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Quem estiver por Londres e se interesse por literatura não perca a conferência sobre Fernando Pessoa

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João Ubaldo Ribeiro: “Não preciso mais ler muito pra saber se o livro tem qualidade ou não”

Uma bela conversa com o escritor João Ubaldo Ribeiro no Rascunho. Destaco uma resposta que ecoa me minha própria história:

Na seção Autobiografia, do Jornal de Letras (edição 987), o sr. disse: “não tenho mais paciência com nada novo”. Por que esse distanciamento da literatura atual? O sr. não tem nenhuma curiosidade sobre o que a nova geração de autores está produzindo?
Acho até meio antipático da minha parte dizer isso, mas é sincero. Descubro poucas coisas novas que me deixam fascinado, que me chamam extraordinariamente a atenção. Mas minha mulher é testemunha de que, quando descubro um texto que acho muito bom, fico assanhadíssimo, quero saber quem é o cara e tal. O que está acontecendo é que não preciso mais ler. É um processo complexo. Não preciso mais ler muito pra saber se o livro tem qualidade ou não. Ao mesmo tempo, tenho a vontade do retorno, de querer entender direito aquilo que já li, que li pela primeira vez há mais de sessenta anos, pois eu comecei a ler muito pequeno. Então, volto, às vezes, a ler Cervantes. Existe um universo em cada um daqueles livros. Li tanto Hamlet, que decorei. Mas decorei de tanto ler – e por querer, compreende? Sempre fui um pouco assim. Meu pai dizia que era um sintoma claro, patente, de loucura, eu ficar lendo a mesma coisa, sei lá quanto tempo, seguidamente, sempre. Eu pegava aquele mesmo livro, ia naquelas mesmas páginas, e ficava lendo obstinadamente aquele negócio, ida e volta, livros e textos diversos, não só Shakespeare e Homero, mas vários autores. E autores que tenho na mais alta conta, como Mark Twain, como… Ah, seu eu for fazer esse rol não acaba nunca! E agora, com a idade, essa coisa piorou. Não é que não me interesse por coisas novas. Eu farejo, pego um livro, dou o que chamo de uma cheirada, e já tenho a idéia, mais ou menos, da qualidade literária dele. Não sei se isso é presunção da minha parte, mas é como funciono. Tenho direito a certas caturrices na minha idade. Então, não é que não me interesse. Ou, tentando explicar: não me interessando, me interesso (risos). É uma espécie de oximoro que estou querendo fazer aqui, mas um oximoro decente. Sei que a renovação vem, que é necessária, mas não sou um homem de formação literária. Minha formação literária nasceu do fato de eu ter sido, desde cedo, criado numa casa cheia de livros. E de ter sido numa época em que não havia televisão, onde o livro era uma aventura, era um universo que se abria. E continua sendo. Mas agora, com a concorrência do videogame, muita coisa mudou. Mas era um universo que se abria para uma criança, era um deslumbramento. Então, li tudo, mas minha formação não é literária. Já me senti na obrigação de ler, por exemplo, René Wellek, a crítica espanhola, a crítica e a filologia de Coimbra, andei tentando, mas minha formação é em Ciências Sociais. Sou formado em Direito, sou bacharel, nunca advoguei porque detesto a idéia de advogar. Mas fiz a faculdade de Direito porque era a faculdade em que intelectual entrava, e além de tudo meu pai não admitia outra hipótese que não entrar pra faculdade de Direito. E meu pai era obedecido cegamente nessa época. Então me formei em Direito, mas minha formação depois foi toda em Ciências Sociais. Ainda muito moço, fui professor de Ciência Política na Universidade da Bahia, de modo que não tenho formação literária. Enfim, quando me perguntam, eu digo: “- Não acompanho muito”. Pronto. Não sei explicar.

Camões no Valor Econômico

Texto publicado no Valor Econômico no dia 28 de novembro:

Camões para inglês ler

Por Bruno Garschagen, para o Valor, de Lisboa

A editora da Universidade de Massachusetts Dartmouth acaba de lançar “Sonnets and Other Poems by Luis de Camões”, trabalho do renomado tradutor e ensaísta americano Richard Zenith. Em julho, a Princeton University Press já lançara “The Collected Lyric Poems of Luis de Camões”, vertida para o inglês por Landeg White. Até então, da obra lírica do escritor português só havia o livro “Selected Sonnets: A Bilingual Edition” (University of Chicago Press, 2005), traduzido por William Baer, e alguns poemas esparsos em coletâneas.

