Arquivo para Dezembro, 2008



Number One 1948, de Jackson Pollock

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Number One 1948, de Jackson Pollock

Eu tinha tudo para não gostar de Jackson Pollock. Mas gosto de sua fase action painting. Gosto muitíssimo. As séries de quadros feitas com essa técnica são profundamente magnéticas. Eu fico paralisado, absorto. É uma queda, muito mais do que um mergulho. Quedem-se por Pollock.

Entrevista de JPCoutinho a Martim Vasques da Cunha no IICS

Dia corrido. Saio agora para aulas do mestrado. Enquanto isso, fiquem com a bela conversa do Martim Vasques da Cunha, do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), com João Pereira Coutinho, que fez palestra e ministrou um curso sobre política no IICS (vídeo extraído do site da Dicta):

Quem estiver por Londres e se interesse por literatura não perca a conferência sobre Fernando Pessoa

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Estudo sobre blogues em Portugal

Tenho pesquisado regularmente sobre blogues, especificamente os estudos desenvolvidos que não se limitem aos estereótipos e à difusão de diversas formas de estupidez travestidas de análises críticas. É ainda incipiente a literatura acadêmica sobre o assunto. Mas noto em alguns textos um esforço interessante de investigação, mesmo quando por vezes falte profundidade e conhecimento.

Numa das pesquisas que fiz encontreo um estudo sobre a blogosfera portuguesa feito em 2004. O Fenómeno dos Blogues em Portugal parte do seguinte problema:

Será que o aparecimento dos blogues pode ser comparável aos órgãos de comunicação social convencionais ou, pelo contrário, é caracterizado por uma especificidade própria baseada no anonimato dos autores e na importância dos factos que ocorrem na sociedade?

Durante muito tempo a discussão enveredou pelo caminho comparativo com a mídia tradicional. É compreensível que uma nova tecnologia suscite tal indagação, mas colocá-la como problema principal é tratar da manifestação do evento e não de sua origem: o acesso livre e barato que permitiu a qualquer pessoa ter a liberdade de escolha para escrever e ser lido. Pela sua amplitude e diversidade é ainda preferível tratar o blogue como uma ferramenta que permite várias possibilidades de comunicação e enquadrar as classificações por temas. Dividir as análises facilita o processo de estudo e depuração.

O estudo está datado, sem dúvida. A maioria da questões vale pelo registro histórico que permite uma comparação com o que temos agora. Leiam esse trecho:

Uma outra questão que pretendemos esclarecer está relacionada com a informação que circula nos blogues. Nesta hipótese, partimos do pressuposto que a dinâmica é maior quando surgem acontecimentos relevantes na sociedade, quer ao nível económico, político, cultural ou social. Isto porque estes acontecimentos funcionam como argumento para comentar nos blogues.

Os blogues mais dinâmicos são, obviamente, aqueles que usam o factual como objeto de análise. E é nesse momento que surge o fator complementar entre a mídia tradicional e o blogue, que difunde a informação embalada pela opinião. E o estudo acaba por reforçar a imagem que ainda se tem do blogue como meio não-confiável, apesar de na conclusão a autora avisar que a maioria dos entrevistados negam que os blogues funcionem “como uma alternativa aos meios de comunicação social”.

Outra questão:

No entanto, a informação que circula é filtrada pelos autores e pode ser proveniente das mais diversas fontes, muitas vezes não identificadas nem seguras. Assim, esta informação pode surgir a partir de rumores, uma situação estudada por Allport e Postman na década de 40.

A informação veiculada num blogue é tão filtrada quanto a dos grandes jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. Se naquelas empresas há editores para cumprir tal função, no blogue essa função é exercida pelo blogueiro. E grande parte dos blogues já identificam as fontes de informação como forma de conferir credibilidade à página virtual e legitimar a opinião. A difusão de rumores é algo latente nos blogues dedicados às celebridades, não naqueles que me interessam.

