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Garschagen em O Globo: Hong Kong ou Zimbábue?

O GLOBO, OPINIÃO

Sábado, 22 de novembro

Liberdade, liberdade

Bruno Garschagen

O OrdemLivre, braço brasileiro do think tank americano Cato Institute, lançou no dia 14 no Rio o Economic Freedom of the World Report, índice elaborado pelo Fraser Institute do Canadá e que mede o grau de liberdade econômica de instituições e práticas políticas em 141 países. No dia seguinte, o G-20 anunciou uma extensa e contraditória declaração de princípios e propostas de reformas dos mercados financeiros.

O Brasil aparece em 96° lugar do índice, posição que não inspira muita comemoração. Estamos atrás, para citar alguns exemplos, da Bolívia (88), do Paraguai (86) e da Namíbia (71), país cuja capital, Windhoek, o presidente Lula em 2003 disse ser tão limpa que nem parecia África. Em Washington, cidade limpa e norte-americana, Lula participou da reunião do G-20, cuja presidência é atualmente ocupada pelo governo brasileiro. A administração Lula foi uma das signatárias do documento que acolheu os princípios de fortalecimento da intervenção na economia (mercados financeiros) e o compromisso de retomar a liberalização do comércio global com a suspensão de barreiras protecionistas por um período de 12 meses.

Do ponto de vista prático, não haveria incompatibilidade em intervir no sistema financeiro e estimular a economia real via o comércio internacional. O problema é que o documento fala em princípios. E o princípio que vem sendo transmitido desde que Wall Street começou a arder foi: o mercado é incapaz de resolver os problemas que cria, logo, o estado é a única entidade capaz de resolvê-los.

Vários são os pontos do documento em que há propostas de aumento da regulação mediante a cooperação internacional para definição de supervisão, leis e normas interventivas comuns e o incentivo aos reguladores nacionais. O perigo? As sociedades permitirem tacitamente que seus governos, com a natural tendência para o abuso mais ou menos eficiente do poder, extrapolem suas responsabilidades.

Nenhum governo pode ou deve cuidar de todas as instâncias da vida em sociedade. Porque, em nome de uma suposta maioria existente ou imaginária, vai impondo uma reengenharia social sob o manto de reformas econômicas ou políticas que exalam enxofre. Que não nos esqueçamos: a liberdade individual permite e potencializa a liberdade econômica, que tem sido crucial para instaurar ou restaurar as liberdades individuais.

No caso do Brasil, a disposição da atual administração para inchar e aparelhar ideologicamente o estado, difundir e legitimar chavões, e intervir nos modos de vida é temerária. A sociedade brasileira já rechaçou algumas propostas indecorosas, mas o perigo ronda e pesa como o ar de Brasília.

O índice lançado pelo OrdemLivre/Cato, que deve estar nas livrarias em dezembro, identifica problemas que exigem decisões. Do lado do indivíduo, que desburocratize a forma como lida com as questões; do lado do estado, que seja menor e eficiente. É a combinação que poderá fazer com que o país se aproxime de Hong Kong (número 1 do índice) ou do Zimbábue (último colocado).

A Rússia, a máfia e o economista


Andrei Illarionov com Putin, de quem foi assessor

No dia 14 de novembro, o caderno Eu&Fim de Semana, do jornal Valor Econômico, publicou o texto que segue abaixo (reproduzido no site do OrdemLivre) do ótimo jornalista Chico Mendez, correspondente internacional da Band News e mestrando em Relações Internacionais na Georgetown University:

A Rússia “siciliana”

Por Chico Mendez, para o Valor, de Washington

Nenhum outro país produziu tantos bilionários em tão pouco tempo como a Rússia de Vladimir Putin. Segundo a revista “Forbes”, atualmente apenas os Estados Unidos têm mais bilionários do que a Rússia. É bem provável, porém, que no próximo ano as fortunas dos magnatas do país encolham bastante. A crise econômica que se espalha pelo mundo tem sido cruel com o gigante do Leste Europeu, um dos países que, provavelmente, mais têm sofrido com a fuga de capitais. Na Bolsa de Moscou, as perdas de capitalização de mercado das empresas listadas são calculadas em 75% aproximadamente, no período entre meados do ano e o fim do mês passado. Um desastre.