Mais do que mera estratégia de promoção literária, a tradução para o inglês de obras de escritores lusófonos é uma forma de difusão e celebração cultural. Quando o mesmo livro ganha mais de uma versão em outro idioma, o estudo da obra é ampliado e o leitor tem acesso a diferentes traduções. A comparação entre as citadas versões da lírica são exemplares. Enquanto White, tradutor de uma premiada versão de “Os Lusíadas”, priorizou a cadência rítmica, Zenith empenhou-se em conservar as antíteses. “Sacrifiquei a rima para preservar os jogos de oposições, elemento fundamental na poesia de Camões”, diz.

A vontade inicial de reproduzir as rimas foi abandonada a partir do 15º poema. “O resultado não me satisfez e explico isso no prefácio. O inglês, que tem um vocabulário mais extenso, é muito mais pobre em rimas.” Nesse aspecto, Zenith, premiado pelas traduções de “A Educação pela Pedra”, de João Cabral de Melo Neto, e do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, elogia o resultado obtido na tradução dos sonetos por William Baer, que conseguiu “uma perfeita e natural sonoridade rítmica” ao longo dos 70 poemas. Zenith optou por usar um inglês moderno, culto e evitou palavras que caíram em desuso. Não fazia sentido, explicou, tentar reproduzir o inglês equivalente ao português da época em que os poemas foram escritos.

A obra lírica de Camões foi publicada sob o título “Rhythmas” em 1595, 15 anos depois da morte do autor. Era composta por 172 textos: sonetos (poemas de 14 versos cujo último verso concentra em si a idéia principal do poema), éclogas (poesia bucólica em que pastores dialogam), elegias (poema lírico de tom geralmente terno e triste), canções (poesia lírica de estilo elevado e refinado ou satírica), oitavas e sextinas (poema de forma fixa, geralmente em versos decassílabos).

Três anos depois, a segunda edição foi publicada com o título “Rimas”. À obra foram acrescentadas mais 67 composições, cuja autoria, assim como vários poemas da primeira, era em parte duvidosa e em parte de outros escritores. O crítico e escritor português Jorge de Sena, em “Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular”, atribui à confusão de editores a inserção de poemas de Garcia de Resende, duque de Aveiro, infante d. Luís e Sá de Miranda na obra do autor de “Os Lusíadas”.

A introdução indiscriminada de poemas sem autoria comprovada na lírica foi sendo feita desde as primeiras edições. A escassez de provas documentais para determinar a autenticidade agravava o problema. A solução parcial veio em 1985 com o lançamento de “Lírica de Camões – História, Metodologia, Corpus”. Na obra, o professor brasileiro Leodegário Amarante de Azevedo Filho investigou a problemática da autoria e destacou a forma como os textos foram sendo anexados e reproduzidos. “Todas as tentativas anteriores de delimitação do cânone lírico de Camões esbarravam em metodologias relativamente subjetivas, que pouco contribuíram para ordenar o caos em que se encontrava a obra havia quatro séculos”, escreveu a professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Marina Machado Rodrigues, na edição nº 17 da revista “Philologus”.

Os problemas de autenticidade, segundo Marina, começaram no século XVI, porque Camões só publicara em vida “Os Lusíadas” (1572), a ode “Aquele Único Exemplo” (1563), o soneto “Vós Nimphas da Gangética Espessura” e a elegia “Depois Que Magalhães Teve Tecida” (ambos em 1576). Para reduzir a margem de erro na escolha dos poemas, Zenith usou a edição da lírica organizada por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, “Rimas, Autos e Cartas”, editada pela primeira vez em 1944 e considerada a mais rigorosa. “Escolhi só os 40 sonetos que estão mais provados como sendo de Camões.”

Além do óbvio desafio imposto pela encomenda da editora da Universidade de Massachussetts Dartmouth, Zenith diz que o fato de a lírica ter envelhecido menos o deixou mais entusiasmado do que ficaria se tivesse de verter para o inglês “Os Lusíadas”, a obra magna de Camões, traduzida pela primeira vez em 1655 por sir Richard Fanshawe. A tarefa, no entanto, era igualmente difícil. “O mais complicado foi manter a tensão dramática nos poemas mais longos, como as elegias e canções”, explicou o tradutor, que vive em Lisboa há 20 anos e trabalha como free-lancer.

