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CULTURA E FÉ: ESPERANÇA NA RAZÃO

Professor Paulo Monteiro Ramalho: Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz
Dia 27 de novembro (quinta-feira) das 12h15 às 13h.
Entrada franca

Mais informações no site Instituto Internacional de Ciências Sociais.

Dicas de leitura para durar até domingo (ou mais, se quiserem)

Sem tempo e ânimo nos últimos dias para postar aqui. Volto no domingo. Até lá, sugiro algumas leituras:

POLÍTICA/ECONOMIA

LITERATURA

FILOSOFIA

Eikasia

Leonardo

Revista Telemática de Filosofía del Derecho

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Para quem lê em espanhol clique aqui e aqui)

PS: Vixe, acabei me empolgando com a lista. Bom, escolham uma só publicação e leiam. Ou salvem os links para pesquisas eventuais. Se for um leitor animado como eu fará um passeio semanal pelos sites escolhendo os textos que te apetecerem mais.

Um excelente seminário de filosofia (estudem, meus caros, estudem)

Fatalmente, você todos já devem saber, mas vou fazer uma divulgação sistemática aqui dessa bela idéia do Olavo de Carvalho de abrir o site Seminário de Filosofia. Por uma bagatela é possível ter acesso às aulas em vídeo, áudio e apostilas.

Quem já fez aulas presenciais ou pôde vê-las em vídeo ou leu os trabalhos escritos do Olavo sabe a importância do trabalho e de poder aprender e estudar a partir dele.

Então, corram lá. E estudem, meus caros, estudem.

Um excelente seminário de filosofia (estudem, meus caros, estudem)

olavo-site.JPG

Fatalmente, você todos já devem saber, mas vou fazer uma divulgação sistemática aqui dessa bela idéia do Olavo de Carvalho de abrir o site Seminário de Filosofia. Por uma bagatela é possível ter acesso às aulas em vídeo, áudio e apostilas.

Quem já fez aulas presenciais ou pôde vê-las em vídeo ou leu os trabalhos escritos do Olavo sabe a importância do trabalho e de poder aprender e estudar a partir dele.

Então, corram lá. E estudem, meus caros, estudem.

Editorial da Dicta&Contradicta

All will be judged. Master of nuance and scruple,
Pray for me and all the writers, living or dead:
Because there are many whose works
Are in better taste than their lives. Because there is no end
To the vanity of our calling, make intercession
For the treason of all clerks
(W. H. Auden. At the grave of Henry James)

Ao enviar-nos a segunda versão revista do seu artigo, o prof. Mendo Castro Henriques escrevia-nos com a sua amabilidade e prosódia caracteristicamente lusas: “Parece que o bebé está a tomar corpo”. Temos hoje a alegria de deixar em suas mãos, leitor, esse “bebé” que é o resultado direto de vários meses de trabalho e o fruto indireto de alguns anos de amadurecimento, de gestação silenciosa: o primeiro número de Dicta&Contradicta.

Ao contrário do que talvez se possa imaginar ao ver o título, não temos a intenção de criar polêmicas, mas de incentivar no Brasil o hábito da discussão de idéias, algo que se pode fazer com toda a nobreza e boa educação. Porque formar opiniões, expô-las à critica, descartar algumas e aperfeiçoar outras, faz parte de qualquer trabalho intelectual honesto. O psiquiatra Konrad Lorenz dizia que mantém a mente em forma testar e rejeitar diariamente cinco hipóteses de estimação antes do café da manhã…

Acontece que, para formar as opiniões, antes de mais nada, é preciso estudar a sério, ler bastante, refletir. Por isso mesmo não se encontrarão aqui notícias de última hora sobre lascas soltas do acontecido neste “vale de bobagens”, como diz Guimarães Rosa. Pelo contrário, Dicta compõe-se de ensaios relativamente longos sobre temas humanos de sempre – pensamento, comportamento, filosofia, literatura e arte, além da análise de situações e fatos que têm interesse a longo prazo. Não oferece soluções pré-fabricadas para problemas concretos, políticos ou (muito menos) partidários, sociais ou econômicos, morais ou de qualquer outra ordem. Não pretende ensinar ao leitor o que deve pensar, mas oferecer-lhe estímulo para pensar.

