Arquivo para Janeiro, 2009

Opinião de quem viu “Caro Francis”

Até que enfim, alguém que viu o filme Caro Francis. O jornalista Breno Badralti, libertário que pilota o bom blogue Hotel Terra, nos diz:

Assisti ontem. Não há muita imagem inédita do próprio Francis — a maior parte dos vídeos em que ele aparece foi recuperada do especial da GNT de 10 anos da morte, de alguns comentários pra Globo ou do Roda Viva. Quem é fã provavelmente já viu bastante coisa.

Mas o filme vale pelos depoimentos, pelas histórias dos amigos. Fiquei com a impressão que o Mainardi quase soltou uma lágrima quando lembrou de uma ida dos dois à Missa do Galo. O CTC é quase insignificante na história (o Mainardi diz tudo o que precisaria ser dito sobre ele).

Eu, que só fui conhecer o Francis depois que ele já havia morrido, fiquei com saudades.

E a vontade de ver só aumenta…

Espero que “Caro Francis” seja melhor do que os textos que se arriscam a avaliar o jornalista

Sim, voltei, aproveitando uma breve interrupção entre uma tarefa e outra para o OrdemLivre, o programa brasileiro do Cato Institute em parceria com a Atlas Economic Research Foundation, do qual me tornei Gerente de Relações Institucionais no início deste mês.

Só hoje fui ler esse texto sobre o documentário Caro Francis, de Nelson Hoineff:

Quem tinha medo de Paulo Francis?

Não é preciso ser um admirador de Paulo Francis para gostar de Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff sobre um de seus maiores amigos durante 19 anos. Eu mesmo rejeitava o elitismo que parecia atravessar a personalidade inteira do jornalista – da política à cultura, do humor à baixa estima que destilava pelas coisas brasileiras. Francis era republicano, antipopular, racista, sexista, talvez um tanto misantropo – ou seja, tudo o que pessoalmente abomino. No entanto, apreciei este perfil traçado com honestidade pelos seus próprios amigos e ex-colegas de trabalho.

Não há no filme a presença de qualquer desafeto explícito. Os depoimentos mais agudos contra Francis vêm do ex-ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa, e do ex-presidente da Petrobras, Joel Rennó, com os quais ele teve conflitos graves e são duramente atacados por um correligionário de ideologia semelhante e língua igualmente solta como Diogo Mainardi.

Mas a veia polemista e meio clownesca de Francis aflora mesmo nas lembranças dos que o admiravam e com ele conviveram ativamente. Isso faz do doc um passeio delicioso pelo reino da opinião desabrida, muitas vezes irresponsável, do autor do Diário da Corte. O filme é quase um rap de frases feitas e citações jocosas do próprio Francis, mais as tentativas dos amigos de definir o seu caráter ciclotímico e o brilho grosso de sua retórica. A maior ironia, sem dúvida, é ver Paulo Maluf elogiar sua sinceridade.

As histórias se acumulam num raro insight pelos bastidores do alto jornalismo brasileiro. Como crítico de teatro, Francis foi tão acerbo que suscitou reações extremadas (o filme não menciona o soco de Adolfo Celi nem a cuspida de Paulo Autran por causa de um artigo agressivo contra Tonia Carrero). Foi demitido de um jornal de Pernambuco e saiu da Folha de São Paulo por pressões de leitores. Seus colegas de Pasquim, TV Globo, Manhattan Connection e outros veículos levantam episódios impagáveis, que provocam riso e perplexidade. (Agrego aqui uma observação do comentário de Nelson Hoineff: “o filme menciona sim o episódio da briga com Paulo Autran. Quatro pessoas referem-se a ele: Kito Junqueira, Carlos Nasser, Tonia Carrero e o próprio Francis, no Roda Viva”).

O melhor de tudo é que Hoineff dispôs de um material de arquivo preciso para ilustrar cada um desses momentos, mostrando muitas vezes a frase ou a palavra exata que detonou cada episódio. Uma série de take-outs complementam a construção de um personagem realmente singular na televisão brasileira.

Não faltam observações sobre o relativo fracasso de Francis na literatura, nem a respeito de suas idiossincrasias pessoais. O consumo de álcool, drogas, Wagner e Doris Day também é passado em revista, assim como sua paixão pelos gatos. O clímax melodramático do filme, aliás, não é a morte do personagem, em meio ao stress de um processo movido pela Petrobras e a displicência de seu médico pessoal, mas a leitura de uma carta de sua mulher, Sonia Nolasco, a Nelson, relatando a doença da gata Alzira.