Durante quatro anos, Zenith foi realizando um meticuloso trabalho enquanto cuidava de suas outras atividades profissionais, que incluem organização de coletâneas (como a “A Little Larger Than the Entire Universe: Selected Poems”, da Penguin Classics, com poemas de Fernando Pessoa), ensaios literários e palestras em várias partes do mundo. Mesmo não sendo um acadêmico, o tradutor é respeitado nas universidades européias e americanas pelo rigor de seu trabalho e pela qualidade do texto. Suas traduções são, muitas vezes, a porta de entrada dos leitores de língua inglesa à poesia lusófona. “Richard é um grande divulgador da nossa poesia nos Estados Unidos e na Europa”, diz a portuguesa Mariana Gray de Castro, estudiosa da obra de Pessoa e professora convidada de literatura inglesa na Universidade de Oxford.

Pela amplitude de difusão que a obra de Camões ganhará, a versão de Zenith para a lírica (como a de White) já nasce histórica.

Fernando Pessoa em livro e tema de congresso internacional

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Começa amanhã em Lisboa o Congresso Internacional Fernando Pessoa com uma série de boas palestras sobre a obra de um dos maiores escritores de língua portuguesa. O programa pode ser lido no site da Casa Fernando Pessoa.

Destaco a conferência da tradutora, professora e especialista na obra do poeta português, Mariana Gray de Castro, que vai falar sobre a relação entre Pessoa e Shakespeare, tema de sua investigação de PhD no King’s College. Ela já havia feito um ótimo trabalho ao relacionar Pessoa com Oscar Wilde na tese de mestrado defendida na Universidade de Oxford.

Também destaco a conferência do tradutor americano Richard Zenith com o tema “António Vieira, imperador do Portugal pessoano”. Zenith é um dos mais importantes tradutores para o inglês de poesia escrita em português. Traduziu, entre outros, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa.

Machado de Assis no Ação Humana

Guilherme Roesler, do sempre recomendável Ação Humana, também escreveu sobre Machado de Assis. Sugiro vivamente a leitura:

O que fazem de Machado de Assis?

Machado de Assis está sendo lembrado a todo instante graças ao centenário da sua morte. Não tenho certeza (pois estou fora desse circuito), mas selos postais, cadernos culturais, jornais de bairro e reuniões universitárias e de sindicatos, devem ter todas um quê da aura do antigo morador do Cosme Velho. Eu gosto da sua pessoa (um autêntico self-made man), apesar de não gostar tanto da sua literatura como nos obrigam desde o nascimento. O que me incomoda nem é tanto as constantes evocações ufanistas – julgadas por essa humilde pessoa como legítimas –, mas justamente o espírito que essas mensagens pró-machadianas parecem invocar. Ele foi um grande escritor? Sim, não tenhamos dúvida. Soube como poucos descrever o pathos brasileiro? Verdade, e não há razão para querermos desqualificar a sua obra nesse sentido. Mas uma coisa é apresentarmos o escritor Machado de Assis como um literato, homem das letras, e outra bem distinta é querermos vendê-lo – não encontro palavra melhor – como tendo sido um crítico político e qualificações do gênero.

Alguns querem fazer Machado de Assis um profeta das nações oprimidas da América Latina, cientista social, ou sei lá eu mais o quê. Digo isso porque essas tentativas de fazer de Machado de Assis um observador atento de todas as facetas da vida social brasileira é esvaziar de sobremaneira o conteúdo da sua obra literária. É deixar em segundo plano a sua literatura. Machado era um excelente literati, mas duvido que no momento em que ele estivesse escrevendo sobre Capitu ele também estaria pensando nas implicâncias sócio-familiares que uma suposta traição feminina ocasionaria numa sociedade conservadora e fortemente patriarcal. Essa espécie de interpretação normalmente parece ser construída com o intuito de usar Machado de Assis como autoridade dos pontos de vista daquele que interpreta sua obra. Isso para não fazermos referência ao universo que foi construído ao redor da sua pessoa.