A grande falha do trabalho é justamente analisar o blogue de forma geral. Ao não esboçar categorias de análise, dividindo os critérios de avaliação por assuntos, assumiu o risco de tirar conclusões equivocadas porque usa como objeto de avaliação blogues muito diferentes, tanto aqueles dedicados à narrativa diária narcisista como os de comentários literários ou políticos ou econômicos.

O estudo falha ao lançar um olhar antigo sobre um tema novo. Outro exemplo:

Apesar da liberdade de expressão característica da sociedade actual, ainda hoje determinados indivíduos têm tendência a omitir as suas verdadeiras opiniões quando integrados em grupos em que a medida de pensamento maioritária não é concordante com a sua.

Essa constatação pode ser aplicada a vários aspectos da comunicação social e é inserida no texto como se fosse uma exclusividade dos blogues. Não é. Até o pipoqueiro da praça, numa convenção de pipoqueiros, demonstra uma “tendência a omitir as suas verdadeiras opiniões quando integrados em grupos em que a medida de pensamento maioritária não é concordante com a sua”.

Das conclusões, as conclusões:

Em primeiro lugar, realçamos que a maioria dos utilizadores criou o seu blogue pela necessidade de expressar opiniões. Já 32% acrescentam ainda que o fizeram com vista a partilhar informação que se encontra na Internet ou fora dela.

Partilhar informação é uma maneira de expressão opinião de forma não-explícita. As escolhas revelam o homem, mesmo que pelas palavras de outros.

(…) podemos afirmar que os professores (de diversos níveis de escolaridade), os jornalistas e os estudantes são os maiores adeptos dos blogues. Depois, é ainda de referir a forte presença de gestores, advogados e arquitectos no seio da blogosfera, pelo que concluímos que os adeptos dos blogues se dedicam a profissões liberais ou são estudantes. No que concerne à idade, a faixa etária predominante situa-se entre os 25 e os 39 anos, o que à partida revela uma tendência para indivíduos com uma certa consciência pública. Relativamente ao género, são os homens que mais se dedicam aos blogues, o que pode ser justificado pelo que provavelmente também acontece nos meios de comunicação social – a audiência parece ser suportada essencialmente por indivíduos do sexo masculino. De facto, os homens têm aparentemente mais tempo disponível para dedicarem a estas questões, uma vez que a estrutura social indica a uma maior sobrecarga para os elementos do sexo feminino, no que concerne a tarefas domésticas e educativas a somar à sua vida profissional.

Duas afirmações que me causam certa confusão:

1) a maior quantidade de blogueiros homens é explicada pelo público leitor, majoritariamente masculino.

2) a maior quantidade de blogueiros homens é justificada pelo maior tempo disponível dos homens para blogar porque a mulher, coitada, está presa aos afazeres domésticos além da vida profissional. Homem que bloga é aquele que dá jeito; mulher-blogueira, só a desocupada.

Ambas as conclusões não podem ser do pequeníssimo e limitadíssimo universo da pesquisa.

Por que comento o estudo se dele quase nada se aproveita? Para mostrar como se analisava o fenômeno e fazer do trabalho uma ponte para as reflexões que permitem entender um pouco mais o universo dos blogues.

Até a próxima semana.

Leia o post abaixo; logo mais, o post de cima

Só hoje consegui fazer o post de ontem, o Ex-libris que se lê abaixo. Escrevo aqui para convidar-vos à leitura não só do post, mas da obra de Sertillanges. Enquanto isso, vou aqui escrevendo o Blogues em debate que entra no ar logo mais. Até.

A vida intelectual, de Antonin-Dalmace Sertillanges

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Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar a idéia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos.

Comecei a ler, por prazer e diariamente, tarde. Lá pelos 22, 23 anos. As lembranças das primeiras descobertas literárias converteram-se em memória vigorosa. As descobertas recentes e releituras são uma catedral de prazeres renovados.

