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40 anos do AI-5 (5)

Para fechar feliz um dia de textos sobre o infame AI-5, um texto do Ruy Castro hoje na Folha que revela algo que eu não sabia: o lançamento em DVD do documentário “Caro Francis” (nos cinemas em 2009), de Nelson Hoineff:

O coração como arma

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO – Na noite de 13 de dezembro de 1968, Paulo Francis tomou um avião em Nova York e mandou tocar para o Rio, onde morava. Enquanto ele lia Geoffrey Barraclough a 30 mil pés, os militares faziam horrores por aqui -fechado o Congresso e abolido o habeas corpus, estavam indo buscar em casa quem eles consideravam perigosos para o regime: políticos, editores, poetas, repórteres, caricaturistas.

Na manhã de 14, ao pousar no Galeão e aberta a porta do avião, Francis teria posto o pé na escadinha e, de nariz em pé, perguntado sorridente, para ninguém em particular: “E aí, como se comportou o Brasil na minha ausência?”. Em resposta, mãos truculentas o teriam algemado e levado preso para o quartel. Segundo outra versão, mais correta, Francis só foi preso no dia seguinte, 15, de pijama, em seu apartamento em Ipanema.

Hipótese também mais heróica, porque, já sabendo da prisão de tantos de seus amigos, poderia muito bem ter ido se esconder em um sítio na roça. Mas preferiu ficar e ver no que dava. Deu cana, da qual só foi libertado no Natal, por interferência de outro amigo, ligado ao general Sizeno Sarmento.

Eu próprio, julgando-me um alvo, também andei escondido por alguns dias. Mas saí da toca e estive com Francis logo depois que o soltaram. Perguntei-lhe: “Foi torturado?”. E ele: “Barbaramente. O carcereiro escutava Vandeca [a cantora Wanderléa] pelo radinho de pilha o dia inteiro”.

Por várias razões, é Francis que me vem à cabeça em todo aniversário do AI-5. Mas, desta vez, há mais um motivo: o belo documentário “Caro Francis”, que acaba de sair, produzido por Nelson Hoineff. É o retrato de um homem cuja principal arma retórica não era a inteligência, a mordacidade ou o destempero verbal, mas -agora ficou claro- o coração.

Segundo o perfil de Hoineff no Wikipédia, o filme “é sobre a vida, a veia transgressora e as polêmicas de Paulo Francis, um dos mais influentes jornalistas brasileiros do século 20. Caro Francis foi filmado no Rio de Janeiro, São Paulo e Nova York. No formato DVD, com 95 min de duração, foi lançado em 9 de dezembro de 2008, durante a entrega do Prêmio Esso de Jornalismo no Rio de Janeiro. A versão para cinema, ligeiramente maior, tem lançamento previsto para 2009″.

Preciso controlar a ansiedade para ver esse filme. Algum estimado leitor já é o feliz proprietário do DVD?

40 anos do AI-5 (4)

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Costa e Silva (de óculos) e Delfim Neto (também de óculos, assinando o documento)

Há 40 anos o país sofria um violento golpe institucional com a decretação do Ato Institucional n. 5. Decidi abrir uma exceção e escrever no blogue hoje após ler esta manhã a seguinte matéria na Folha de S. Paulo:

Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5

MAURICIO PULS
da Folha de S.Paulo
NATÁLIA PAIVA
colaboração para a Folha de S.Paulo

Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o AI-5, o principal símbolo da ditadura militar, é totalmente ignorado por 82% dos brasileiros a partir dos 16 anos. E, dos 18% que ouviram falar algo sobre ele, apenas um terço (32%) respondeu corretamente que a sigla se referia ao Ato Institucional nº 5.

Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente, o general Costa e Silva, o AI-5 autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo, e suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas. A censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.

Passados quase 30 anos de sua extinção, a lembrança do AI-5 vem se desvanecendo. Como observa o cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj, isso resulta do fato de que boa parte da população nasceu após 1968: “O fato tem 40 anos e não faz parte do calendário das datas nacionais”. Mas mesmo no estrato de pessoas com 60 anos ou mais (indivíduos que tinham ao menos 20 anos quando o AI-5 foi editado), só 26% dizem ter ouvido falar dele.

O conhecimento sobre o AI-5 cresce à medida que avança a escolaridade formal. Só 8% das pessoas com ensino fundamental ouviram falar do AI-5. A taxa sobe para 53% entre quem tem nível superior, mas só 12% desse grupo se diz bem informado.

Para o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado da USP e da Unicamp, “a variável decisiva é a escolaridade”: “É natural que o desconhecimento exista. A população comum é muito desinformada sobre questões políticas. O pessoal mal lê jornal. Isso não é só no Brasil. Foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler”.