No momento em que a tendência é culpar a falta de regulamentação do sistema financeiro, o que se passa na Rússia, à primeira vista, são meros desequilíbrios do mercado. Correto? “Errado, muito errado. O que vemos hoje em Moscou é o mais puro reflexo de um governo que optou por um regime político e econômico até então inédito”, afirma o economista russo Andrei Illarionov, pesquisador do Cato Institute.

Os bilionários que surgiram nos últimos anos e o derretimento do mercado russo têm uma raiz em comum: o Kremlin. A concentração de poder nas mãos do Executivo ao longo dos anos de Vladimir Putin e o cerceamento das liberdades individuais remetem Illarionov ao antigo regime comunista de partido único. As distorções causadas por esse excesso de poder explicam o que ele classifica como um governo comandado por mafiosos. “A Rússia não é uma democracia, não é um regime socialista. A Rússia é singular. O que vemos ali é o que mais se aproxima do esquema da Sicília. É o que classifico de sicilianismo”, diz Illarionov, que está no Brasil para realizar uma palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Ele chega ao país duas semanas antes da visita oficial do presidente Dmitry Medvedev.

Illarionov foi o assessor mais próximo do ex-presidente russo entre 2000 e 2005, o homem de confiança do governo na economia e o representante do país no G-8. Hoje, é um incisivo opositor do “sicilianismo” moscovita e, desde que deixou o governo, teme o risco de ser calado à força, onde quer que esteja. Illarionov encontrou refúgio no Cato Institute, famoso por pregar a bíblia libertária na política e na economia. Mudar de país foi a única alternativa que lhe restou para se manter ativo. Illarionov mudou-se com família, mulher e filhos, sem data para voltar. Ou melhor, a data ele não sabe, mas tem consciência de que só volta a morar na Rússia quando o “sicilianismo” acabar. revisões? “Sobre mim, nenhuma. Sobre a Rússia, muitas.”

Illarionov deixou o governo em 2005, depois de fazer um pronunciamento no Kremlin em que apontava os erros do governo Putin. “Imagine o que é falar mal do Putin em sua casa”, relata um amigo do economista que pede para não ser identificado. No seu discurso de despedida, Illarionov afirmou “que começou trabalhando para um governo democrático, mas agora é funcionário de uma ditadura”. “Putin deve ter ficado muito contente, não é?”, brinca o amigo.

Illarionov acha que saiu tarde demais do governo. Em 2005, quando decidiu partir, as evidências do esquema “siciliano” já estavam visíveis. “A grande mudança de rumo na Rússia se dá em 2003, quando Putin decide prender Mikhail Khodorkovsky, ex-proprietário da Yukos”, conta.

Ele se lembra bem do dia em que foi convidado para assessorar o ex-presidente. Recebeu a tarefa convicto de que Putin era o homem certo para levar adiante as transformações iniciadas com Boris Yelstin. Illarionov se recorda também do entusiasmo dos dois primeiros anos no cargo. “Putin tinha um projeto liberal sério para o país. As reformas econômicas que implantamos entre 2000 e 2002 só foram aprovadas por que tínhamos o apoio dele.”

Visivelmente frustrado quando fala de seu país atualmente, Illarionov não sabe explicar o que motivou as transformações no regime russo. Ele considera duas hipóteses e acredita que elas formam uma equação perfeita de poder, um plano pensado cuidadosamente para concentrar as decisões entre um seleto grupo de “amigos”. “Há duas versões para tudo isso. A primeira é de que Putin é um ex-membro da KGB de cabeça liberal e determinado a construir uma nova Rússia. A segunda é de que toda essa reviravolta já estava planejada desde o primeiro dia de seu governo. Acho que as duas versões estão certas. Putin se aproveitou da primeira para concentrar o poder no Kremlin e dar início, assim, à segunda fase. E tudo isso piora significativamente com o aumento do preço do petróleo. Os bilhões de dólares que entraram no país deram muita confiança ao governo e eles resolveram jogar com músculos.”

