
Tem livros que martelam a cabeça mesmo que, à primeira leitura, não tivessem tido um impacto positivo. Como o gole de uma bebida que desce atravessado. Não me livro da inquietude sentida ao ler Graciliano Ramos. Primeiro Vidas secas. Em seguida, Memórias do cárcere. Depois, Angústia.
Antes de continuar, permitam-me uma divagação: não sei como não virei comunista. Ah, sei, sim. Tenho uma família que eu amo. O que quer dizer isso? Minha família, desde sempre, rejeitou idéias de esquerda. Fui criado no melhor dos ambientes conservadores, com todos trabalhando na iniciativa privada e assumindo os riscos, conseqüências (com trema mesmo, contra o Acordo Ortográfico) e benefícios. Minha relação com o comunismo? Aos 10 anos li Brasil Nunca Mais, aquele livro com depoimentos de pessoas torturadas pela ditadura militar. Fiquei horrorizado, claro. Nenhuma criança podia ler aquilo. Se bem me lembro, uma professora citou o livro numa aula de história. Lembro de ter sentido ódio, que permanece, contra todos aqueles que apareciam lá acusados de serem os torturadores. Anos depois, fui ler Olga, de Fernando Morais, biografia da comunista alemã que veio para o Brasil como segurança de Luís Carlos Prestes. Terminei o livro com a certeza de que Prestes era um herói. Fui pesquisar. Vi que o sistema político que ele queria implantar no Brasil, não, obrigado, não era para mim e para nenhuma das pessoas que eu queria bem.

Divaguei que só eu. Graciliano? Ah, sim, Memórias do Cárcere foi um choque. O homem preso pelo que acreditava? Que diabos de país era aquele que prendia quem do governo discordava? O problema estava posto e eu tinha que juntar peças. Nada justifica o horror da prisão, das torturas, de todo o resto. Nada justifica um homem como Graciliano ser comunista. Eis o paradoxo que não cabia a mim resolver: o escritor, já morto, legara a obra. Uma obra extraordinária.
A robustez e abundância de seu texto é o resultado de um monstruoso talento literário. E julgo a obra apenas por aqueles três livros. Não li Caetés, São Bernardo, Insônia. Vou ler, claro. Mais para frente. É possível julgar o escritor por três livros? Sim, se forem livros grandiosos. Machado de Assis, embora a fama que obtivera como escritor, só tornou-se, de fato, grande após a “segunda fase”, aquela de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Memorial de Aires. Machado não precisava ter escrito nada mais. Mas chegaria a eles sem as experiências anteriores? Sabe-se lá.
Se ainda não leram Graciliano, corram. Se leram alguns dos livros, avancem nos outros. E só leiam crítica literária séria sobre a obra depois de ler os livros pilares.
Alguns links:
- Graciliano Ramos – site oficial muito bem feito que contém as informações básicas.
- Site com três contos: A safra de tatus, O estribo de prata e O pequeno pedinte.
Fiquei muito mal impressionado com os poucos sites e informações sobre Graciliano na internet. Sendo o escritor que é devia receber mais atenção. Enfim.
Divirtam-se, meus caros.
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Angelo Galvão fez um comentário tão rico de informações desconhecidas para mim que gostaria de dividir com todos e deixar neste post como testemunho (obrigado, Angelo):
Infelizmente, meu caro Garschagen, o livro “Memórias do Cárcere” não constitui as verdadeiras memórias do cárcere de Graciliano Ramos. Primeiro, o partido comunista tentou impedir sua publicação à todo custo. Depois, autorizou(!) a publicação com cortes e alterações.
O fato foi denunciado à epoca pelo crítico Wilson Martins n’O Estado de São Paulo, que voltou a se referir ao assunto em recente artigo sobre seu relacionamemto com o editor José Olympio:“Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada pela Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três “originais”, datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos “originais”, as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade.
“Denunciei o fato em O Estado de S. Paulo, daí resultando os violentos ataques com que me mimosearam os porta-vozes oficiosos do Partido, o que, de resto, confirmava que, efetivamente, tinha havido censura. Como é natural, o episódio magoou José Olympio, ele próprio ludibriado por tantas manipulações. Anos depois, Ricardo e Clara Ramos, filhos de Graciliano, confirmaram em livros convenientemente abafados, que, de fato, o texto autêntico tinha sido adulterado por imposição do Partido” (http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=819380&tit=Minhas-relacoes-com-Jose-Olympio)
Eis a tara totalitária dessa gente que se considera o primeiro escalão da humanidade…
Angelo Galvão
Excelente indicação Garschagen. Já li Caetés, Insônia, Infância e São Bernardo. Graciliano, no meu modo de ver, é o prosador brasileiro que mereceu, mais do qualquer outro, o Nobel de Literatura.
São Bernardo e Insônia são maravilhosos – embora o segundo seja um tanto injustiçado. Infância também, sério concorrente a maior obra de Graciliano. Caetés é de longe o mais fraco, mas tem algumas coisas boas.
Infelizmente, meu caro Garschagen, o livro “Memórias do Cárcere” não constitui as verdadeiras memórias do cárcere de Graciliano Ramos. Primeiro, o partido comunista tentou impedir sua publicação à todo custo. Depois, autorizou(!) a publicação com cortes e alterações.
O fato foi denunciado à epoca pelo crítico Wilson Martins n’O Estado de São Paulo, que voltou a se referir ao assunto em recente artigo sobre seu relacionamemto com o editor José Olympio:
“Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada pela Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três “originais”, datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos “originais”, as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade.
“Denunciei o fato em O Estado de S. Paulo, daí resultando os violentos ataques com que me mimosearam os porta-vozes oficiosos do Partido, o que, de resto, confirmava que, efetivamente, tinha havido censura. Como é natural, o episódio magoou José Olympio, ele próprio ludibriado por tantas manipulações. Anos depois, Ricardo e Clara Ramos, filhos de Graciliano, confirmaram em livros convenientemente abafados, que, de fato, o texto autêntico tinha sido adulterado por imposição do Partido” (http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=819380&tit=Minhas-relacoes-com-Jose-Olympio)
Eis a tara totalitária dessa gente que se considera o primeiro escalão da humanidade…
PS: Parabéns pelas novidades do site.
Angelo Galvão
A prosa de Graciliano, para o meu gosto, fica atrás apenas da de Machado. E «Caetés», se não me engano, foi o primeiro romance publicado. Talvez por isso seja mesmo o que o Jonas definiu como «o mais fraco».
Abraços.
Desculpe a intimidade, mas o Velho Graça, eu li a obra completa aos 15 anos. Claro, tive que reler e reler e reler depois para apreender as riquezas de estilo e afins. Esta notícia, dada pelo Ângelo Galvão, é uma bomba para mim.
Um dos poucos pecados ideológicos de Graciliano Ramos é o livro Viagem, pois ele foi a Rússia, com Stálin ainda vivo, e não deu um pio sobre o inferno soviético.
Sobre Memórias do cárcere: merecemos então uma edição mais próxima do original, se isso for possível, claro.
Jonas Lopes, meu caro, um dos meus votos vai para Infância.