Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar a idéia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos.
Comecei a ler, por prazer e diariamente, tarde. Lá pelos 22, 23 anos. As lembranças das primeiras descobertas literárias converteram-se em memória vigorosa. As descobertas recentes e releituras são uma catedral de prazeres renovados.
Nunca entendi a leitura como utilidade. Não pensava na leitura de um livro segundo seu potencial prático, de uso mesmo. Ler se identificava mais com o hedonismo ético de Platão e Aristóteles, e com um aspecto específico do utilitarismo de Stuart Mill: a importância concedida aos prazeres do espírito e aos sentimentos nobres, o amor, honestidade, amizade (cada dia discordo mais do entendimento de Mill sobre o ser humano, que ao mesmo tempo buscaria, na mesma proporção e de forma universal, a própria felicidade e a de seus semelhantes além de tomar para si a missão de aperfeiçoar a humanidade, algo que me cheira a enxofre).
Há no prazer do conhecimento algo intrínseco que pode ou não ser manifestado da melhor maneira: seu valor pedagógico. Em alguns espíritos, naqueles que me interessam como sócios de interesses, a apreensão intelectual provoca emoção individual e resulta na educação informal daqueles que estão à volta e abertos à percepção. O efeito de suas presenças é consagrador.
A frase que inaugura este post abre essa maravilha batizada de A vida intelectual, do filósofo francês Antonin-Dalmace Sertillanges, reconhecido por seus estudos sobre Tomás de Aquino. É uma obra admirável por aquilo que está escrito (a sistematização de um estilo de estudo) e por aquilo que deixa implícito (a dedicação e o esforço abnegado para chegar até ali e compartilhá-los com os interessados).
Concordo com a avaliação de James V. Schall, que fez o prefácio à edição americana: A vida intelectual é uma obra incomum que depois se torna extremamente exigente. “Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar nossas anotações e com isso, nosso pensamento”.
São 12 capítulos de sabedoria convertida em sugestões de como burilar a apreensão pela razão e experiência. O capítulo VI começa com uma dica improvável e eficaz: A – A Leitura; I- Ler pouco:
Primeira regra: lede pouco. (…)
A “paixão” da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma, retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.
Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a casa.A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e
concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, por tomos. (…)Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, excepto nos momentos de distracção, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio.
Alguns filósofos, entre eles Sertillanges, me orientaram nesse sentido: eu não precisava pretender ler tudo, nem me angustiar com essa completa impossibilidade. A escolha do que se lê, segundo aquilo que se pretende, é uma grande decisão. A partir daí estudar detidamente as obras escolhidas e não perder tempo, algo que não se recupera.
A vida intelectual é tanto uma obra pedagógica como um robusto estimulante do espírito.