Costuma-se dizer, hoje em dia, que é preciso “servir ao público o que o público quer”: um prato preparado à la mode ideologique, muitas fotografias e um mínimo de texto com idéias condensadas in a nutshell, prontas para serem deglutidas sem esforço como
quem engole um amendoim, e condimentadas com pitadas de sexo, violência e palavrões ritualisticamente aplicadas, porque, afinal de contas, agora somos todos “realistas”. Democraticamente, permitimo-nos duvidar deste ditame. Ou talvez seja melhor dizer que ousamos apostar em que continua a haver muitas pessoas que desejam, não a novidade pela novidade, mas uma inovação com o lastro da tradição; não a informação solta, mas o comentário que procura tirar dela o “suco da sabedoria”; não a teoria, mas a realidade em toda a sua riqueza e em todo o seu mistério. E suspeitamos que essas pessoas se sentem insatisfeitas com o alimento que hoje lhes é servido sob o pretexto de que “não é disso que vocês gostam…”

Mundialmente, há precedentes animadores. Basta mencionar, nos Estados Unidos, a The New Criterion – cujo modelo seguimos em certa medida –, que tem sido descrita como “mais consistentemente digna de ser lida que qualquer outra revista de língua inglesa”
(Times Litterary Supplement) e permanece firme há uns bons 25 anos.

Em resumo, pensamos que as pessoas gostam do que é bom; e esperamos ter-lhes oferecido, com a honestidade intelectual e a seriedade de trabalho de que fomos capazes, textos tão bem ideados, argumentados, escritos e editados quanto o permitiram as nossas capacidades. Do resultado caberá ao leitor julgar. Se fracassarmos neste empreendimento – possibilidade que nunca se deve perder de vista –, poderemos então atribuir o erro unicamente a nós mesmos, e não ao público, à sociedade, ao governo ou ao “desconcerto do mundo” em geral.

***

Temos consciência de estar apresentando uma realidade nova no panorama editorial brasileiro, algo que rompe as classificações recebidas. Para já, o leitor pode considerar Dicta &Contradicta, indiferentemente, como uma revista de cultura ou como o primeiro
volume de uma série aberta de coletâneas de ensaios. A periodicidade, por enquanto, será semestral, mas com a intenção de torná-la trimestral assim que seja possível.

Procuramos que fosse, antes de mais nada, uma leitura grata, acadêmica sem academicismo; ou seja, profunda e universal pela abrangência dos temas e cientificamente rigorosa no seu tratamento, mas sem a parafernália de notas de remissão e a linguagem
técnica de alguns órgãos universitários (observação exemplificadora: sempre que não se indica tradutor para uma citação, é porque foi feita pelo autor do artigo). E depois, que tivesse uma “cara” atraente e sóbria ao mesmo tempo, com ilustrações de alto valor artístico. Neste sentido, queríamos agradecer especialmente ao artista Paulo von Poser, que se dispôs a ilustrar este número apenas por amizade desinteressada.

O primeiro dos três artigos principais deste número é uma edição das três últimas aulas dadas pelo poeta Bruno Tolentino. Quem o conheceu sabe como o consumia a preocupação com o esvaziamento cultural ocorrido no Brasil e com a necessidade de dar
remédio a essa situação, pois compreendia que a superficialidade intelectual e a deformação da verdade não afetam em nós apenas um aspecto geralmente considerado “decorativo” ou uma “diversão” dispensável em última análise, mas fazem com que percamos de vista que a vida humana é “uma travessia do Enigma ao Mistério”. Dono de uma experiência de vida vasta e por vezes atribulada, Tolentino tocava todos os registros do humano, sem excluir os extremos do grotesco e do sublime, nesse seu empenho por despertar os interlocutores e conduzi-los à “epifania do real”. Tudo isso está presente neste primeiro artigo, e é propositado e simbólico ao mesmo tempo que a última palavra do poeta seja o ponto de partida de Dicta&Contradicta.

Uma brevíssima nota sobre esse texto: Tolentino não pôs por escrito essas aulas, que foram gravadas, transcritas e editadas. Optamos por publicar aqui um texto resumido, destinado a uma leitura clara e direta, e ao mesmo tempo permitir ao leitor acessar a íntegra da gravação original através do nosso site.