Pode não ter sido essa a intenção, mas para mim soou como mais uma fina ironia num filme que tenta entender em profundidade o temperamento de seu personagem. E sabe se utilizar do viés individual para descortinar as relações intensas, mas espinhosas, entre grandes egos do meio jornalístico.

Caro Francis, integralmente patrocinado pela Esso, ganhou a tela pela primeira vez na semana passada, por ocasião da entrega do Prêmio Esso de Jornalismo. Em versão ligeiramente ampliada, vai percorrer festivais e em breve levar a virulência de Paulo Francis também às salas de cinema.

Não vi o filme, que só foi exibido para um grupo de privilegiados no Rio no fim do ano passado. Ainda será exibido nos cinemas e lançado em DVD.

Sobre o texto, algumas considerações:

1- Não aguento mais ler títulos que parafraseam o nome da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf. Eu mesmo já usei esse recurso algumas vezes e cansei;

2- O autor do texto diz que rejeitava “o elitismo que parecia atravessar a personalidade inteira do jornalista”. Não entendi o uso do “parecia”. Francis era elitista. Ponto.

3- Afirmar que Francis “era republicano, antipopular, racista, sexista, talvez um tanto misantropo” é enfileirar qualificações sem pensar no que elas significam ou, considerando que o autor tenha pensado e conheça seus signficados, desconhecer completamente o que Francis escreveu e disse. As simpatias de Francis por representantes do Partido Republicano nunca o converteram em Republicano. Mas posso ter entendido mal e o autor só quis dizer que Francis era a favor do modelo republicano contra o monárquico. Nisso, ele está certo, embora Francis adorasse ter sido um aristocrático membro de uma monarquia.

Antipopular, Francis não era. Ela era contra o kitsch. Nas suas colunas e comentários para o Manhattan Connection as referências positivas à cultura popular são abundantes, da música americana às marchinhas de carnaval brasileiras. Acusar Francis de ser antipopular é tomar o popular por kitsch e alçar o kitsch ao status de arte.

Racista? Como poderia um racista amar a música americana feita pelos negros, o jazz, e louvar um escritor, também negro, como James Baldwin? E não me venham falar em racismo selecionado que será impossível iniciar um diálogo. Se ele era preconceituoso? Of course, my dear. Quem não é?

Sexista? Uma explicação sobre que diabos isso significa ajudaria bastante.

Um tanto misantropo. Hmm. Deixa lá ver: o Houaiss define a misantropia como ódio pela humanidade, falta de sociabilidade, melancolia, depressão, tristeza. Aponta como sinônimos casmurrice, taciturnidade. Francis não odiava, mas era indiferente à maior parte da humanidade. Era sociável. Triste não era. Depressivo, desconheço. Mas parece que nutria certa melancolia. Qualificá-lo como um tanto misantropo não está errado, mas trata-se de uma qualificação sem rigor.

Não há no filme a presença de qualquer desafeto explícito. Os depoimentos mais agudos contra Francis vêm do ex-ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa, e do ex-presidente da Petrobras, Joel Rennó, com os quais ele teve conflitos graves e são duramente atacados por um correligionário de ideologia semelhante e língua igualmente solta como Diogo Mainardi.

Apontar a falta de críticos sem informar as razões das ausências é levantar uma suspeita contra o diretor. Bastava perguntar ao Hoineff. Há algumas explicações possíveis, duas das quais são: a) não quiseram falar sobre Francis; b) o diretor não quis entrevistá-los. Não vejo problemas em nenhuma das duas.

Identificar Diogo Mainardi como correligionário de ideologia de Francis é estúpido. Diogo Mainardi não defende qualquer ideologia, como Francis um dia defendeu. É um livre-atirador sem amarras ideológicas. Pode-se compará-los em termos de disposição para o confronto e para ir contra o consenso emburrecedor. Nem no aspecto estilístico são comparáveis. Diogo é da escola de Ivan Lessa não de Paulo Francis. Compare e verifiquem.

Espero mesmo que o filme trate o Francis melhor (no sentido de análise, não de louvação) do que os colunistas que se arriscam a escrever sobre aquele que foi um dos mais estimulantes jornalistas brasileiros.

