Saudosista uma ova, ou como os contrabandistas faziam o brasileiro feliz

Saudosismo é doença. Não sou saudosista. Sempre tendo a achar que vivo melhor agora do que antes. De facto, vivo melhor agora do que antes. Jorge Luís Borges estava certo: era um conservador na medida em que queria conservar as coisas boas e descartar as ruins. O Rio poderia ter conservado as coisas boas. Mas nem todas as coisas boas resistem ao tempo. São perecíveis como o leite. Não voltaria no tempo, se pudesse. Queria o Rio pulsante, mas como está agora: sem falta de água, sem falta de energia elétrica, com telefones funcionando e uísque de boa origem a preço razoável.

Nos anos de 1950, um tio meu tinha que esperar duas horas para que a central telefônica pudesse completar uma ligação para Cachoeiro de Itapemirim, cidadezinha no sul do estado do Espírito Santo. E para conseguir uísque, Deus do céu, o sujeito tinha que ter um contrabandista pessoal e gastar uma fortuna. Até o início de 1990 o brasileiro que gostava de uísque tinha que ter um contrabandista de confiança.

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