Mas continuemos com as “pièces de résistance”. O artigo do prof. Luiz Felipe Pondé, uma análise renovadora do livro do Eclesiastes, é ao mesmo tempo filosófico, exegético e vital, e sem que o tivéssemos previsto dialoga perfeitamente com as idéias do anterior. Já o do prof. Mendo Castro Henriques apresenta um dos pensamentos mais originais e profundos do século XX, o do filósofo Bernard Lonergan, ainda pouco conhecido do grande público. Aliás, uma das nossas metas era trazer em todos os números a contribuição de uma das grandes figuras intelectuais portuguesas da atualidade (e pretendemos fazer o mesmo com outros países, publicando regularmente, na seção do lado de lá, artigos traduzidos das revistas The New Criterion e First Things).Nesses artigos lusitanos, optamos por respeitar a ortografia e a sintaxe originais.

Dicta&Contradicta tem algumas novidades que esperamos sejam gratas ao leitor.

A seção perfil, por exemplo, apresenta um breve ensaio não tanto sobre as idéias, mas sobre a personalidade e as preocupações centrais de um intelectual pouco estudado na cultura e na academia brasileira. Anatomia do poema, a cargo de Pedro Sette Câmara, analisará a cada número cinco obras clássicas e modernas, tanto do ponto de vista do conteúdo como dos elementos formais (métrica, ritmo, melopéia, etc.), ensinando a tirar fruto da leitura de poesia. Além das resenhas de livros recentes, nacionais, traduzidos ou estrangeiros, haverá sempre um ensaio de autoria variada sobre uma obra de importância inquestionável,
mas esgotada ou ignorada até hoje pelo mercado editorial brasileiro. Por fim, como uma espécie de “extra”, de “presente” oferecido ao leitor quando este já não esperava mais nada, gênesis traz um breve ensaio inédito no Brasil, traduzido de um grande autor clássico; neste número, é o “primeiro discurso” de Samuel Johnson para o seu The Rambler, que reflete de maneira bem humorada e muito atilada sobre as apreensões e os dilemas dos autores novatos: nada mais apropriado para fazer eco à situação de quem se propõe lançar um empreendimento editorial inédito.

Sem querer chover no molhado, pois o leitor já pôde vê-lo no índice, Dicta trará também seções com artigos de filosofia, literatura, música, artes plásticas e cinema, sempre dentro das linhas já comentadas; um poema e um conto originais ou, eventualmente, em traduções inéditas para o português; e, para que terminemos a leitura sorrindo, uma página (dupla desta vez, pois não conseguimos resistir à tentação dos textos grandes…) de humor, a cargo de Ruy Goiaba. A partir do próximo número haverá também, é evidente, uma seção de cartas e comentários.

Mesmo com tudo isso, a nossa idéia é que Dicta&Contradicta seja apenas o cartão de visitas com que nos apresentamos ao leitor. Se lhe agradar o que leu, e pensa que pode contribuir, agradecemos que nos envie artigos e colaborações, ou mesmo sugestões e idéias, mesmo porque ainda pensamos introduzir outras novidades nela. Na verdade, porém, pretendemos que a Dicta acabe representando apenas uma pequena gota da enxurrada de cultura que desejamos fazer.

Já começamos a oferecer cursos e seminários para grupos pequenos, com a intenção de criar ao longo dos anos uma “massa crítica” de intelectuais que possam vir a ser formadores de opinião abalizados pela sua seriedade intelectual. E temos também a intenção sempre louvável de pôr em prática o que nós mesmos pregamos, ao menos no “lançamento que não houve”: a tradução e edição em língua portuguesa de grandes obras fundamentais para a compreensão do mundo moderno.

* * *
Duas palavras rápidas sobre quem somos. Juridicamente, “o Instituto de Formação e Educação é uma associação sem fins lucrativos que visa a estudar, criar e divulgar no Brasil conhecimento nos campos das Humanidades, das Artes e da Filosofia”. Na vida real, somos onze pessoas de diversos cursos e áreas profissionais – o leitor encontrará os nomes da maioria deles na página de expediente e entre os colaboradores – que se vêm reunindo há mais de três anos para estudar antropologia filosófica e metafísica, organizar palestras sobre os temas que agora freqüentam a Dicta&Contradicta, bem como ler e comentar as grandes obras do pensamento humano (e, como esse estudo é a sério, caminha lentamente: nestes três anos, ainda não esgotamos Platão. Sirva-nos de desculpa o que diz A.N. Whitehead, que “toda a filosofia ocidental não passa de notas de pé de página a Platão”).