Fortunas foram feitas e carreiras construídas não com base na análise sincera das suas obras (que abrangem a crônica, a poesia e o romance), mas apenas orientadas à busca de, nas suas páginas, encontrarem uma possível evocação (por menor que fosse, não importa) que justificasse o próprio ponto de vista daquele que as estudava. Nesse estágio de interpretação e análise o que menos importa é a literatura de Machado de Assis. O que importa não é tanto o que Machado de Assis escreveu, mas o que poderíamos pensar que ele tivesse escrito. Obvio que esse é um assunto estritamente psiquiátrico, mas pode ser estendido a qualquer autor imaginável. Se quiséssemos, por exemplo, investigar a obra Os Lusíadas de Camões até encontrarmos vestígios de uma crítica ao sistema mercantilista de exploração e dominação; se quiséssemos também considerar que as palavras proferidas pelo Velho de Restelo eram na realidade a opinião privada de Camões, e que ele não as disse por estar impedido por um sistema monárquico que reprimia cruelmente a opinião de poetas e intelectuais, tudo poderíamos, pois que não existem barreiras à imaginação. E teses e dissertações se alimentam dessas pequenas divagações.

Contudo, serão elas necessárias? Até certo ponto creio que não. Quando procuramos um Machado de Assis que foge ao entendimento daquilo que o próprio Machado tinha sobre a sua pessoa, o caminho tomado para se chegar ao autêntico autor deveria ser repensado. Ao contrário do que pretende essa espécie de crítico e intérprete literário que vemos diariamente nos meios de comunicação – onde que para cada problema possível Machado de Assis já elaborou uma respectiva reflexão embebida na mais fina e sublime ironia – os constantes atos de divulgação da sua obra apenas fazem o leitor que procura literatura de qualidade delas se afastar. A partir daí, toda a obra de Machado de Assis passa a ser compreensível apenas aos iniciados de seita por todos conhecida, cujo templo é sempre uma empoeirada academia.

Na mesma quarta-feira publiquei aqui o post Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor, a respeito de um texto publicado no TLS.

PS: Não conheço autor mais usado como arma de destruição em massa de leitores brasileiros do que Machado de Assis.

Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor

Só hoje fui ler um texto publicado no TLS, em 8 de outubro, sobre Machado de Assis:

Realism from Brazil

The genius of Machado de Assis, Rio de Janeiro’s laureate of irony

Machado de Assis
A CHAPTER OF HATS AND OTHER STORIES
Translated by John Gledson
288pp. Bloomsbury. £16.99.

Stephen Henighan

The hills above Rio de Janeiro, now covered with shanty towns, were already poor, marginal districts in 1839, when Joaquim Maria Machado de Assis, a mulatto orphaned at an early age and raised by his black (or possibly mulatta) stepmother, was born. One of the many enigmas which surround Machado de Assis is how a writer whose sensibility is as finely pitched of that of Chekhov, who extended the possibilities of realist fiction through experiments with point of view as subtle as those of Henry James, and whose savage disenchantment might have earned him the respect of Jonathan Swift, emerged from an impoverished background in a tropical empire run on a regime of slavery. It is almost as if Tolstoy, rather than having inherited Yasnaya Polyana, had been born a serf.

Machado educated himself by eavesdropping on lessons given at the girls’ school where his stepmother worked in the kitchen. He persuaded an immigrant baker to teach him French, found an apprenticeship with a printer in order to learn about typesetting and books, taught himself to read English and German, and by the age of twenty-five had become a literary celebrity. Even though slavery was not abolished in Brazil until the year he turned forty-nine, Machado climbed the social ladder with ruthless efficiency. He made a sensible marriage to a cultured white woman from Portugal five years his senior and obtained a post in the Ministry of Agriculture, where he performed his duties with such diligence that he is held up as a model to modern Brazilian civil servants. Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

To some extent Machado’s contradictions are those of Rio de Janeiro. He never travelled abroad and lived in a city which, after Napoleon’s invasion of Portugal in 1808, became the seat of the Portuguese monarchy and the capital of a global empire.Brazilian independence was declared in 1822 by the Prince Regent; where Spanish-speaking republics fought brutal wars of independence against the colonial power, Brazil was a self-proclaimed empire ruled by descendants of the Portuguese royal family. Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation. This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

CONTINUA…

O texto é enorme, por isso não o reproduzi integralmente aqui. Primeiro: é muito bom que seja publicada mais uma edição em inglês com os contos do escritor. Segundo: que o livro seja resenhado no mais importante jornal literário da Inglaterra e um dos mais prestigiados do mundo, que é o TLS.