Na opinião do historiador Marco Antônio Villa, da UFSCar, a pesquisa não revela “nenhuma surpresa”: “Nós somos um país sem memória e despolitizado. Se a política fizesse parte do cotidiano, isso não aconteceria. É um duplo problema. Isso permite que quem colaborou com a ditadura possa se travestir de democrata”.

Para o historiador Carlos Guilherme Mota, da USP, a pesquisa do Datafolha é previsível e resulta de um ensino ruim, da falta de financiamento às universidades e da falta de interesse num projeto nacional calcado no conhecimento histórico: “Vivemos num país em que as elites não têm preocupação em incentivar a educação e a pesquisa histórica”, diz.

Mais do que um fiasco do sistema escolar, a historiadora Denise Rollemberg, da UFF, diz tratar-se de um processo que envolve esquecimento e reconstrução da história: “No Brasil pós-abertura política, quando a democracia passa a ser valorizada, há uma reconstrução do passado a partir do presente. Nessa reconstrução esquece-se o que houve para esquecer-se do aval dado”.

Daniel Aarão Reis, também da UFF, concorda. Diz que que sempre que uma sociedade muda de valores surge o desafio de compreender por que se tolerou a situação agora deixada de lado: “É muito mais simples não falar do assunto, esquecer”.

Um sintoma de que o apoio à ditadura foi mais amplo do que aparenta transparece na pergunta na qual o pesquisador, após explicar o que foi o AI-5, questiona se Costa e Silva agiu bem ou mal ao editá-lo: 48% avaliam que ele agiu mal, e 26% acham que ele agiu bem. A pesquisa foi feita de 25 a 28 de novembro com 3.486 pessoas. A margem de erro é de dois pontos.

Provavelmente vocês meus caros leitores regulares deste blogue não se encaixem nessa maioria que, por uma razão ou outra, ignora esse período da história brasileira. Mas nesse desejo de compartilhar informações e ajudar quem desconhece o infame AI-5 selecionei, além do vídeo e imagens nos posts anteriores, alguns textos sobre o assunto:

REINALDO AZEVEDO

- AI-5: 40 ANOS NESTE SÁBADO.

ESTADÃO

- Especial – AI-5: 40 anos de um atentado à liberdade (muito bom!).

FOLHA DE S. PAULO

- Site traz áudio completo da votação do ato (muito bom!);

- Medici queria revogar o AI-5 – entrevista com Rondon Pacheco;

- Fracasso em derrubar AI-5 levou Costa e Silva à morte – entrevista com Ivo Arzua;

- No dia seguinte a sua edição, AI-5 já era motivo de piada;

- Nos anos 70, regra era ensinar só até o golpe militar;

- UNE e OAB usam 40 anos do AI-5 para cobrar abertura dos arquivos da ditadura.

O GLOBO

- OAB omitiu-se diante do AI-5 e teve conselheiros em cargos no governo;

- Anos de chumbo: ABI flertou com regime que depois combateria;

- Historiadores analisam a participação da sociedade civil nos anos de chumbo.

PS: Infelizmente, textos completos só para assinantes do Globo Digital.

JORNAL DO BRASIL

- Memórias póstumas do AI-5, 40 anos depois;

- AI-5: Imprensa recorda uma dor imortal (parte 1);

- AI-5: Imprensa recorda uma dor imortal (parte 2);

- Ícone, Sepúlveda Pertence revisita a memória.

40 anos do AI-5 (2)

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O anúncio da decretação do Ai-5 foi feito pelo ministro da Justiça, Gama e Silva (de óculos), e pelo locutor Alberto Curi.

O texto do infame AI-5:

ATO INSTITUCIONAL Nº 5, DE 13 DE DEZEMBRO DE 1968

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e

CONSIDERANDO que a Revolução brasileira de 31 de março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

CONSIDERANDO que o Governo da República, responsável pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário, ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que ‘não se disse que a Resolução foi, mas que é e continuará e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento não pode ser detido;

CONSIDERANDO que esse mesmo Poder Revolucionário, exercido pelo Presidente da República, ao convocar o Congresso Nacional para discutir, votar e promulgar a nova Constituição, estabeleceu que esta, além de representar a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução, deveria assegurar a continuidade da obra revolucionária’ (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa a adoção de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranqüilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores, da ordem são contrários aos ideais e à consolidação do Movimento de março de 1964, obrigando os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências necessárias, que evitem sua destruição,

Resolve editar o seguinte

ATO INSTITUCIONAL

Art 1º – São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art 2º – O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.

º 1º – Decretado o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.