Nunca entendi a leitura como utilidade. Não pensava na leitura de um livro segundo seu potencial prático, de uso mesmo. Ler se identificava mais com o hedonismo ético de Platão e Aristóteles, e com um aspecto específico do utilitarismo de Stuart Mill: a importância concedida aos prazeres do espírito e aos sentimentos nobres, o amor, honestidade, amizade (cada dia discordo mais do entendimento de Mill sobre o ser humano, que ao mesmo tempo buscaria, na mesma proporção e de forma universal, a própria felicidade e a de seus semelhantes além de tomar para si a missão de aperfeiçoar a humanidade, algo que me cheira a enxofre).

Há no prazer do conhecimento algo intrínseco que pode ou não ser manifestado da melhor maneira: seu valor pedagógico. Em alguns espíritos, naqueles que me interessam como sócios de interesses, a apreensão intelectual provoca emoção individual e resulta na educação informal daqueles que estão à volta e abertos à percepção. O efeito de suas presenças é consagrador.

A frase que inaugura este post abre essa maravilha batizada de A vida intelectual, do filósofo francês Antonin-Dalmace Sertillanges, reconhecido por seus estudos sobre Tomás de Aquino. É uma obra admirável por aquilo que está escrito (a sistematização de um estilo de estudo) e por aquilo que deixa implícito (a dedicação e o esforço abnegado para chegar até ali e compartilhá-los com os interessados).

Concordo com a avaliação de James V. Schall, que fez o prefácio à edição americana: A vida intelectual é uma obra incomum que depois se torna extremamente exigente. “Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar nossas anotações e com isso, nosso pensamento”.

São 12 capítulos de sabedoria convertida em sugestões de como burilar a apreensão pela razão e experiência. O capítulo VI começa com uma dica improvável e eficaz: A – A Leitura; I- Ler pouco:

Primeira regra: lede pouco. (…)

A “paixão” da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma, retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.
Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e
concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, por tomos. (…)

Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, excepto nos momentos de distracção, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio.

Alguns filósofos, entre eles Sertillanges, me orientaram nesse sentido: eu não precisava pretender ler tudo, nem me angustiar com essa completa impossibilidade. A escolha do que se lê, segundo aquilo que se pretende, é uma grande decisão. A partir daí estudar detidamente as obras escolhidas e não perder tempo, algo que não se recupera.

A vida intelectual é tanto uma obra pedagógica como um robusto estimulante do espírito.

Liberalismo e cristianismo

Via O Indivíduo, reproduzo aqui o trecho de uma reportagem sobre comentários do papa Bento XVI sobre liberalismo:

Liberalismo precisa voltar a abrir-se para Deus, adverte Papa

Em uma carta enviada a Marcello Pera por ocasião de seu último livro

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 2 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- Bento XVI escreveu uma carta ao filósofo e senador italiano Marcello Pera para agradecer a contribuição que oferece em seu último livro, dedicado a expor que o fundamento do liberalismo se encontra na relação da pessoa com Deus.

O volume, que leva por título «Por que temos que dizer-nos cristãos. O liberalismo, Europa, a ética» («Perché dobbiamo dirci crisiani. Il liberalismo, l’Europa, l’etica», Mondadori, Milão, 2008), será apresentado nesta quinta-feira em Roma.

Após confessar que foi «uma leitura fascinante», o Papa elogia a análise que faz do liberalismo «a partir de seus fundamentos, mostrando que na essência do liberalismo se encontra o enraizamento na imagem cristã de Deus: sua relação com Deus, de quem o homem é imagem e de quem recebemos o dom da liberdade».

Marcello Pera (Lucca, 28 de janeiro de 1943), presidente do Senado italiano na última legislatura, dedicou sua pesquisa acadêmica ao filósofo austríaco Karl Popper, teórico da «sociedade aberta», de quem era amigo pessoal.

«Com uma lógica irrepreensível, você mostra como o liberalismo perde sua base e se destrói se abandona este fundamento», reconhece o bispo de Roma.

O Papa também manifesta sua admiração pela análise que o filósofo faz da liberdade e da multiculturalidade, na qual «mostra a contradição interna deste conceito e, portanto, sua impossibilidade política e cultural».

«É de importância fundamental sua análise sobre o que podem ser a Europa e uma Constituição européia na qual a Europa não se transforme em uma realidade cosmopolita, mas que encontre, a partir de seu fundamento cristão-liberal, sua própria identidade», assinala.