Mas o texto contém alguns equívocos imperdoáveis, como validar a história segundo a qual Machado aprendera francês na padaria de uma imigrante francesa no Rio. Trata-se de uma lenda já desmentida pelo francês Jean-Michel Massa em seu A juventude de Machado de Assis. O pior, porém, é a análise da obra feita pelo escritor canadense Stephen Henighan:

Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

Machado não era panfletário, como Henighan gostaria que fosse. A sociedade brasileira da época, incluindo suas violências físicas e vícios morais, permeiam a obra. Não é fácil saber o que Machado pensava sobre as injustiças de seu tempo se: a) o leitor for disléxico; b) se o leitor não souber captar a parte substantiva do discurso nas nuances da história. Para o leitor médio, o segundo problema é perdoável e pode ser corrigido. No caso de um indivíduo que se apresenta como intelectual e escreve para o TLS, imperdoável.

Outra pérolas aos porcos:

Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation.

Ai, meus caracóis… Que Machado tinha vergonha de sua origem humilde e étnica, parece não haver dúvidas. E é preciso enquadrar tal sentimento na época. É claro que houve indivíduos e intelectuais que usaram as origens, de forma mais ou menos intensa, como instrumento de insurgência, mas acusar (sim, acusar) o escritor de seguidor de Comte e de Darwin e, por tabela, de pensar sob os grilhões de um virulento determinismo racial é estupidez (recomendo o capítulo de Hitler e os alemães, no qual Voegelin, ancorando-se em Musil, amplia a análise do conceito de estupidez).

Henighan recorre a uma firula para, no fim das contas, dizer implicitamente que Machado era um alienado. O inglês John Gledson, dentre outros, já desfez essa bobagem no livro Machado de Assis: impostura e realismo, Quanto às teorias cientificistas derivadas das obras dos senhores Comte e Darwin, Machado satirizou-as e forma mais evidente em, pelo menos, dois livros: O alienista e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Além do mais, se se pudesse enquadrar o escritor numa categoria seria como monarquista liberal.

Além do mais, não seria um contra-senso, Machado, um mulato, achar que negros eram inferiores e, portanto, se julgar igualmente inferior, e virar a prova concreta de que essa concepção era tão equivocada como absurda?

This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

Entenderam a picaretagem? Henighan simula uma contradição para depois tentar resolvê-la afirmando que Machado nunca escreveu um romance sobre mulatos. Dio Santo! Ele queria que Machado fizesse de um mulato o personagem principal de um livro? Que esse personagem fosse reduzido aos sofrimentos das contingências da época? Que Machado renunciasse a seu gênio de mostrar as violências física e moral mediante um grandioso tratamento literário para elaborar um panfleto?

E quem o grande teórico de Machado cita como exemplo a ser seguido? Bernardo Guimarães. What? No Brasil, só se conhece a história porque virou novela da Globo. Não se conhece o livro nem seu autor (não falo de especialistas e departamentos de universidades, ok?). É um caso raro na literatura médica: o exemplo que diminui. Henighan queria um Machado piorado. É um caso raro, sem dúvida. E eu confesso andar sem entender muito algumas mentes brilhantes.

PS: Por falar em Machado, recebo agora o convite para Um mestre entre as ruínas: Machado de Assis (entrada franca), cujo objetivo é mostrar que o escritor “ultrapassa qualquer classificação ideológica”.

Um livro ruim adotado pelo MEC? Excelente notícia!

Recebi semana passada o seguinte comentário de André Ramos:

Caro Bruno, acabei de saber que o livro Mastigando Humanos, do S. Nazarian foi adotado pelo governo federal. Está lá no blog dele, com o “escritor” comemorando a influência terá na próxima geração. Isso porque “obras” de Marcelino Freire e Férrez também já foram. O que fazemos? Estou começando a entender aqueles americanos que ensinam o filho em casa.

Honestamente, não tenho mais a menor pachorra de escrever sobre escritores, ou aspirantes a, que não valem uma rosca frita, literariamente falando. Ei já tratei desse moço no ano passado.

Não gostaria de voltar a fazê-lo, mas a informação me encheu de alegria. Por favor, não riam. Falo sério. Primeiro, tentei checar a veracidade da informação, que só constava no blogue do rapaz. Depois, o próprio André deu a dica e está tudo confirmado.