º 2º – Durante o período de recesso, os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.

º 3º – Em caso de recesso da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art 3º – O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.

Parágrafo único – Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art 4º – No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Parágrafo único – Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art 5º – A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:

I – cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;

II – suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;

III – proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;

IV – aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:

a) liberdade vigiada;

b) proibição de freqüentar determinados lugares;

c) domicílio determinado,

º 1º – o ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.

º 2º – As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro de Estado da Justiça, defesa a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário.

Art 6º – Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, mamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.

º 1º – O Presidente da República poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.

º 2º – O disposto neste artigo e seu º 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art 7º – O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art 8º – O Presidente da República poderá, após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.

Parágrafo único – Provada a legitimidade da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art 9º – O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário à defesa da Revolução, as medidas previstas nas alíneas d e e do º 2º do art. 152 da Constituição.

Art 10 – Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.

Art 11 – Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art 12 – O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República.

A. COSTA E SILVA
Luís Antônio da Gama e Silva
Augusto Hamann Rademaker Grünewald
Aurélio de Lyra Tavares
José de Magalhães Pinto
Antônio Delfim Netto
Mário David Andreazza
Ivo Arzua Pereira
Tarso Dutra
Jarbas G. Passarinho
Márcio de Souza e Mello
Leonel Miranda
José Costa Cavalcanti
Edmundo de Macedo Soares
Hélio Beltrão
Afonso A. Lima
Carlos F. de Simas

40 anos do AI-5 (1)

Encenação do discurso do então deputado Marcio Moreira Alves que serviu de pretexto para a decretação do AI-5. Tem depoimento do próprio e de Paulo Markun, jornalista e atual presidente da TV Cultura, de São Paulo.

“Seus problemas esquerdistas acabaram!”

Via o blogue do caro Reinaldo Azevedo, está o link para esse vídeo extraordinário:

Liberalismo e cristianismo

Via O Indivíduo, reproduzo aqui o trecho de uma reportagem sobre comentários do papa Bento XVI sobre liberalismo:

Liberalismo precisa voltar a abrir-se para Deus, adverte Papa

Em uma carta enviada a Marcello Pera por ocasião de seu último livro

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 2 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- Bento XVI escreveu uma carta ao filósofo e senador italiano Marcello Pera para agradecer a contribuição que oferece em seu último livro, dedicado a expor que o fundamento do liberalismo se encontra na relação da pessoa com Deus.

O volume, que leva por título «Por que temos que dizer-nos cristãos. O liberalismo, Europa, a ética» («Perché dobbiamo dirci crisiani. Il liberalismo, l’Europa, l’etica», Mondadori, Milão, 2008), será apresentado nesta quinta-feira em Roma.

Após confessar que foi «uma leitura fascinante», o Papa elogia a análise que faz do liberalismo «a partir de seus fundamentos, mostrando que na essência do liberalismo se encontra o enraizamento na imagem cristã de Deus: sua relação com Deus, de quem o homem é imagem e de quem recebemos o dom da liberdade».

Marcello Pera (Lucca, 28 de janeiro de 1943), presidente do Senado italiano na última legislatura, dedicou sua pesquisa acadêmica ao filósofo austríaco Karl Popper, teórico da «sociedade aberta», de quem era amigo pessoal.

«Com uma lógica irrepreensível, você mostra como o liberalismo perde sua base e se destrói se abandona este fundamento», reconhece o bispo de Roma.

O Papa também manifesta sua admiração pela análise que o filósofo faz da liberdade e da multiculturalidade, na qual «mostra a contradição interna deste conceito e, portanto, sua impossibilidade política e cultural».

«É de importância fundamental sua análise sobre o que podem ser a Europa e uma Constituição européia na qual a Europa não se transforme em uma realidade cosmopolita, mas que encontre, a partir de seu fundamento cristão-liberal, sua própria identidade», assinala.

O Santo Padre se detém também na análise do senador sobre os conceitos de diálogo inter-religioso e intercultural.

«Você explica com grande clareza que um diálogo inter-religioso, no sentido estrito da palavra, não é possível, e que é particularmente urgente o diálogo intercultural, que aprofunda nas conseqüências culturais da decisão religiosa de fundo.»

«Ainda que sobre esta última, um verdadeiro diálogo não é possível sem pôr entre parênteses a própria fé, é necessário enfrentar no debate público as consequências culturais das decisões religiosas de fundo», indica.

O Papa considera que as propostas de Pera são necessárias para superar «a crise contemporânea da ética».