O petróleo pode ter sido a partícula aceleradora das transformações na Rússia, mas o regime é hoje dependente de um outro fator para manter o poder. “Eles só dependem do uso da força e da coerção”, diz Illarionov. “O regime russo desenvolveu uma tara por poderio militar. No dia em que todos os chefes de Estado mundo afora cumprimentaram Barack Obama por sua vitória, Dmitry Medvedev preferiu anunciar que a Rússia posicionaria mísseis na fronteira com a Polônia em resposta ao sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem instalar na região. Os russos fazem questão de mostrar o seu poderio bélico. Recentemente, anunciaram exercícios militares com a Venezuela no Caribe e violaram todos os tratados internacionais ao invadir a Geórgia.”

O avanço militar acontece simultaneamente a uma intensa propaganda governista, que tem como centro a pessoa de Putin e visa despertar sentimentos nacionalistas. A personificação do governo na figura do atual primeiro-ministro conta com a ajuda dos grupos jovens conhecidos como “nashi”, que cultuam a imagem de Putin e fazem lembrar o Konsomol, a organização da juventude comunista.

A soma de nacionalismo, corrupção, privilégios, avanço militar, medo, coerção e mortes explica por que o mercado russo sofreu perdas maiores do que os de países emergentes. “A natureza da crise na Rússia não é econômica, mas política. Há uma completa deterioração de políticas de governo que garantiriam o retorno do investimento estrangeiro. Com essas mensagens, não resta alternativa ao investidor a não ser deixar o país”, afirma Illarionov.

O mais recente episódio que demonstra a falta de compromisso das autoridades russas ocorreu justamente com a maior joint-venture já feita no país, envolvendo a BP (British Petroleum) e a empresa russa TNK. Descontentes com os sócios britânicos, os oligarcas russos tentam de todas as formas tomar o controle da empresa. Como o muro que separa o público do privado não existe na Rússia, os sinais de que os britânicos estavam incomodando começaram a ser emitidos por autoridades governamentais. No começo do ano, o serviço de imigração negou o pedido de renovação do visto do CEO da parceria, o britânico Robert Dudley. “Esse foi um negócio fechado na presença de Tony Blair e Vladmir Putin, mas ainda assim não há nenhuma garantia de segurança jurídica. O Kremlin diz que prefere ficar neutro na disputa, mas é evidente que autoridades russas estão por trás disso.”

Illarionov não se sente à vontade para falar de seu relacionamento com Putin. Diz apenas que cultivaram boas relações entre 2000 e 2001, mas hoje não mantêm nenhum contato. Mas, se pudesse enviar uma mensagem para Putin, o que Illarionov escreveria? “Já mandei recados diariamente durante seis anos. Agora preciso de descanso.” Admite que não será fácil. Pode ser vítima de algum “acidente”, em represália por criticar o governo. “Isso faz parte da vida em Moscou. Qualquer um pode ser atingido.”
Ele recebeu neste ano o que pode ter sido um primeiro sinal de desagrado do governo russo com suas atitudes de rebeldia: a validade de seu passaporte foi reduzida de cinco para dois anos. “Isso tudo é muito triste. O país não tem imprensa livre nem partido independente, as instituições não existem e não há quem garanta a aplicação das leis. Na Rússia, hoje, não prevalecem os valores pessoais, mas sim os do governo.”

Na semana passada, participei de uma conferência com uma autoridade portuguesa na área das relações internacionais (não posso revelar o nome nem o cargo). Depois de escutar pouco mais de 30 minutos de um discurso completamente pró-Rússia, no qual se destacou uma defesa mais ou menos velada do ex-presidente Putin, iniciei a série de perguntas da platéia contrapondo o que a autoridade havia dito sobre o sistema político do país (“a Rússia caminha para um tipo próprio de democracia”) e sobre a área militar (“o governo vem fazendo reformas profundas com a redução do contingente militar”) com duas opiniões de Illarionov extraídas do texto do jornalista brasileiro:

1) “A Rússia não é uma democracia, não é um regime socialista. A Rússia é singular. O que vemos ali é o que mais se aproxima do esquema da Sicília. É o que classifico de sicilianismo”;

2) “O regime russo desenvolveu uma tara por poderio militar. No dia em que todos os chefes de Estado mundo afora cumprimentaram Barack Obama por sua vitória, Dmitry Medvedev preferiu anunciar que a Rússia posicionaria mísseis na fronteira com a Polônia em resposta ao sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem instalar na região. Os russos fazem questão de mostrar o seu poderio bélico. Recentemente, anunciaram exercícios militares com a Venezuela no Caribe e violaram todos os tratados internacionais ao invadir a Geórgia.”