Que o livro do moço, assim como o de muitos outros cujos nomes não me apetece mais divulgar, seja usado nas escolas é uma excelente notícia. Assim, evita-se que grandes escritores como Machado de Assis continuem servindo para assassinar leitores em potencial. Se as crianças e jovens passarem a ser decapitados nas escolas por livros ruins (elaborados por escritores idem) é a normalização de uma situação antes aberrante.

Dicas de leitura para durar até domingo (ou mais, se quiserem)

Sem tempo e ânimo nos últimos dias para postar aqui. Volto no domingo. Até lá, sugiro algumas leituras:

POLÍTICA/ECONOMIA

LITERATURA

FILOSOFIA

Eikasia

Leonardo

Revista Telemática de Filosofía del Derecho

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Para quem lê em espanhol clique aqui e aqui)

PS: Vixe, acabei me empolgando com a lista. Bom, escolham uma só publicação e leiam. Ou salvem os links para pesquisas eventuais. Se for um leitor animado como eu fará um passeio semanal pelos sites escolhendo os textos que te apetecerem mais.

Como Rubem Braga encontrou William Faulkner

Como Rubem Braga encontrou William Faulkner

Texto: Bruno Garschagen, de Lisboa
lustração: Eduardo Souza Lima

O escritor americano William Faulkner, o gigante que dizia só precisar de álcool, tabaco e papel para escrever, disse em célebre entrevista à “Paris Review” que “a única responsabilidade do escritor é para com sua arte”. Dizia mais, que o escritor “tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito; se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”.

Marco Antonio Carvalho, autor do excelente “Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar” e amigo querido, gostava dessa frase. Tanto que a usou na abertura da elogiada biografia lançada no ano passado. Mais do que gostar, Marco se identificava com a inscrição. A identificação fazia sentido para um escritor que durante 11 anos dedicou a saúde, as finanças, a vida pessoal e profissional à biografia, que nem viu ser publicada. Morreu em 25 de junho de 2007, alguns meses antes do lançamento.

Marco tinha o sonho de terminar a biografia. Isso o angustiou até poder se livrar dele. Não teve paz, orgulho, segurança e felicidade, embora, ao contrário da hipérbole proposta por Faulkner, tenha mantido a honra e a decência. A frase de Faulkner é a inscrição mais ou menos exata que marca o homem e o escritor. Se as palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos, como dizia o poeta W. H. Auden sobre W. B. Yeats, o legado de quem parte também é corrompido por cada indivíduo que o recebe.

Marco morreu em junho, aos 57 anos, num apartamento da Rua Paissandu, no Flamengo, a 162 passos do Lamas, que ele adorava com sincera devoção. Junho foi um mês importante na vida de Rubem Braga. Era nas férias desse mês que Rubem e os irmãos, na pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, iam para fazendas perto da cidade onde podiam fazer longos passeios a cavalo. Era ali também que, em tempos politicamente incorretos, os adultos levavam os meninos para as caçadas.

Foi igualmente em junho (de 1928) que dois irmãos de Rubem, Armando de Carvalho Braga e Jeronymo Braga, criaram o “Correio do Sul”, jornal que publicaria os primeiros textos daquele que viria a se tornar um dos maiores estilistas da língua e responsável por converter a crônica em estilo literário.

Para não repetir aspectos já realçados nas várias e elogiosas resenhas e reportagens sobre a biografia, cuja leitura recomendo vivamente, exponho aqui alguns aspectos não destacados e que valem reflexão.

Um conceito de liberdade

Primeiro, a questão política. Espírito libertário, desses que não admitem intervenção e coerção de qualquer ordem, Rubem entendia a liberdade como aquela medida em que nenhum indivíduo ou conjunto de indivíduos interfira na atividade do outro. Quanto menor for a coerção de terceiros maior a liberdade individual. É a definição de liberdade negativa cunhada e revelada ao mundo em 1958 pelo filósofo Isaiah Berlin na famosa conferência “Os dois conceitos de liberdade”.

O paradoxo se impõe: como um homem que lutou desde sempre contra o governo autoritário de Vargas, assinou um manifesto contra o fascismo em 1942 e afastou-se dos comunistas ao sentir os primeiros odores de enxofre conseguiu se manter ligado à esquerda a ponto de participar da criação do Partido Socialista Brasileiro em 1946?