O Santo Padre se detém também na análise do senador sobre os conceitos de diálogo inter-religioso e intercultural.

«Você explica com grande clareza que um diálogo inter-religioso, no sentido estrito da palavra, não é possível, e que é particularmente urgente o diálogo intercultural, que aprofunda nas conseqüências culturais da decisão religiosa de fundo.»

«Ainda que sobre esta última, um verdadeiro diálogo não é possível sem pôr entre parênteses a própria fé, é necessário enfrentar no debate público as consequências culturais das decisões religiosas de fundo», indica.

O Papa considera que as propostas de Pera são necessárias para superar «a crise contemporânea da ética».

«Você mostra que o liberalismo, sem deixar de ser liberalismo, mas sim, para ser fiel a si mesmo, pode referir-se a uma doutrina do bem, em particular à cristã, que lhe é familiar, oferecendo assim verdadeiramente uma contribuição para superar a crise», indica.

CONTINUA…

“O governo não vai pagar sua fatura de cartão de crédito ou o seu condomínio. Mas estará sempre lá para retirar os impostos, mesmo daqueles que pouco podem contribuir, para sustentar a burocracia e a ineficiência estatal”

É sempre um prazer ler os textos do jornalista Renato Lima, que ontem publicou no Jornal do Commércio, do Recife (com link no Café Colombo), uma análise sobre o reflexo da crise econômica no Brasil e adverte os brasileiros a NÃO seguirem o conselho do presidente Lula:

Sobre maus conselheiros

Renato Lima

O presidente Lula está pregando incessantemente que o brasileiro consuma para evitar a crise. De acordo com o mandatário maior, quem deixa de comprar por medo de perder o emprego, disse o presidente durante visita ao Recife na segunda e terça-feira, não percebe que ao deixar de consumir está justamente provocando a sua demissão. A lógica é canhestra, mostra que o governo ainda trata um assunto sério como se fosse uma trivialidade e agora optou por transferir a culpa da crise para o cidadão comum.

O Brasil é afetado diretamente pela crise por várias vias. A desvalorização do câmbio aumenta o preço dos produtos importados e repercute na inflação. A queda no preço das commodities diminuirá as exportações brasileiras. Só a Vale do Rio Doce já demitiu 1.300 pessoas e colocou outras 5.500 em férias coletivas. Está tão difícil conseguir crédito que até a Petrobras teve que recorrer a bancos públicos para tocar o dia-a-dia de suas operações. A brutal queda da Bolsa de Valores diminuiu a riqueza de inúmeros pequenos investidores e barrou, pelo momento, a entrada de novas empresas na bolsa, que era uma forma barata de financiar expansão.

Sim, a crise chegou ao Brasil. O impacto varia de setor para setor, mas existe. Somado ao fato de que continuamos um país difícil para se fazer negócios, com um governo ineficiente e que pune o empreendedorismo com uma das maiores tributações entre os países em desenvolvimento, é preciso cautela com o futuro. Tudo o que o governo não prega.

Nos primeiros sinais de crise internacional, Lula, o otimista, duvidou que ela chegasse ao Brasil. E, se aparecesse por aqui, seria uma “marolinha”. Também se gabou de ter ligado para (George) Bush e “mandado” que ele resolvesse a crise. Agora que os sinais estão claros e setores começam a demitir, vemos uma mudança de análise, mas ainda distante do bom senso. O presidente encontrou um novo personagem a culpar: você, consumidor, que ainda paga as maiores taxas de juros do mundo, enfrenta uma carga tributária de país desenvolvido, trafega em estrada esburacada. “Se” a crise chegar ao Brasil, já diagnosticou Lula, a culpa será sua, que parou de consumir.

