
CEIA EM EMMAUS, de Jan Steen (1626–1679)
Jan Steen, pintor nascido em Leiden (Holanda), trabalhou uma imagem muito conhecida sob uma diferente perspectiva. O artista, conhecido pelo gênio pessoal e brilho social, preferiu compor a cena com os viajantes cansados após a longa caminhada seguida do jantar, cujos restos se vê à mesa. Ao contrário dos outros pintores que trabalharam a imagem, Steen faz com que os viajantes não percebam a presença do Espírito. Vejam:

Há um paralelo possível e interessante com os dias atuais: se no quadro a presença de Cristo é ignorada pelo cansaço, há tempos vivemos tempos em que o cansaço com a vida e consigo próprio faz com que o indivíduo ignore o Espírito e ignore a si mesmo no que há de substantivo. O resultado foi a construção de uma ortodoxia secularista, na feliz concepção de Robert P. George, autor de Choque de ortodoxias: direito, religião e moral em crise (editora Tenacitas), que venho lendo com prazer renovado. Ortodoxia secularista é a estrita separação entre a fé e o espaço público, aqui entendido de forma ampla, não como o governo ou a política. O livro é a defesa da tradição filosófica, moral e religiosa judaico-cristã como elemento racional superior para lidar e solucionar problemas éticos e políticos.
O quadro, independente de sua simbologia, é belíssimo. Reparem na expressão dos homens sentados, na posição dos braços, na expressão do corpo. Olhem como a moça que segura a cesta não está com cara de quem queria estar ali trabalhando.
Durante a vida, Steen produziu cerca de 800 telas. Morreu na sua cidade natal aos 53 anos.