«Você mostra que o liberalismo, sem deixar de ser liberalismo, mas sim, para ser fiel a si mesmo, pode referir-se a uma doutrina do bem, em particular à cristã, que lhe é familiar, oferecendo assim verdadeiramente uma contribuição para superar a crise», indica.

CONTINUA…

Atraso na atualização e texto no OrdemLivre

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Vou ver se à noite consigo atualizar o blogue com as seções fixas de segunda até hoje. Muitos compromissos impediram o curso normal da atualização. Enquanto isso, dêem uma passada no site do OrdemLivre para, quem ainda não o fez e estiver interessado, ler meu texto Liberdade, liberdade.

Washington Post (2): os EUA são pós-raciais?

Mistaken Identities

I’m Not Post-Racial

By Krissah Williams Thompson

For 18 months, I traveled the country interviewing voters. Not one of them uttered the word. It’s not a word my friends or I ever use, so I probably heard it first on cable news or read it in a newspaper. And now everybody’s throwing it around more than ever.

Post-racial.

It’s offered as a congratulatory term or more often posed as a question: Is America post-racial? What does that mean? That we’ve left race behind, or that race is a problem that has been overcome or can now be ignored?

The first time I recall seriously mulling the concept of “post-racialism” was last December. I was sitting in the auditorium of a high school in Spencer, Iowa, a small town where a videographer and I were talking to locals before the caucus. Apart from the candidate’s body man and a couple of Secret Service guys, Barack Obama and I were the only black people in the room. And the room was going wild for Obama.

As a 29-year old rookie campaign reporter, I was too much of a political novice to predict how far the Illinois senator would go, but after my experience that day, I was sure that the country had been moving steadily away from our historical racial paradigm. It shook me to think that I hadn’t noticed it in my own life. That auditorium full of rural Iowans felt post-racial. It gave me a chill. I liked it.

Still, as exciting as it was to see that all-white Obama-maniac crowd, and the multi-racial crowds that later rallied for him and celebrated his victory, the term post-racial itself has become disconcerting. It means moving beyond something — and I don’t want to move beyond everything it suggests. Post-racialism is relatively easy to understand in a standing-room-only sports arena or at a campaign rally, and it will probably be evident at Obama’s inauguration celebrations, where people of all different backgrounds will stand together and cheer. But post-racialism outside that political pageantry gets more complicated. It means the loss of so much that I cherish about who I am and where I come from. Is a colorblind America really what we are striving for? Isn’t the point to live lives that are open to differences but still celebrate our unique cultural heritages, family traditions and religions?

I asked those questions in the dozens of cities and towns I traveled to after I visited Iowa and back in the predominantly black Maryland community where I live. And I discovered that the wonder of that Iowa auditorium — like the diverse mass rallies Obama held in Austin, Portland, Denver, Chicago and other cities — was short-lived. In everyday life, the people I interviewed in beauty salons, office parks, churches, American Legion halls, suburbs and small-town squares had hardly moved beyond the boundaries of race. And I had to acknowledge that neither have I.

During the long Democratic primary campaign, some voters I talked to worried that racism would curb Obama’s hopes. In South Carolina in October 2007, I met hairdresser Margaret Bell, a 63-year-old African American and ardent Hillary Clinton supporter. She was sure that Obama would lose because of his race.

I went back to see Bell after Obama won in Iowa, and she was perplexed. The lifelong Democrat still did not believe that a black man could become president. Bell’s shop is in a mostly black Charleston neighborhood that had undergone white flight a decade ago and been left to deteriorate. Her clients are all black women, most of them in their 60s. She can spend an entire day between home and work interacting with only black people. She had no idea — and no way to know — whether white voters would support a black candidate. And everything in her immediate experience seemed to indicate that they wouldn’t.

But of course, they did, both in the South Carolina primary, where Obama won by nearly 30 percentage points with support from 24 percent of the state’s white voters, and in the general election. Bell was forced to embrace a new idea of race in America because she’d been wrong about those white voters. She shouted and cried on election night and called Obama’s win “mind-boggling,” but now she and many others I interviewed are back to their mostly racially isolated lives.

Between the South Carolina primary and the rush of states that voted Feb. 5, I planned my wedding in Houston. For me, the event was an opportunity to bring together the key people in my life, those who have had the greatest impact on me from childhood to adulthood.

All but a handful of people on my list — which included childhood friends, preschool teachers, friends of the family, sisters and brothers from church, former bosses and colleagues — were black. My husband, whose mother is Thai and whose father is African American, had a similar list. In that sunny chapel this summer, 90 of the 100 guests who witnessed our ceremony were black. I flipped through the picture books at the chapel and saw similar racial divisions for most of the couples, whether they were white, black, Asian or Latino.