É claro que inaugurar uma sessão de perguntas com uma questão como essa causa um certo desconforto. Antes de começar a responder, a autoridade concedeu-me um sorriso constrangido e fez uma tentativa de desqualificar as opiniões do economista russo com a informação de que Illarionov sempre foi conhecido no governo como um enfant terrible. “Os membros do governo não entendiam como o presidente Putin mantinha Illarionov como assessor”, disse a autoridade, revelando a faceta democrática dos demais assessores e, de certa forma, dele próprio. Por que dele? “Illarionov é um excelente economista e um péssimo político”. Em nenhum momento a autoridade disse que Illarionov havia mentido, embora tenha insistido na avaliação própria de que, apesar do problema das máfias desde o fim da União Soviética, não se pode qualificar o governo como tal.

Na área militar, negou a “tara” denunciada pelo economista.

Um ponto em particular me chamou a atenção. A autoridade disse que se a Rússia se convertesse numa democracia ocidental o Ocidente correria um risco muito maior. Porque, segundo ela, o país teria uma disposição imperialista mais intensa e perigosa do que demonstra hoje.

A única parte da conferência dessa autoridade portuguesa com a qual estive de acordo foi a necessidade de conversar permanentemente com a Rússia e com isso evitar problema advindos pela ausência de diálogo. De resto, lamentável.

Aquecimento global? Para acreditar ou não é preciso obter informação

Gosto de provocar ao dizer numa conversa, de preferência com interlocutores desconhecidos, que sou a favor do aquecimento global. Trata-se, obviamente, de uma boutade. Porque quando antes de perguntarem sobre tal assunto sou chicoteado com opiniões tolas e desinformadas. E é justamente para compartilhar textos que venho lendo sobre assunto que publico aqui os dois que seguem abaixo. Sugiro, para quem se interessa pelo tema, que leiam os dois artigos:

JORNAL DE NEGÓCIOS (LISBOA):

O pior de todos os mundos

Bjorn Lomborg

Já reparou que os activistas do ambiente afirmam quase inevitavelmente que não só o aquecimento global está a acontecer, e em força, como também aquilo a que estamos a assistir é ainda pior do que o previsto?

É bastante curioso, porque qualquer pessoa que entenda minimamente as técnicas científicas esperaria que, à medida que refinamos o nosso conhecimento, fossemos descobrindo que as coisas às vezes são piores e outras vezes são melhores do que o esperado e que a proporção mais provável é de 50-50. No entanto, os militantes ecologistas quase sempre a vêem como 100-0.

Se nos surpreendermos regularmente numa única direcção, se os nossos modelos fizerem caso omisso de uma realidade cada vez mais deteriorada, isso não joga muito a favor da nossa abordagem científica. Com efeito, poderá dizer-se que se os modelos estão constantemente equivocados, é porque provavelmente esses modelos estão errados. E se não conseguirmos confiar nos nossos modelos, não conseguiremos saber que medidas políticas tomar se quisermos fazer a diferença.

Ainda assim, se novos factos nos demonstram constantemente que as consequências das alterações climáticas estão a agravar-se cada vez mais, os nobres argumentos acerca do método científico poderão não ter muito peso. Por certo, essa parece ser a postura prevalecente no domínio da interpretação do aquecimento global. Uma vez mais, a situação está pior do que pensávamos e, apesar dos nossos modelos deficientes, pensamos saber exactamente o que fazer: reduzir de forma drástica as emissões de dióxido de carbono.

Mas simplesmente não é correcto dizer que os dados sobre o clima são sistematicamente piores do que o previsto; em muitos aspectos, estão em linha com o estimado ou são até melhores do que o projectado. Se ouvimos dizer outra coisa, isso é apenas um sinal do vício dos meios de comunicação social pelos piores cenários das histórias, mas esse não é um fundamento sólido para políticas inteligentes.