Como o leitor, sentimos a carência de instituições que assumam a tarefa de educar nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística. Esta é a lacuna que queremos suprir, não dando uma “buzinada” de um instante, mas de maneira
permanente. Ora, para que um projeto desse tipo possa ir para frente, consideramos essencial – além da completa desvinculação ideológica e partidária –, a autonomia econômica. O que significa parceiros que contribuam com essa iniciativa por compreenderem a sua importância.

E aqui é o momento de agradecermos mais uma vez, desta vez aos nossos patrocinadores, o Banco Fator e o Instituto Bovespa, que confiaram em nós quando ainda não tínhamos nada de tangível a oferecer-lhes como prova de que não éramos meros sonhadores.

Mais ainda, é preciso prestar-lhes uma homenagem especial pelo seu desinteresse: em nenhum momento procuraram influenciar, com uma só palavra que fosse, a linha editorial de Dicta&Contradicta. E com isso, leitor, está tudo dito. Até sair o próximo volume, daqui a seis meses, continuaremos o nosso trabalho no site www.dicta.com.br, que o convidamos a visitar.

PS: Este editorial foi gentilmente antecipado ao blogue pelo presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello, cuja entrevista publicada aqui recomendo vivamente.

PS 2: NÃO ESQUEÇAM o lançamento da revista amanhã em São Paulo, às 19h, na Livraria Cultura da Avenida Paulista.

ENTREVISTA: Guilherme Rabello fala sobre a Dicta&Contradicta

Na próxima terça, vocês já sabem, será lançada a revista Dicta&Contradicta, cuja publicação é um dos grandes acontecimentos culturais do ano no Brasil. Para obter mais informações entrevistei por e-mail o presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello. O IFE é o instituto que idealizou e edita a publicação.

Primeiro, gostaria de saber qual a participação do IFE (Instituto de Formação e Educação) na revista e por que a entidade decidiu colaborar com o projeto.
A revista Dicta&Contradicta é inteiramente ideada, preparada e editada pelo IFE. Decidimos publicá-la como nossa primeira atividade de porte porque achamos que é um excelente meio de começar o trabalho e apresentar a nossa proposta.

O IFE existe há menos de um ano, mas na prática foi sendo criado desde que cinco pessoas decidiram se reunir para estudar filosofia a sério. No começo, não pensávamos que haveria um futuro nessa empreitada; o que fazíamos era basicamente dedicar algumas horas semanais à leitura de Platão. Com o passar do tempo, fomos percebendo que muita gente se interessava pelo que estávamos fazendo; o grupo foi crescendo aos poucos, até que um dia decidimos formalizar a nossa aventura, e o que era passatempo virou uma associação juridicamente reconhecida. O que queremos com ela é oferecer ao maior número de pessoas possível aquilo de que mais gostamos e de que mais sentimos falta: a formação nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística.

Todos nós nos empenhamos nisto apenas por gosto, mas ao mesmo tempo temos a preocupação de tornar permanente o Instituto. Neste sentido, o primeiro passo foi dado com o patrocínio de duas instituições de peso, o Instituto Bovespa e o Banco Fator, a quem estamos muito agradecidos.

Qual é o perfil/identidade e ambição da revista? Há mesmo uma influência da New Criterion?
A melhor maneira que encontramos para definir Dicta&Contradicta é dizer que tem conteúdo acadêmico e abordagem jornalística. Queremos que seja profunda, universal, rigorosa cientificamente, mas preocupada com o leitor no estilo e no tamanho dos textos, bem como na apresentação gráfica. Vale a pena ressaltar que todas as ilustrações do primeiro número foram feitas pelo Paulo von Poser, o que deu um belo peso artístico à revista. E também gostaria de destacar que a revista começa com um texto que é um verdadeiro testamento: as três últimas aulas de Bruno Tolentino, que foram gravadas e editadas.

