
Tenho pesquisado regularmente sobre blogues, especificamente os estudos desenvolvidos que não se limitem aos estereótipos e à difusão de diversas formas de estupidez travestidas de análises críticas. É ainda incipiente a literatura acadêmica sobre o assunto. Mas noto em alguns textos um esforço interessante de investigação, mesmo quando por vezes falte profundidade e conhecimento.
Numa das pesquisas que fiz encontreo um estudo sobre a blogosfera portuguesa feito em 2004. O Fenómeno dos Blogues em Portugal parte do seguinte problema:
Será que o aparecimento dos blogues pode ser comparável aos órgãos de comunicação social convencionais ou, pelo contrário, é caracterizado por uma especificidade própria baseada no anonimato dos autores e na importância dos factos que ocorrem na sociedade?
Durante muito tempo a discussão enveredou pelo caminho comparativo com a mídia tradicional. É compreensível que uma nova tecnologia suscite tal indagação, mas colocá-la como problema principal é tratar da manifestação do evento e não de sua origem: o acesso livre e barato que permitiu a qualquer pessoa ter a liberdade de escolha para escrever e ser lido. Pela sua amplitude e diversidade é ainda preferível tratar o blogue como uma ferramenta que permite várias possibilidades de comunicação e enquadrar as classificações por temas. Dividir as análises facilita o processo de estudo e depuração.
O estudo está datado, sem dúvida. A maioria da questões vale pelo registro histórico que permite uma comparação com o que temos agora. Leiam esse trecho:
Uma outra questão que pretendemos esclarecer está relacionada com a informação que circula nos blogues. Nesta hipótese, partimos do pressuposto que a dinâmica é maior quando surgem acontecimentos relevantes na sociedade, quer ao nível económico, político, cultural ou social. Isto porque estes acontecimentos funcionam como argumento para comentar nos blogues.
Os blogues mais dinâmicos são, obviamente, aqueles que usam o factual como objeto de análise. E é nesse momento que surge o fator complementar entre a mídia tradicional e o blogue, que difunde a informação embalada pela opinião. E o estudo acaba por reforçar a imagem que ainda se tem do blogue como meio não-confiável, apesar de na conclusão a autora avisar que a maioria dos entrevistados negam que os blogues funcionem “como uma alternativa aos meios de comunicação social”.
Outra questão:
No entanto, a informação que circula é filtrada pelos autores e pode ser proveniente das mais diversas fontes, muitas vezes não identificadas nem seguras. Assim, esta informação pode surgir a partir de rumores, uma situação estudada por Allport e Postman na década de 40.
A informação veiculada num blogue é tão filtrada quanto a dos grandes jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. Se naquelas empresas há editores para cumprir tal função, no blogue essa função é exercida pelo blogueiro. E grande parte dos blogues já identificam as fontes de informação como forma de conferir credibilidade à página virtual e legitimar a opinião. A difusão de rumores é algo latente nos blogues dedicados às celebridades, não naqueles que me interessam.
A grande falha do trabalho é justamente analisar o blogue de forma geral. Ao não esboçar categorias de análise, dividindo os critérios de avaliação por assuntos, assumiu o risco de tirar conclusões equivocadas porque usa como objeto de avaliação blogues muito diferentes, tanto aqueles dedicados à narrativa diária narcisista como os de comentários literários ou políticos ou econômicos.
O estudo falha ao lançar um olhar antigo sobre um tema novo. Outro exemplo:
Apesar da liberdade de expressão característica da sociedade actual, ainda hoje determinados indivíduos têm tendência a omitir as suas verdadeiras opiniões quando integrados em grupos em que a medida de pensamento maioritária não é concordante com a sua.
Essa constatação pode ser aplicada a vários aspectos da comunicação social e é inserida no texto como se fosse uma exclusividade dos blogues. Não é. Até o pipoqueiro da praça, numa convenção de pipoqueiros, demonstra uma “tendência a omitir as suas verdadeiras opiniões quando integrados em grupos em que a medida de pensamento maioritária não é concordante com a sua”.
Das conclusões, as conclusões:
Em primeiro lugar, realçamos que a maioria dos utilizadores criou o seu blogue pela necessidade de expressar opiniões. Já 32% acrescentam ainda que o fizeram com vista a partilhar informação que se encontra na Internet ou fora dela.
Partilhar informação é uma maneira de expressão opinião de forma não-explícita. As escolhas revelam o homem, mesmo que pelas palavras de outros.
(…) podemos afirmar que os professores (de diversos níveis de escolaridade), os jornalistas e os estudantes são os maiores adeptos dos blogues. Depois, é ainda de referir a forte presença de gestores, advogados e arquitectos no seio da blogosfera, pelo que concluímos que os adeptos dos blogues se dedicam a profissões liberais ou são estudantes. No que concerne à idade, a faixa etária predominante situa-se entre os 25 e os 39 anos, o que à partida revela uma tendência para indivíduos com uma certa consciência pública. Relativamente ao género, são os homens que mais se dedicam aos blogues, o que pode ser justificado pelo que provavelmente também acontece nos meios de comunicação social – a audiência parece ser suportada essencialmente por indivíduos do sexo masculino. De facto, os homens têm aparentemente mais tempo disponível para dedicarem a estas questões, uma vez que a estrutura social indica a uma maior sobrecarga para os elementos do sexo feminino, no que concerne a tarefas domésticas e educativas a somar à sua vida profissional.
Duas afirmações que me causam certa confusão:
1) a maior quantidade de blogueiros homens é explicada pelo público leitor, majoritariamente masculino.
2) a maior quantidade de blogueiros homens é justificada pelo maior tempo disponível dos homens para blogar porque a mulher, coitada, está presa aos afazeres domésticos além da vida profissional. Homem que bloga é aquele que dá jeito; mulher-blogueira, só a desocupada.
Ambas as conclusões não podem ser do pequeníssimo e limitadíssimo universo da pesquisa.
Por que comento o estudo se dele quase nada se aproveita? Para mostrar como se analisava o fenômeno e fazer do trabalho uma ponte para as reflexões que permitem entender um pouco mais o universo dos blogues.
Até a próxima semana.