CONTINUA…

THE HARVARD CRIMSON:

Al Gore’s Inconvenient Diet

Why is the world’s foremost environmental crusader not a vegetarian?

Published On Thursday, October 23, 2008 11:20 PM
By LEWIS E. BOLLARD

“The rule of reason,” Al Gore ’69 declared to a packed Tercentenary Theater a Wednesday, “must dictate our actions towards the environment.” His speech pushed this theme, urging listeners to take drastic actions now for “the survival of our human civilization.”

As the world faces the existential threat of climate change, the former Vice President has embarked on an admirable quest to reform carbon-heavy habits. Yet despite his talk of making inconvenient choices, Mr. Gore continues to indulge in one of the most environmentally irrational habits of all: eating meat.

A 2006 report by the U.N. Food and Agriculture Organization found that meat production generates almost a fifth of all human-induced greenhouse gas emissions—more than the world’s cars, planes, and trucks combined. Moreover, the report cited meat production as a primary cause of land degradation, air pollution, water shortage, water pollution, and lost biodiversity. The scientists concluded “the livestock sector emerges as one of the top two or three most significant contributors to environmental problems, at every scale from local to global.”

To put this in perspective, a University of Chicago study concluded that an individual American can do more to reduce global warming by going vegetarian than by driving a Prius.

Mr. Gore, a Prius driver, spoke at length on Wednesday about achieving energy independence. But one third of America’s fossil fuel consumption is used solely to raise animals for meat, according to the estimate of E, an environmental magazine.

CONTINUA…

PS: Mais à noite vou escrever um texto informando sobre as alterações nas seções fixas do blogue. Até!

Paulo Francis fala sobre o “Afeto que se encerra”

É sempre divertido ouvir Paulo Francis falando. Mas reparem em algumas opiniões:

1) Disse que não faria a menor diferença se o vencedor das eleições fosse Ronald Reagan, do Partido Republicano, ou Jimmy Carter, do Partido Democrata;

Nota: essa análise política foi de um primarismo monumental.

2) Disse que tudo indicava que Carter, presidente do país entre 1977 e 1981, perderia a eleição para Reagan;

Nota: A derrota se confirmou. Reagan venceu, assumiu o governo em 1981, foi reeleito, e deixou a presidência em 1989. Só não sei se foi uma opinião do Francis de acordo com a leitura que fez das informações disponíveis ou se repetiu a análise de seus colunistas preferidos dos grandes jornais americanos.

3) Afirmou que Reagan, a quem acusou de preguiçoso, seria um sub-Eisenhower.

Nota: Dwight D. Eisenhower foi o 34o. presidente dos Estados Unidos. Republicano, governou o país de 1953 a 1961. Reagan entrou para a história como um dos maiores políticos da história americana e foi um dos maiores responsáveis pelo Fim da Guerra Fria com a derrubada do muro de Berlim e a queda da União Soviética.

Apesar disso, voltem e revejam o vídeo. Olhem a roupa, o óculos e o cabelo. Reparem no que ele diz sobre o embaixador de Cuba. Divirtam-se, até mesmo com os equívocos monumentais.

PS: Ainda na Turquia. Dia atarefado, reuniões, corridas de lá para cá etc. Conheci a sede do jornal Zaman, o mais antigo do país. Depois, almoço com o diretor da maior emissora privada de TV. À noite, jantar com o presidente e o vice-presidente de uma das Câmaras de Istambul, o equivalente, no Brasil, a uma prefeitura. Estou tomando notas das conversas e das impressões. Ao longo da próxima semana vou colocando aqui em forma de posts. Até!

Garschagen já na Turquia

Excelente viagem até a Turquia. Pela primeira vez, fiquei feliz em ter o passaporte brasileiro. Enquanto quem tinha passaporte europeu era obrigado a pagar uma taxa de entrada (visa), os brasileiros entravam sem custo por causa de um acordo entre os governos brasileiro e turco. Política de reciprocidade. A Comunidade Européia cobra entrada dos turcos, que devolvem o carinho.