Quanto à The New Criterion, certamente foi a nossa inspiração. Tanto assim que a primeira coisa que fizemos ao preparar a publicação foi entrar em contato com eles para traduzir os artigos publicados por lá: neste primeiro número, temos o excepcional ensaio do Roger Kimball sobre Friedrich Hayek. Além da New Criterion, publicamos um artigo da First Things. Por outro lado, tivemos de fazer várias adaptações: a New Criterion é mensal (10 exemplares por ano), nós seremos semestrais no começo e trimestrais quando for oportuno; e a edição americana tem sempre algo em torno de 80 páginas, nós começamos com 212. Enfim, as diferenças são várias, mas o que nos move é a mesma paixão pelo pensamento e pela crítica honesta.

Qual é a sacada do nome? Como foi escolhido?
Enfim, como eu disse no começo, tanto o IFE quanto a Dicta surgiram de forma natural. Quando nos demos conta, tínhamos formado um instituto e estávamos apresentando o projeto de uma revista. Dicta&Contradicta foi escolhido, digamos assim, às vésperas do parto…

A inspiração vem de uma coletânea de aforismos do jornalista alemão Karl Kraus (NOTA: Há um livro dele no Brasil, Ditos e Desditos). É interessante, porque a influência de Kraus no IFE não vai além do fato de ele ser um jornalista extremamente honesto e atento ao que acontecia a sua volta. O que nos interessa é essa capacidade de ver mais de um lado de uma questão, os argumentos e os contra-argumentos.

Como foi feita a escolha dos colaboradores?
Além dos membros do IFE, que são colaboradores naturais, procuramos pessoas que pudessem contribuir com o nosso projeto. Várias delas são nossos amigos, outras foram gratas surpresas e esperamos que se tornem nossos amigos. Por exemplo, o prof. Mendo Castro, que nos surpreendeu a todos entregando um texto maravilhoso em tempo recorde. Outra enorme fonte de colaboração foram os blogs: basta uma olhada no índice para perceber que mais de um terço da revista é feito por pessoas que também mantêm blogs. E queremos deixar claro que nosso objetivo é expandir ao máximo o número desses colaboradores.

De que forma o conteúdo é definido?
A revista é composta por seções, várias delas com temas fixos. Isso nos dá uma moldura dentro da qual definimos o conteúdo e pensamos que colaboradores poderíamos convidar. Dentro de cada uma dessas seções, o conteúdo é absolutamente livre, com uma única condição: precisa ser bom.

A partir disso, fazemos um brainstorm: “Que tema seria interessante? Quem poderia escrever sobre isso?” ou, ao inverso, “Fulano escreve coisas muito pertinentes, vamos convidá-lo? Sobre o que ele poderia escrever?” Acho que não há nenhuma “inovação” no nosso método de trabalho: basicamente, fazemos uma reunião de pauta e fechamos o conteúdo. Se tudo correr bem, com o passar do tempo teremos mais opções do que tínhamos no começo.

Por que investir numa publicação impressa e não num site? Ainda é estratégico ter uma revista impressa?
Eu não vejo oposição entre publicação impressa e publicação eletrônica. Pelo contrário, acho que as duas são complementares e, cada vez mais, necessárias. No caso da Dicta, mais ainda! Estamos investindo fortemente no nosso site, www.dicta.com.br [deve ir ao ar nos próximos dias]. Será basicamente um blog, com algum conteúdo especial ligado ao primeiro número da revista; por exemplo, colocaremos no ar, como especial, a gravação das aulas do Bruno Tolentino que deram origem ao artigo impresso.

Se me permite um exemplo, quem melhor resumiu a relação entre publicações impressas e eletrônicas foi você, recentemente, no seu blog. Era um post com o link para um texto do Paul Johnson publicado no The Spectator sobre bibliotecas. É exatamente isto: adoramos a agilidade que a internet possibilita: um jornalista brasileiro, estudando em Portugal, recomenda um texto publicado naquela semana num periódico inglês… Mas nada disso impede que fiquemos fascinados com aquelas bibliotecas antigas, escondidas no interior da Irlanda…

Um dos problemas mais comuns em publicações mais exigentes intelectualmente é a falta de uma administração competente e de um marketing eficiente que consiga “vender” a revista para os anunciantes e chegar aos leitores sem se limitar a um gueto. Como a revista se preparou nesse sentido? Podemos acreditar que a publicação terá vida longa?
O que posso dizer é o seguinte: nós nem consideramos a possibilidade de lançar um projeto antes de elaborar uma planilha de custos. No caso da Dicta, o “segredo” foi minimizar os custos; por isso não pudemos começar com uma periodicidade maior, por exemplo. Outra preocupação fundamental foi conseguir expor aos patrocinadores o nosso projeto como um todo: não apenas viabilizar uma revista, mas começar um projeto cultural mais abrangente.