Do Novo Ano e da plenitude da vida

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At the Gate of the Year

I said to the man who stood at the gate of the year
‘Give me a light that I may tread safely into the unknown.’

And he replied,
‘Go into the darkness and put your hand into the hand of God
That shall be to you better than light and safer than a known way!’

So I went forth and finding the Hand of God
Trod gladly into the night
He led me towards the hills
And the breaking of day in the lone east.

So heart be still!
What need our human life to know
If God hath comprehension?

In all the dizzy strife of things
Both high and low,
God hideth his intention.”

by Minnie Louise Harkins 1875-1957

Caros amigos e leitores deste blogue,

fim e início de ano são períodos que invariavelmente me conduzem à infância. O Natal com a família e a passagem de ano que inauguravam uma fresca vereda de esperanças. O mais singular dessa volta ao passado é o fato de que fui uma criança que queria ser adulto. Nunca tive vocação para infante, embora tenha gozado de todas as benesses que a condição circunstancial me proporcionava.

O Natal e o réveillon deste ano foram, para usar uma palavra gasta, especial. E, de forma recorrente, um retorno à infância. Minha mulher Michelle e meu filho Bernardo vieram para Lisboa. O inverno em Portugal, encantadoramente mais severo do que o anterior, está sendo desfrutado com o voluptuoso aquecimento que o amor propicia. A vida, sim, agora é plena. A infância que vivi está refletida no rosto do meu filho de 10 anos e no sorriso acolhedor de sua mãe.

A promessa de escrever no dia 31 não foi cumprida, como tantas outras que neste blogue descumpri impunemente. Estava fora de Lisboa aproveitando com a família as últimas horas de 2008. E na busca por uma palavra exata que pudesse compor uma imagem para uma felicidade que estava distante escaparam-me as palavras; sobrou-me uma belíssima imagem.

Lisboa tornou-se minha casa. Nenhum dos lugares onde morei no Brasil me acolheu e confortou como aqui. A gentileza com que fui tratado pelos professores e colegas na universidade; pelos colaboradores da saudosa revista Atlântico; pelos membros do blogue O Insurgente; e por vários outros portugueses que me receberam com uma grandiosa generosidade, assim como os turcos da Associação de Amizade Luso-Turca. Conhecer Istambul foi uma das maravilhas que me foi concedida morando em Portugal.

O ano também foi gratificante nas áreas acadêmica e profissional.

No mestrado, encerrei um ciclo: agora entro na fase da elaboração da tese, que promete converter em brancos os últimos fios pretos do meu cabelo. Tenho o orgulho e a honra de ter como orientador o amigo (e responsável pela minha vinda para Lisboa) João Pereira Coutinho. Ele que no fim do ano passado defendeu uma tese de doutorado sobre a idéia de perfeição na política com base em Oakeshott e Burke.

Na área profissional, depois de anos vivendo como jornalista freelancer, fui contratado pelo OrdemLivre, representante no Brasil do think tank americano Cato Institute, para ser Gerente de Relações Institucionais. De leitor do Cato Journal e dos vários livros publicados pela instituição, que eu admirava devotadamente pela luta intelectual para promover a liberdade no mundo, passei a membro dessa honorável equipe, que na seção brasileira é comandada por Diogo Costa e gerida por Pedro Sette Câmara.

E as razões do meu bem-estar também são os motivos pelos quais este blogue, que já vinha sendo negligenciado, deixa de ser atualizado com a regularidade que eu desejava e durante certo tempo consegui manter.

O trabalho para o OrdemLivre, a dedicação à tese e a vida em família, da qual não abro mão, vão impedir que eu me dedique ao blogue além do que é possível. As seções fixas foram embalsamadas para um dia, quem sabe, serem reativadas. Vou atualizar o blogue ao sabor do pouco tempo e da vontade de compartilhar com vocês, amigos e leitores anônimos, leituras e considerações de assuntos que me empolgam.

Gostaria de ser mais ágil para dar conta de tudo e manter o blogue com atualização diária. Mas será impossível.

Venham aqui de vez em quando me visitar. A conversa e o uísque estarão sempre disponíveis.

2009 começou excelente. Já está sendo, de fato, um grande ano. Desejo o mesmo a cada um de vocês. Não desanimem com os entraves que às vezes nos golpeiam como adagas traidoras. Sigam a recomendação de Blake: a maldição move, a bênção relaxa.

Abraços fraternos da família Mucelini-Garschagen


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