CONTINUA…

Washington Post: Obama não é negro


Marie Arana, editora da seção de livros internacionais do Washington Post

He’s Not Black

By Marie Arana

He is also half white.

Unless the one-drop rule still applies, our president-elect is not black.

We call him that — he calls himself that — because we use dated language and logic. After more than 300 years and much difficult history, we hew to the old racist rule: Part-black is all black. Fifty percent equals a hundred. There’s no in-between.

That was my reaction when I read these words on the front page of this newspaper the day after the election: “Obama Makes History: U.S. Decisively Elects First Black President.”

The phrase was repeated in much the same form by one media organization after another. It’s as if we have one foot in the future and another still mired in the Old South. We are racially sophisticated enough to elect a non-white president, and we are so racially backward that we insist on calling him black. Progress has outpaced vocabulary.

To me, as to increasing numbers of mixed-race people, Barack Obama is not our first black president. He is our first biracial, bicultural president. He is more than the personification of African American achievement. He is a bridge between races, a living symbol of tolerance, a signal that strict racial categories must go.

Of course there is much to celebrate in seeing Obama’s victory as a victory for African Americans. The long, arduous battles that were fought and won in the name of civil rights redeemed our Constitution and brought a new sense of possibility to all minorities in this country. We Hispanic Americans, very likely the most mixed-race people in the world, credit our gains to the great African American pioneers of yesterday: Rosa Parks, W.E.B. Du Bois, Martin Luther King Jr.

But Obama’s ascent to the presidency is more than a triumph for blacks. It is the signal of a broad change with broad ramifications. The world has become too fused, too interdependent to ignore this emerging reality: Just as banks, earthly resources and human disease form an intricate global web, so do racial ties. No one appreciates this more, perhaps, than the American Hispanic.

Our multiracial identity was brought home to me a few months ago when I got my results from a DNA ancestry lab. I thought I was a simple hemispheric split — half South American, half North. But as it turns out, I am a descendant of all the world’s major races: Indo-European, black African, East Asian, Native American. The news came as something of a surprise. But it shouldn’t have.

Mutts are seldom divisible by two.

Like Obama, I am the child of a white Kansan mother and a foreign father who, like Obama’s, came to Cambridge, Mass., as a graduate student. My parents met during World War II, fell in love and married. Then they moved back to my father’s country, Peru, where I was born.

I always knew I was biracial — part indigenous American, part white. My mother’s ancestry was easy to trace and largely Anglo-American. But on my Peruvian side, I suspected from old family albums that some forebears might actually have been African or Asian: A great-great aunt had distinctly Negroid features. Another looked markedly Chinese. Of course, no one acknowledged it. It wasn’t until the DNA test percentages were before me that I had a clear and overwhelming sense of my own history. I wasn’t the product of only one bicultural marriage. My ancestral past was a tangle of races. When I sent back for an analysis of the Indo-European quotient, I was told that my “white side” came from the Indian subcontinent, the Middle East, the Mediterranean and Northern Europe. There had to have been hundreds of intercultural marriages in my bloodline. I am just about everything a human can be.

CONTINUA…

Quando a política vira futebol!

No site do OrdemLivre, Pedro Sette Câmara publica um texto que recomendo vivamente:

Direita e esquerda: a troca do significado pela emoção

Por Pedro Sette Câmara.

Em política, direita e esquerda são posições relativas a duas coisas: ao objeto ou critério escolhido como referência, e à posição que a pessoa escolhe assumir diante desse critério. Se você admitir um ponto de vista liberal ou libertário, no qual as funções do Estado são muito restritas, e associar esse ponto de vista à “direita”, será fácil e até rigoroso dizer que a mera existência de um Ministério da Educação e de uma política industrial são “coisas de esquerda”. É esse ponto de vista que legitima perfeitamente dizer que o governo militar brasileiro, o Terceiro Reich e os últimos presidentes americanos são de esquerda.

Claro que isso pode ser complicado pela adoção de outros critérios. Se o estatismo é “de esquerda”, e se o governo é, como disse George Washington, mera força física, essa força pode ser usada em favor de diversas idéias e propostas, o que é amplamente demonstrado pelas divergências que existem entre os estatistas. Se você acha que o governo deve promover a moral e os bons costumes, você sob esse aspecto é de direita; se acha que deve promover algo contrário a esse mesmo pacote de moral e bons costumes, é de esquerda. As duas posições tem um “esquerdismo” estatista em sua base, e não custa observar que aí é que está a raiz de muitos problemas. Se olharmos, por exemplo, para a questão do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, qual posição é mais razoável: o governo promovê-lo, combatê-lo, ou simplesmente abster-se de legislar a respeito?

CONTINUA…

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