É claro que encontraremos dificuldades, mas isso faz parte do jogo. Estamos aí para jogar: em nenhum momento você nos ouvirá reclamando “do mercado”, “da falta de leitores”. Partimos do princípio de que nós é que precisamos entender o mercado, e de que os nossos leitores querem um bom produto, e só comprarão a revista se julgarem que ela é boa.

Eu espero que isso seja suficiente para acreditarem que a revista terá vida longa. Nós acreditamos! E se em algum momento fizermos algo de errado, vamos voltar atrás e tentar fazer melhor, porque é aquela coisa: “for us there is only the trying, the rest is not our business”.

ENTREVISTA: Guilherme Rabello fala sobre a Dicta&Contradicta

Na próxima terça, vocês já sabem, será lançada a revista Dicta&Contradicta, cuja publicação é um dos grandes acontecimentos culturais do ano no Brasil. Para obter mais informações entrevistei por e-mail o presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello. O IFE é o instituto que idealizou e edita a publicação.

Primeiro, gostaria de saber qual a participação do IFE (Instituto de Formação e Educação) na revista e por que a entidade decidiu colaborar com o projeto.
A revista Dicta&Contradicta é inteiramente ideada, preparada e editada pelo IFE. Decidimos publicá-la como nossa primeira atividade de porte porque achamos que é um excelente meio de começar o trabalho e apresentar a nossa proposta.

O IFE existe há menos de um ano, mas na prática foi sendo criado desde que cinco pessoas decidiram se reunir para estudar filosofia a sério. No começo, não pensávamos que haveria um futuro nessa empreitada; o que fazíamos era basicamente dedicar algumas horas semanais à leitura de Platão. Com o passar do tempo, fomos percebendo que muita gente se interessava pelo que estávamos fazendo; o grupo foi crescendo aos poucos, até que um dia decidimos formalizar a nossa aventura, e o que era passatempo virou uma associação juridicamente reconhecida. O que queremos com ela é oferecer ao maior número de pessoas possível aquilo de que mais gostamos e de que mais sentimos falta: a formação nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística.

Todos nós nos empenhamos nisto apenas por gosto, mas ao mesmo tempo temos a preocupação de tornar permanente o Instituto. Neste sentido, o primeiro passo foi dado com o patrocínio de duas instituições de peso, o Instituto Bovespa e o Banco Fator, a quem estamos muito agradecidos.

Qual é o perfil/identidade e ambição da revista? Há mesmo uma influência da New Criterion?
A melhor maneira que encontramos para definir Dicta&Contradicta é dizer que tem conteúdo acadêmico e abordagem jornalística. Queremos que seja profunda, universal, rigorosa cientificamente, mas preocupada com o leitor no estilo e no tamanho dos textos, bem como na apresentação gráfica. Vale a pena ressaltar que todas as ilustrações do primeiro número foram feitas pelo Paulo von Poser, o que deu um belo peso artístico à revista. E também gostaria de destacar que a revista começa com um texto que é um verdadeiro testamento: as três últimas aulas de Bruno Tolentino, que foram gravadas e editadas.

Quanto à The New Criterion, certamente foi a nossa inspiração. Tanto assim que a primeira coisa que fizemos ao preparar a publicação foi entrar em contato com eles para traduzir os artigos publicados por lá: neste primeiro número, temos o excepcional ensaio do Roger Kimball sobre Friedrich Hayek. Além da New Criterion, publicamos um artigo da First Things. Por outro lado, tivemos de fazer várias adaptações: a New Criterion é mensal (10 exemplares por ano), nós seremos semestrais no começo e trimestrais quando for oportuno; e a edição americana tem sempre algo em torno de 80 páginas, nós começamos com 212. Enfim, as diferenças são várias, mas o que nos move é a mesma paixão pelo pensamento e pela crítica honesta.