Pode-se alegar, como muitos, uma certa ingenuidade política que, numa circunstância que forçava tomadas de posição, obrigava moralmente alguns homens de bem se aliar e enxergar virtude no socialismo. O monumento chamado Otto Maria Carpeaux, para quem Rubem torcia o nariz, foi também um desses inocentes úteis de que os revolucionários desde sempre se aproveitaram, com o uso do trabalho ou da imagem, para avançar com o projeto abjeto de remodelagem social. O qualificativo “democrático” logo depois de termos como socialismo ou comunismo era e é um eufemismo tão burlesco quanto bizarro.

Escritor da roça? Nananinanão!

Segundo, a questão do homem simples. A biografia deixa claro que Rubem Braga era um ser urbano e cosmopolita. Ele tinha lá sua memória afetiva muito bem consolidada e alimentada, que o fazia se permitir a excentricidade de ter um jardim suspenso com árvores frutíferas e passarinhos. Rubem queria estar na cidade vendo a paisagem da infância no interior. O matuto nunca iria para a cidade; ou, uma vez feito carreira lá, voltaria correndo para sua vida rural.

Rubem, que exaltava nacionalmente uma Cachoeiro que só tinha em sua memória, aquela Cachoeiro formada por algumas ruas, familiares e amigos queridos, só foi lá algumas poucas vezes, talvez pela certeza interior de que o confronto com a realidade extinguiria de forma irremediável aquela cidade idealizada. Ele queria as árvores, o passarinho, a memória, mas desde que fosse em Ipanema, Rio de Janeiro, sua janela aberta para o mundo onde podia receber as mulheres, os amigos e ter uísque sempre à mão.

Um outro paradoxo se impõe: embora conhecido, reconhecido e lembrado por textos sobre passarinhos, frutas, mar etc., Rubem escrevia melhor sobre a natureza humana e os relacionamentos do que sobre frivolidades rurais ou questões sociais. Quando falava sobre mulheres, conversas, encontros, amores incompletos, decepções, era de um brilhantismo literário incomparável. Quando falava sobre frutas, aves e quetais, ou se aventurava na temática política ou do choque de classes, era de uma superficialidade constrangedora, que só não era pior porque o grande escritor sabe maquiar suas imperfeições.

“Rubem Braga – Um fazendeiro do ar” vale pela descrição minuciosa da vida do nosso grande cronista, pelo painel que esboça da cultura e da política do país no século XX, pelo texto que sincroniza de forma lapidar emoção e evento histórico. Rubem deixou um legado estilístico cujo conhecimento está restrito a alguns afortunados; Marco tentou resgatá-lo com essa obra admirável.

“A única responsabilidade do escritor é para com sua arte”, eis o lema de Faulkner, Rubem e Marco.

PS: O texto acima foi publicado no site da revista carioca Zé Pereira, editada pelo crítico de cinema Eduardo Souza Lima.

PS2: Amanhã falo sobre as mudanças no blogue. Hoje fiquei por conta de um ensaio sobre política americana para o mestrado.

Biografia de Rubem Braga ganha o Jabuti

O livro Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho, foi escolhido vencedor do prêmio Jabuti 2008 na categoria Biografia. É uma excelente notícia. Estou particularmente feliz porque Marco, além de um amigo querido, trabalhou de forma rigorosa, honesta e abnegada para elaborar e finalizar a obra.

Meu único lamento é que, apesar de ter sido escolhida a obra vencedora, não vai levar o prêmio. Marco faleceu em junho do ano passado e o regulamento diz que:

7. A classificação final poderá ser alterada caso um dos vencedores seja falecido, conforme descrito em IV – DA PREMIAÇÃO, item 10 – ou se a obra sofrer algum tipo de impugnação julgada procedente pela Comissão do Prêmio.

IV – DA PREMIAÇÃO

10. Obras inéditas de autores falecidos, classificadas pelo júri entre os 3 primeiros lugares, serão transferidas para a seção Homenagem Póstuma da mesma categoria em que tenham sido inscritas, sendo premiadas apenas com o Troféu Jabuti, não concorrendo ao prêmio em dinheiro nem ao Livro do Ano. O lugar deixado vago pela transferência de seção será ocupado pela obra subseqüente na classificação geral da categoria.

Apesar disso, a escolha é um reconhecimento que agracia a obra e honra seu autor.

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