Gostaria de um dia poder viajar sem ter que provar à imigração de um país estrangeiro que não sou bandido. Que o ônus da prova não coubesse a mim, inocente de qualquer crime. É um dos sentimentos mais desagradáveis. Enfim.

Vi parte da cidade à noite no trajeto até o restaurante onde me esbaldei na deliciosa comida típica. Amanhã tenho uma maratona de reuniões. Agora, vou descansar. Deixo para vocês o post aí de cima. Bom descanso.

Garschagen na Turquia

Caros, viajo amanhã para a Turquia. Não sei se terei como postar nada até domingo, quando volto. Amanhã sai um texto meu no OrdemLivre sobre o presidente eleito dos Estados Unidos. Portem-se bem e até já.

Será Obama um realista nas relações internacionais?

Seria Barack Obama um realista puro? Para Fareed Zakaria , o candidato do Partido Democrata defende uma visão de mundo muito mais próxima da tradição realista do que daquela típica da esquerda americana. Zakaria fundamenta sua tese em alguns pontos:

1) a declarada simpatia de Obama pela política externa realista do governo Bush;
2) a individualização dos estados com sua complexidade e motivação pelo poder sem dividir o mundo de forma maniqueísta;
3) a diplomacia motivada pela noção de que é possível influenciar outros países;
4) a idéia segundo a qual ao garantir que as necessidades básicas sejam satisfeitas (comida, segurança, alimentação) a sociedade buscará um tipo de regime democrático;
5) a visão conservadora de um desenvolvimento democrático lento, gradual e orgânico;
6) o respeito pelas tradições e a valorização da continuidade e da estabilidade do interesse próprio às vezes muito mais forte do que a promoção de mudanças;
7) a necessidade de garantir a segurança do país em vez de investir esforços na democratização do Iraque, que representaria um importante papel na luta contra o extremismo islâmico;
8 ) a defesa da cooperação entre os maiores poderes mundiais para solucionar os grandes problemas mundiais, como, por exemplo, a proliferação nuclear com a Rússia e a econômica com a China.

Antes de avançar é preciso ter em mente que o “realismo tem sido a tradição dominante no pensamento sobre a política internacional”, segundo Joseph Nye Jr. em seu livro Compreender os conflitos internacionais. Uma introdução à teoria e à história. Sendo os estados os actores principais, a guerra e o uso da força são, segundo a abordagem realista, o problema central da política internacional, cujo princípio e fim são “o estado individual em interacção com outros estados”. Dois dos grandes representantes do realismo foram o presidente americano Richard Nixon e seu secretário de estado, Henry Kissinger.

É reveladora, mesmo que equivocada, a menção feita a Kissinger por Obama no primeiro debate presidencial realizado em 26 de outubro. O candidato dos Democratas invocou o ex-secretário de estado para defender uma negociação de alto nível e sem precondições com o Irão (como já havia proposto em relação à Cuba e à Venezuela), embora acredite que o país, junto com a Síria, apóie o Hezbollah.

A relação com Kissinger é estabelecida por Zakaria, para quem a reacção de Obama contra as propostas de McCain para as relações com a Rússia e China poderiam ter sido esboçadas por Kissinger. E não deixa de ser sintomático — por tributário do realismo — o elogio de Obama à política externa da administração Bush: “It’s an argument between ideology and foreign-policy realism. I have enormous sympathy for the foreign policy of George H.W. Bush”. Mas ao contrário do que diz Zakaria também há um viés moral nos discursos de Obama, chamado de intervencionista por Robert Kagan.

Quando Zakaria afirma que Obama rejeita a obsessão de Bush pela defesa dos direitos políticos e eleições transmite a falsa idéia de que o candidato democrata vê ambos os instrumentos da democracia como desimportantes, opinião desmentida pelos seus discursos. Inclusive, nem a tese do texto do editor da Newsweek é original. Em 2007, o The Wall Street Journal já havia se referido a Obama como realista e, depois, vários comentadores passaram a fazer essa relação.