Qual é a sacada do nome? Como foi escolhido?
Enfim, como eu disse no começo, tanto o IFE quanto a Dicta surgiram de forma natural. Quando nos demos conta, tínhamos formado um instituto e estávamos apresentando o projeto de uma revista. Dicta&Contradicta foi escolhido, digamos assim, às vésperas do parto…

A inspiração vem de uma coletânea de aforismos do jornalista alemão Karl Kraus (NOTA: Há um livro dele no Brasil, Ditos e Desditos). É interessante, porque a influência de Kraus no IFE não vai além do fato de ele ser um jornalista extremamente honesto e atento ao que acontecia a sua volta. O que nos interessa é essa capacidade de ver mais de um lado de uma questão, os argumentos e os contra-argumentos.

Como foi feita a escolha dos colaboradores?
Além dos membros do IFE, que são colaboradores naturais, procuramos pessoas que pudessem contribuir com o nosso projeto. Várias delas são nossos amigos, outras foram gratas surpresas e esperamos que se tornem nossos amigos. Por exemplo, o prof. Mendo Castro, que nos surpreendeu a todos entregando um texto maravilhoso em tempo recorde. Outra enorme fonte de colaboração foram os blogs: basta uma olhada no índice para perceber que mais de um terço da revista é feito por pessoas que também mantêm blogs. E queremos deixar claro que nosso objetivo é expandir ao máximo o número desses colaboradores.

De que forma o conteúdo é definido?
A revista é composta por seções, várias delas com temas fixos. Isso nos dá uma moldura dentro da qual definimos o conteúdo e pensamos que colaboradores poderíamos convidar. Dentro de cada uma dessas seções, o conteúdo é absolutamente livre, com uma única condição: precisa ser bom.

A partir disso, fazemos um brainstorm: “Que tema seria interessante? Quem poderia escrever sobre isso?” ou, ao inverso, “Fulano escreve coisas muito pertinentes, vamos convidá-lo? Sobre o que ele poderia escrever?” Acho que não há nenhuma “inovação” no nosso método de trabalho: basicamente, fazemos uma reunião de pauta e fechamos o conteúdo. Se tudo correr bem, com o passar do tempo teremos mais opções do que tínhamos no começo.

Por que investir numa publicação impressa e não num site? Ainda é estratégico ter uma revista impressa?
Eu não vejo oposição entre publicação impressa e publicação eletrônica. Pelo contrário, acho que as duas são complementares e, cada vez mais, necessárias. No caso da Dicta, mais ainda! Estamos investindo fortemente no nosso site, www.dicta.com.br [deve ir ao ar nos próximos dias]. Será basicamente um blog, com algum conteúdo especial ligado ao primeiro número da revista; por exemplo, colocaremos no ar, como especial, a gravação das aulas do Bruno Tolentino que deram origem ao artigo impresso.

Se me permite um exemplo, quem melhor resumiu a relação entre publicações impressas e eletrônicas foi você, recentemente, no seu blog. Era um post com o link para um texto do Paul Johnson publicado no The Spectator sobre bibliotecas. É exatamente isto: adoramos a agilidade que a internet possibilita: um jornalista brasileiro, estudando em Portugal, recomenda um texto publicado naquela semana num periódico inglês… Mas nada disso impede que fiquemos fascinados com aquelas bibliotecas antigas, escondidas no interior da Irlanda…

Um dos problemas mais comuns em publicações mais exigentes intelectualmente é a falta de uma administração competente e de um marketing eficiente que consiga “vender” a revista para os anunciantes e chegar aos leitores sem se limitar a um gueto. Como a revista se preparou nesse sentido? Podemos acreditar que a publicação terá vida longa?
O que posso dizer é o seguinte: nós nem consideramos a possibilidade de lançar um projeto antes de elaborar uma planilha de custos. No caso da Dicta, o “segredo” foi minimizar os custos; por isso não pudemos começar com uma periodicidade maior, por exemplo. Outra preocupação fundamental foi conseguir expor aos patrocinadores o nosso projeto como um todo: não apenas viabilizar uma revista, mas começar um projeto cultural mais abrangente.

