post in the Ministry of Agriculture, where he performed his duties with such diligence that he is held up as a model to modern Brazilian civil servants. Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

To some extent Machado’s contradictions are those of Rio de Janeiro. He never travelled abroad and lived in a city which, after Napoleon’s invasion of Portugal in 1808, became the seat of the Portuguese monarchy and the capital of a global empire.Brazilian independence was declared in 1822 by the Prince Regent; where Spanish-speaking republics fought brutal wars of independence against the colonial power, Brazil was a self-proclaimed empire ruled by descendants of the Portuguese royal family. Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation. This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

CONTINUA…

O texto é enorme, por isso não o reproduzi integralmente aqui. Primeiro: é muito bom que seja publicada mais uma edição em inglês com os contos do escritor. Segundo: que o livro seja resenhado no mais importante jornal literário da Inglaterra e um dos mais prestigiados do mundo, que é o TLS.

Mas o texto contém alguns equívocos imperdoáveis, como validar a história segundo a qual Machado aprendera francês na padaria de uma imigrante francesa no Rio. Trata-se de uma lenda já desmentida pelo francês Jean-Michel Massa em seu A juventude de Machado de Assis. O pior, porém, é a análise da obra feita pelo escritor canadense Stephen Henighan:

Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

Machado não era panfletário, como Henighan gostaria que fosse. A sociedade brasileira da época, incluindo suas violências físicas e vícios morais, permeiam a obra. Não é fácil saber o que Machado pensava sobre as injustiças de seu tempo se: a) o leitor for disléxico; b) se o leitor não souber captar a parte substantiva do discurso nas nuances da história. Para o leitor médio, o segundo problema é perdoável e pode ser corrigido. No caso de um indivíduo que se apresenta como intelectual e escreve para o TLS, imperdoável.

Outra pérolas aos porcos:

Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation.

Ai, meus caracóis… Que Machado tinha vergonha de sua origem humilde e étnica, parece não haver dúvidas. E é preciso enquadrar tal sentimento na época. É claro que houve indivíduos e intelectuais que usaram as origens, de forma mais ou menos intensa, como instrumento de insurgência, mas acusar (sim, acusar) o escritor de seguidor de Comte e de Darwin e, por tabela, de pensar sob os grilhões de um virulento determinismo racial é estupidez (recomendo o capítulo de Hitler e os alemães, no qual Voegelin, ancorando-se em Musil, amplia a análise do conceito de estupidez).

Henighan recorre a uma firula para, no fim das contas, dizer implicitamente que Machado era um alienado. O inglês John Gledson, dentre outros, já desfez essa bobagem no livro Machado de Assis: impostura e realismo, Quanto às teorias cientificistas derivadas das obras dos senhores Comte e Darwin, Machado satirizou-as e forma mais evidente em, pelo menos, dois livros: O alienista e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Além do mais, se se pudesse enquadrar o escritor numa categoria seria como monarquista liberal.

Além do mais, não seria um contra-senso, Machado, um mulato, achar que negros eram inferiores e, portanto, se julgar igualmente inferior, e virar a prova concreta de que essa concepção era tão equivocada como absurda?

This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

Entenderam a picaretagem? Henighan simula uma contradição para depois tentar resolvê-la afirmando que Machado nunca escreveu um romance sobre mulatos. Dio Santo! Ele queria que Machado fizesse de um mulato o personagem principal de um livro? Que esse personagem fosse reduzido aos sofrimentos das contingências da época? Que Machado renunciasse a seu gênio de mostrar as violências física e moral mediante um grandioso tratamento literário para elaborar um panfleto?

E quem o grande teórico de Machado cita como exemplo a ser seguido? Bernardo Guimarães. What? No Brasil, só se conhece a história porque virou novela da Globo. Não se conhece o livro nem seu autor (não falo de especialistas e departamentos de universidades, ok?). É um caso raro na literatura médica: o exemplo que diminui. Henighan queria um Machado piorado. É um caso raro, sem dúvida. E eu confesso andar sem entender muito algumas mentes brilhantes.

PS: Por falar em Machado, recebo agora o convite para Um mestre entre as ruínas: Machado de Assis (entrada franca), cujo objetivo é mostrar que o escritor “ultrapassa qualquer classificação ideológica”.

Pai e filho pelos olhos de Hans Staub

Essa imagem do fotojornalista suíço Hans Staub é intensamente delicada. O pai e a criança que selam a despedida temporária com um beijo fraterno do amor filial.

O título da foto é “Em frente ao Kindergarten, Zurique” (1931). Kindergarten é uma creche (obrigado, caro Michael Seufert). A despedida se explica com o pai deixando o filho pequeno para mais um dia de atividades.

Mesmo antes de buscar essa história a foto se apresentara tão intensa e bela que prescindia de explicações:

A cena me remete a todas as vezes em que deixei meu filho Bernardo na escola. Bernardo, que tem 10 anos, está no Brasil e amanhã vai participar de um recital de piano no Conservatório de Música onde estuda. Amanhã seria o dia de repetir a cena da foto, levando-o ao ensaio e, depois, ao local da apresentação.

Uma saudade que só não supera o orgulho e admiração pelo filho que amo.

Será Obama um realista nas relações internacionais?