O ponto interessante do enquadramento teórico estabelecido a partir do que tem dito o candidato do Partido Democrata é mostrar que seu discurso tem quase nada de “change”, a palavra convertida em mantra da campanha, e muito daquela continuidade conservadora identificada por Larissa MacFarquhar (enquadramento também defendido por Pepe Escobar). A jornalista também notou que o candidato Democrata fala sobre princípios da esquerda (liberal) numa linguagem conservadora.

Os simpatizantes, defensores e eleitores de Obama estão, às vezes sem perceber, legitimando a política externa do presidente George W. Bush contra a qual McCain, colega de partido, já se posicionou de forma específica e pontual. Se é possível estabelecer certos parâmetros para enquadrar Obama como realista e McCain como idealista, também é preciso levar em consideração que as idéias políticas expressas por ambos os candidatos são um mix de abordagens que torna mais rica e complexa a análise da política das relações internacionais americana.

PS: Este texto foi feito e apresentado numa das cadeiras do mestrado, por isso a grafia à portuguesa de algumas palavras e o tom mais acadêmico do texto. Coloquei aqui para dividir com aqueles que gostam questões envolvendo relações internacionais.

Dicas de leitura para durar até domingo (ou mais, se quiserem)

Sem tempo e ânimo nos últimos dias para postar aqui. Volto no domingo. Até lá, sugiro algumas leituras:

POLÍTICA/ECONOMIA

LITERATURA

FILOSOFIA

Eikasia

Leonardo

Revista Telemática de Filosofía del Derecho

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Para quem lê em espanhol clique aqui e aqui)

PS: Vixe, acabei me empolgando com a lista. Bom, escolham uma só publicação e leiam. Ou salvem os links para pesquisas eventuais. Se for um leitor animado como eu fará um passeio semanal pelos sites escolhendo os textos que te apetecerem mais.

Paper, jantar e Turquia

Há alguns assuntos que quero tratar aqui, mas não consegui parar para escrever. Estou produzindo um paper que está dando mais trabalho do que eu inicialmente planejara. Está ficando bom, o que é ótimo. Prometo partilhar depois com vocês o tema do trabalho e onde ele será publicado.

*****

Hoje à noite fui jantar na Associação de Amizade Luso-Turca. Uma delícia de comida e uma gentileza dos membros da entidade que raramente se vê.

O encontro foi para definir a viagem de um grupo de jornalistas que vai à Turquia em novembro. A visita inclui idas à universidade, jornal, institutos, órgãos do governo e um passeio turístico por Istambul, uma das cidades mais belas do mundo.

Quero ver se, na volta, consigo fazer um resumo dos encontros e conversas que tive por lá.

Sobre McCain, Iraque, Geórgia, Rússia, Oriente Médio, ufa!

Atrasado, mas vamos lá. Gabriel Trigueiro, do Vaudevilleando, ao comentar o post Quando a análise política se converte em diagnóstico médico:

Bruno, meu caro, creio que temos algumas discordâncias. Em primeiro lugar: até que tenho bastante simpatia pelo McCain. Quando ele fala sobre a permanência no Iraque, por exemplo, eu assino embaixo. No entanto achei extremamente condenável o populismo dele na questão Rússia X Geórgia. Se a política externa norte-americana fosse pautada pela cabecinha dele e, consequentemente, a Geórgia já integrasse a OTAN, os EUA estariam neste exato momento ingressando num confronto militar com uma potência nuclear. Not my idea of fun. Acho que falta ao McCain aquilo que Oakeshott descreveu como uma certa “disposição conservadora”. Eu acho que, sim, o candidato do GOP é (ou se mostra, pelo menos) excessivamente belicoso quando o assunto é Rússia. Ora, até mesmo Winston Churchill – em 1953, depois da morte de Stálin – percebeu a urgência de ter Moscou como interlocutora. Henry Kissinger – aquele mesmo acusado de crimes de guerra pelo Christopher Hitchens (ah, o furor revolucionário!) – já havia percebido isso ao aconselhar Richard Nixon a assinalar uma série de acordos militares com a União Soviética (a détente). Eu, sinceramente, tenho dificuldade em enxergar no McCain essa disposição de usar “soft power”. O contrário já se pode dizer do Obama. Não foi ele que disse, afinal, que estaria disposto a sentar com o Irã para negociar? Hoje em dia é impossível pensar uma solução para o Oriente Médio que não passe por Teerã. Aliás, Moscou também é essencial, não? Energia e combate ao terror. Acho que nós, conservadores, precisamos de mais pessoas influenciadas por Burke do que por esse pastiche de trotskismo chamado neoconservadorismo.