É claro que encontraremos dificuldades, mas isso faz parte do jogo. Estamos aí para jogar: em nenhum momento você nos ouvirá reclamando “do mercado”, “da falta de leitores”. Partimos do princípio de que nós é que precisamos entender o mercado, e de que os nossos leitores querem um bom produto, e só comprarão a revista se julgarem que ela é boa.

Eu espero que isso seja suficiente para acreditarem que a revista terá vida longa. Nós acreditamos! E se em algum momento fizermos algo de errado, vamos voltar atrás e tentar fazer melhor, porque é aquela coisa: “for us there is only the trying, the rest is not our business”.

A mentalidade revolucionária em ação

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Sobre o post que escrevi ontem a respeito do “Caso Nassif”, apontando como o moço se vale da estratégia revolucionária para inverter a relação lógica entre sujeito e objeto, entre verdade e falsidade, Olavo de Carvalho, cujos estudos me baseei para escrever o texto, esclarece ainda mais o assunto na edição de hoje do JB:

Opinião – Psicose iluminista

Olavo de Carvalho

Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como o trajeto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.

Que haja nisso uma inversão psicótica da ordem das causas é algo que nem de longe rebrilha no horizonte da (in)consciência revolucionária, tão embevecida na contemplação estática das suas próprias lindezas que até a claridade máxima do óbvio se torna a seus olhos treva densa e impenetrável.

Mais cômica ainda, ou tragicômica, torna-se essa inversão quando, à maneira iluminista, o futuro esperado é descrito como o triunfo da racionalidade científica sobre o obscurantismo das crenças bárbaras. Pois a concepção futurocêntrica da História, virando de cabeça para baixo a hierarquia do necessário e do contingente já traz em seu bojo a destruição completa da lógica, do método científico e de toda possibilidade de compreensão racional da realidade. Não foi à toa que Paul Ilie, no seu magistral estudo The Age of Minerva (2 vols., University of Pennsylvania Press, 1995), caracterizou o estilo mental do Século das Luzes como “razão anti-racional”.

Não espanta que, mais de 200 anos depois de ter desencadeado a maior e mais duradoura epidemia de revoluções, tiranias e genocídios já registrada desde o início dos tempos, a vaidade iluminista ainda continue a se pavonear de campeã da liberdade e dos direitos humanos, como se fosse lícito a uma filosofia reconhecer-se a si mesma tão somente pelos ideais declarados na sua propaganda e não pelo desenrolar inevitável e previsibilíssimo da realização efetiva das suas premissas.

O ideal de uma sociedade regida pela “razão científica” é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história e da economia. O mais recente e meticuloso estudo comparativo desses dois regimes, The Dictators: Hitler’s Germany, Stalin’s Russia, de Richard Overy (New York, W. W. Norton, 2004, especialmente pp. 637 ss.), destaca como primeira e essencial similitude entre eles o “culto da ciência”. Auschwitz e o Gulag são a utopia iluminista materializada.

E não me venham com aquela idiotice de que o iluminismo não gerou só ditaduras totalitárias, mas também a democracia americana. De um lado, o iluminismo britânico que influenciou a independência americana nada teve da rebelião voltaireana e enciclopedista contra a religião e as tradições (ver Gertrude Himmelfarb, The Roads to Modernity: The British, French and American Enlightenments, New York, Vintage Books, 2004).

De outro, mesmo essa versão suavizada do discurso iluminista não foi subscrita no todo pelos founding fathers, os quais a modificaram e cristianizaram em tal medida que praticamente não há na declaração da independência, na Constituição americana ou nas constituições dos Estados uma só afirmativa ou dispositivo legal cuja inspiração bíblica não esteja abundantemente documentada.

Nenhum argumento racional foi jamais apresentado contra a massa de provas reunida por Benjamin F. Morris nas mil e tantas páginas de The Christian Life and Character of the Civil Institutions of the United States em 1864. Tudo o que o partido iluminista pôde fazer, para tentar impor como puro constitucionalismo americano uma versão caricatural, “francesa”, do Estado leigo compreendido como Estado ateísta militante, foi dar sumiço a esse livro e depois entrar em pânico quando da sua reedição em 2007 pela “american vision”.

Viram só como a coisa funciona? Analisem o que Nassif escreve sob essa perspectiva e verão como “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead” (bom, não da morte, mas o verso do W. H. Auden era bom e fechava bem a frase).


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