Pois seja sensato. Poupe. Guarde para a posteridade. Não dá para confiar no SUS ou no INSS. O governo não vai pagar sua fatura de cartão de crédito ou o seu condomínio. Mas estará sempre lá para retirar os impostos, mesmo daqueles que pouco podem contribuir, para sustentar a burocracia e a ineficiência estatal – ressalvando pontuais excessões. A maior “bolsa” desse governo não foi a Bolsa-Família, mas a “funcionário público”. Estes estão imunes à crise, pois possuem estabilidade e salários crescentes. O restante corre o risco de perder o emprego e ainda ficar devendo – se seguir o conselho de Lula.

João Ubaldo Ribeiro: “Não preciso mais ler muito pra saber se o livro tem qualidade ou não”

Uma bela conversa com o escritor João Ubaldo Ribeiro no Rascunho. Destaco uma resposta que ecoa me minha própria história:

Na seção Autobiografia, do Jornal de Letras (edição 987), o sr. disse: “não tenho mais paciência com nada novo”. Por que esse distanciamento da literatura atual? O sr. não tem nenhuma curiosidade sobre o que a nova geração de autores está produzindo?
Acho até meio antipático da minha parte dizer isso, mas é sincero. Descubro poucas coisas novas que me deixam fascinado, que me chamam extraordinariamente a atenção. Mas minha mulher é testemunha de que, quando descubro um texto que acho muito bom, fico assanhadíssimo, quero saber quem é o cara e tal. O que está acontecendo é que não preciso mais ler. É um processo complexo. Não preciso mais ler muito pra saber se o livro tem qualidade ou não. Ao mesmo tempo, tenho a vontade do retorno, de querer entender direito aquilo que já li, que li pela primeira vez há mais de sessenta anos, pois eu comecei a ler muito pequeno. Então, volto, às vezes, a ler Cervantes. Existe um universo em cada um daqueles livros. Li tanto Hamlet, que decorei. Mas decorei de tanto ler – e por querer, compreende? Sempre fui um pouco assim. Meu pai dizia que era um sintoma claro, patente, de loucura, eu ficar lendo a mesma coisa, sei lá quanto tempo, seguidamente, sempre. Eu pegava aquele mesmo livro, ia naquelas mesmas páginas, e ficava lendo obstinadamente aquele negócio, ida e volta, livros e textos diversos, não só Shakespeare e Homero, mas vários autores. E autores que tenho na mais alta conta, como Mark Twain, como… Ah, seu eu for fazer esse rol não acaba nunca! E agora, com a idade, essa coisa piorou. Não é que não me interesse por coisas novas. Eu farejo, pego um livro, dou o que chamo de uma cheirada, e já tenho a idéia, mais ou menos, da qualidade literária dele. Não sei se isso é presunção da minha parte, mas é como funciono. Tenho direito a certas caturrices na minha idade. Então, não é que não me interesse. Ou, tentando explicar: não me interessando, me interesso (risos). É uma espécie de oximoro que estou querendo fazer aqui, mas um oximoro decente. Sei que a renovação vem, que é necessária, mas não sou um homem de formação literária. Minha formação literária nasceu do fato de eu ter sido, desde cedo, criado numa casa cheia de livros. E de ter sido numa época em que não havia televisão, onde o livro era uma aventura, era um universo que se abria. E continua sendo. Mas agora, com a concorrência do videogame, muita coisa mudou. Mas era um universo que se abria para uma criança, era um deslumbramento. Então, li tudo, mas minha formação não é literária. Já me senti na obrigação de ler, por exemplo, René Wellek, a crítica espanhola, a crítica e a filologia de Coimbra, andei tentando, mas minha formação é em Ciências Sociais. Sou formado em Direito, sou bacharel, nunca advoguei porque detesto a idéia de advogar. Mas fiz a faculdade de Direito porque era a faculdade em que intelectual entrava, e além de tudo meu pai não admitia outra hipótese que não entrar pra faculdade de Direito. E meu pai era obedecido cegamente nessa época. Então me formei em Direito, mas minha formação depois foi toda em Ciências Sociais. Ainda muito moço, fui professor de Ciência Política na Universidade da Bahia, de modo que não tenho formação literária. Enfim, quando me perguntam, eu digo: “- Não acompanho muito”. Pronto. Não sei explicar.

É HOJE!!!

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