A primeira coisa interessante do comentário é a afirmação imperativa das discordâncias. Isso é ótimo! E já agradeço ao Gabriel não só pelo comentário, mas por discordar, o que alimenta a conversação e permite desenvolver questões.

A primeira afirmação do Gabriel, de que assina embaixo sobre a disposição de McCain de manter as tropas no Iraque enquanto necessário, em nada discorda do que venho escrevendo aqui no blogue. E simpatia pelo McCain eu também tenho. Só não seria meu candidato ideal (embora saiba que meu preferido, Ron Paul, dificilmente seria escolhido pelo partido. E, se escolhido, só por um milagre venceria bObama). Já temos, então, duas concordâncias.

Passemos às discordâncias: a posição de McCain na invasão da Geórgia pela Rússia não foi populista, mas coerente com aquilo que pensa o candidato Republicano e com alguns princípios políticos da política americana, não só do Partido Republicano, qual seja o de defender países sob governos democraticamente eleitos. E não digo aqui que concordo integralmente com essa tese, por legitimar um presidente como o da Geórgia e um governo como o de Singapura. Quando penso num país penso nos indivíduos que compõem essa nação. E nem sempre o suposto bem-estar da população pode servir de argumento para autocracias, mesmo as liberais.

Duvido que McCain, se presidente, ou se a Geórgia fizesse parte da OTAN, haveria um conflito direto entre Estados Unidos e Rússia. Assim como tenho muitas dúvidas sobre se a Rússia assumiria o risco e a responsabilidade de invadir a Geórgia caso o país fosse um membro da OTAN. Como se viu no discurso de McCain realizado ontem sua postura pública é mais conciliadora do que a de bObama, que num momento diz que dialogaria com o Irã (o que eu acho uma proposta infrutífera porque não há uma relação de confiança que permita um diálogo eficaz) e, no outro, que toparia comprar uma briga com o governo iraniano se necessário. bObama já mostrou que está longe de ser o pacifista que certa opinião tenta vender contradizendo os próprios discursos do candidato do partido democrata. O texto de Robert Kagan (Quando a análise política se converte em diagnóstico médico) que reproduzi no comentado pelo Gabriel mostra isso de forma clara e objetiva por ser baseada no que disse bObama.

No caso do Oriente Médio, discordo frontalmente se ao dizer que uma solução para a região passa por Teerã isso signifique a primeira coisa, ou principal, a ser feita. Que ajeitar as coisas com o Irã é importante, não há dúvidas, mas o passo fundamental é a paz entre Israel e Palestina, o que não significa, no entanto, que a relação pacífica entre israelenses e palestinos vai, imediatamente, pacificar a região.

Um elemento importante que vem permitindo o aprofundamento do diálogo entre Israel e Palestina é a pressão diplomática dos países árabes, mais conscientes do que nunca de que o radicalismo islâmico pode destruir a região (leiam o texto A rota da paz, que fiz para o site Americas Reporter). Fomentar a paz é salvarem-se da destruição.

Assim como uma boa relação entre os países árabes e Israel pode permitir um equilíbrio e, numa etapa seguinte, estimular o desenvolvimento da região, as relações dos países ocidentais com a Rússia deve ser a melhor possível. A Rússia, embora não tenha mais o monstruoso capital político, financeiro e militar que teve durante a Guerra Fria, também está longe de ser um player medíocre na sociedade internacional. Ainda mais com as reservas de gás em seu território, fonte de energia de que a Europa depende. Um relacionamento amistoso, baseado numa relação bilateral em que ganhos, perdas e compensações são aceitos e respeitados funciona entre países, funciona entre vizinhos de apartamentos. O diálogo e a negociação devem ser o primeiro e principal objetivo do representante maior de qualquer nação.

Sobre Edmund Burke, bem, a conversa é outra e muito mais longa para ser desenvolvida neste momento.

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