Seria Barack Obama um realista puro? Para Fareed Zakaria , o candidato do Partido Democrata defende uma visão de mundo muito mais próxima da tradição realista do que daquela típica da esquerda americana. Zakaria fundamenta sua tese em alguns pontos:

1) a declarada simpatia de Obama pela política externa realista do governo Bush;
2) a individualização dos estados com sua complexidade e motivação pelo poder sem dividir o mundo de forma maniqueísta;
3) a diplomacia motivada pela noção de que é possível influenciar outros países;
4) a idéia segundo a qual ao garantir que as necessidades básicas sejam satisfeitas (comida, segurança, alimentação) a sociedade buscará um tipo de regime democrático;
5) a visão conservadora de um desenvolvimento democrático lento, gradual e orgânico;
6) o respeito pelas tradições e a valorização da continuidade e da estabilidade do interesse próprio às vezes muito mais forte do que a promoção de mudanças;
7) a necessidade de garantir a segurança do país em vez de investir esforços na democratização do Iraque, que representaria um importante papel na luta contra o extremismo islâmico;
8 ) a defesa da cooperação entre os maiores poderes mundiais para solucionar os grandes problemas mundiais, como, por exemplo, a proliferação nuclear com a Rússia e a econômica com a China.

Antes de avançar é preciso ter em mente que o “realismo tem sido a tradição dominante no pensamento sobre a política internacional”, segundo Joseph Nye Jr. em seu livro Compreender os conflitos internacionais. Uma introdução à teoria e à história. Sendo os estados os actores principais, a guerra e o uso da força são, segundo a abordagem realista, o problema central da política internacional, cujo princípio e fim são “o estado individual em interacção com outros estados”. Dois dos grandes representantes do realismo foram o presidente americano Richard Nixon e seu secretário de estado, Henry Kissinger.

É reveladora, mesmo que equivocada, a menção feita a Kissinger por Obama no primeiro debate presidencial realizado em 26 de outubro. O candidato dos Democratas invocou o ex-secretário de estado para defender uma negociação de alto nível e sem precondições com o Irão (como já havia proposto em relação à Cuba e à Venezuela), embora acredite que o país, junto com a Síria, apóie o Hezbollah.

A relação com Kissinger é estabelecida por Zakaria, para quem a reacção de Obama contra as propostas de McCain para as relações com a Rússia e China poderiam ter sido esboçadas por Kissinger. E não deixa de ser sintomático — por tributário do realismo — o elogio de Obama à política externa da administração Bush: “It’s an argument between ideology and foreign-policy realism. I have enormous sympathy for the foreign policy of George H.W. Bush”. Mas ao contrário do que diz Zakaria também há um viés moral nos discursos de Obama, chamado de intervencionista por Robert Kagan.

Quando Zakaria afirma que Obama rejeita a obsessão de Bush pela defesa dos direitos políticos e eleições transmite a falsa idéia de que o candidato democrata vê ambos os instrumentos da democracia como desimportantes, opinião desmentida pelos seus discursos. Inclusive, nem a tese do texto do editor da Newsweek é original. Em 2007, o The Wall Street Journal já havia se referido a Obama como realista e, depois, vários comentadores passaram a fazer essa relação.

O ponto interessante do enquadramento teórico estabelecido a partir do que tem dito o candidato do Partido Democrata é mostrar que seu discurso tem quase nada de “change”, a palavra convertida em mantra da campanha, e muito daquela continuidade conservadora identificada por Larissa MacFarquhar (enquadramento também defendido por Pepe Escobar). A jornalista também notou que o candidato Democrata fala sobre princípios da esquerda (liberal) numa linguagem conservadora.

Os simpatizantes, defensores e eleitores de Obama estão, às vezes sem perceber, legitimando a política externa do presidente George W. Bush contra a qual McCain, colega de partido, já se posicionou de forma específica e pontual. Se é possível estabelecer certos parâmetros para enquadrar Obama como realista e McCain como idealista, também é preciso levar em consideração que as idéias políticas expressas por ambos os candidatos são um mix de abordagens que torna mais rica e complexa a análise da política das relações internacionais americana.

PS: Este texto foi feito e apresentado numa das cadeiras do mestrado, por isso a grafia à portuguesa de algumas palavras e o tom mais acadêmico do texto. Coloquei aqui para dividir com aqueles que gostam questões envolvendo relações internacionais.

Orwell, GQ e Fábio Danesi Rossi

LIVROSThe collected essays, journalism and letters: Volume 1, de George Orwell. Para quem gosta de ensaios sobre literatura e política corra para ler o livro.

Quem só conhece a literatura de Orwell vai descobrir o ensaísta admirável e sagaz. Quem já leu os ensaios vai ficar maravilhado com esse livro. Os textos das resenhas e cartas são primorosos. Das missivas, prestem atenção nas destinadas a T. S. Eliot, Cyril Connolly e Geoffrey Gorer. Das resenhas, as sobre os livros The two Carlyles, de Osbert Burdett, e The civil war in Spain, de Frank Jellinek, para citar apenas duas.

REVISTA – GQ. A versão portuguesa da sofisticada revista masculina Gentlemen’s Quarterly tem colunas assinadas por Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Gross (sobre cinema) e João Pereira Coutinho, que assina uma entrevista mensal. Na edição deste mês, João conversa com a sempre bela e interessante Bruna Lombardi. Infelizmente, a revista não tem site e só pode ser apreciada pelos leitores portugueses deste blogue. Pena.

BLOGUEFDR. Não, não é Franklin Delano Roosevelt. É Fábio Danesi Rossi, o homem, a lenda. Leio seu blogue sempre chateado com suas citações de: 1) filmes que ainda não vi; 2) pratos que ainda não provei; 3) vinhos que ainda não degustei; 4) concertos que ainda não fui; 5) músicas que ainda não ouvi. Fábio e seu talento monstruoso para ser witty e educador. Sempre comento com as pessoas que conheço, como se fosse meu e sem citar a fonte, um post do Fábio escrito na época em que Lula queria expulsar o correspondente do New York Times, Larry Rohter:

Green and Yellow Label

Lula (voz de bêbado): “Revoguem o Passport do correspondente do NY Times. É um péssimo uísque.”

*

Lula (para o correspondente do NY Times): “Keep walking, keep walking…”

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