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Garschagen em O Globo: Hong Kong ou Zimbábue?

O GLOBO, OPINIÃO

Sábado, 22 de novembro

Liberdade, liberdade

Bruno Garschagen

O OrdemLivre, braço brasileiro do think tank americano Cato Institute, lançou no dia 14 no Rio o Economic Freedom of the World Report, índice elaborado pelo Fraser Institute do Canadá e que mede o grau de liberdade econômica de instituições e práticas políticas em 141 países. No dia seguinte, o G-20 anunciou uma extensa e contraditória declaração de princípios e propostas de reformas dos mercados financeiros.

O Brasil aparece em 96° lugar do índice, posição que não inspira muita comemoração. Estamos atrás, para citar alguns exemplos, da Bolívia (88), do Paraguai (86) e da Namíbia (71), país cuja capital, Windhoek, o presidente Lula em 2003 disse ser tão limpa que nem parecia África. Em Washington, cidade limpa e norte-americana, Lula participou da reunião do G-20, cuja presidência é atualmente ocupada pelo governo brasileiro. A administração Lula foi uma das signatárias do documento que acolheu os princípios de fortalecimento da intervenção na economia (mercados financeiros) e o compromisso de retomar a liberalização do comércio global com a suspensão de barreiras protecionistas por um período de 12 meses.

Do ponto de vista prático, não haveria incompatibilidade em intervir no sistema financeiro e estimular a economia real via o comércio internacional. O problema é que o documento fala em princípios. E o princípio que vem sendo transmitido desde que Wall Street começou a arder foi: o mercado é incapaz de resolver os problemas que cria, logo, o estado é a única entidade capaz de resolvê-los.

Vários são os pontos do documento em que há propostas de aumento da regulação mediante a cooperação internacional para definição de supervisão, leis e normas interventivas comuns e o incentivo aos reguladores nacionais. O perigo? As sociedades permitirem tacitamente que seus governos, com a natural tendência para o abuso mais ou menos eficiente do poder, extrapolem suas responsabilidades.

Nenhum governo pode ou deve cuidar de todas as instâncias da vida em sociedade. Porque, em nome de uma suposta maioria existente ou imaginária, vai impondo uma reengenharia social sob o manto de reformas econômicas ou políticas que exalam enxofre. Que não nos esqueçamos: a liberdade individual permite e potencializa a liberdade econômica, que tem sido crucial para instaurar ou restaurar as liberdades individuais.

No caso do Brasil, a disposição da atual administração para inchar e aparelhar ideologicamente o estado, difundir e legitimar chavões, e intervir nos modos de vida é temerária. A sociedade brasileira já rechaçou algumas propostas indecorosas, mas o perigo ronda e pesa como o ar de Brasília.

O índice lançado pelo OrdemLivre/Cato, que deve estar nas livrarias em dezembro, identifica problemas que exigem decisões. Do lado do indivíduo, que desburocratize a forma como lida com as questões; do lado do estado, que seja menor e eficiente. É a combinação que poderá fazer com que o país se aproxime de Hong Kong (número 1 do índice) ou do Zimbábue (último colocado).

Antiamericanismo e eleições presidenciais


Obama em Berlim, em julho: para expert sueco, o desejo de criar uma identidade própria leva a Europa a procurar distância dos EUA e tentar ser melhor fazendo que o país mais poderoso do mundo pareça pior

Com McCain ou Obama no poder, antiamericanismo deve diminuir

Bruno Garschagen, para o Valor, de Lisboa

As eleições presidenciais americanas vão definir não só o próximo presidente dos Estados Unidos, mas calibrar o grau de antiamericanismo dentro e fora do país. Um dos mais argutos estudiosos do fenômeno, o sociólogo americano de origem húngara Paul Hollander, acredita que, independentemente do candidato vencedor, a simples saída de George W. Bush vai arrefecer o sentimento antiamericano. “Acho que essas duas tendências [interna e internacional] se sustentam mutuamente também com a atitude de artistas e intelectuais estridentes da esquerda americana, como o documentarista Michael Moore e o lingüista Noam Chomsky”, disse numa palestra em Lisboa o professor das Universidades de Massachusetts e Harvard e autor, dentre outros, de “Understanding Anti-Americanism: Its Origins and Impact at Home and Abroad” (2004).

Hollander não está sozinho. Outros especialistas de política e relações internacionais validam a opinião de que o antiamericanismo será aplacado com o novo presidente, seja ele republicano ou democrata. “O próximo presidente se beneficiará de um estado de graça, em especial se o candidato vencedor for o senador Barack Obama”, disse a portuguesa Raquel Vaz-Pinto, especialista em relações internacionais e docente da Universidade Católica Portuguesa. “Mesmo o senador John McCain que, ao contrário de Obama, foi a favor da invasão do Iraque, não desperta paixões e, sobretudo, ódios como o presidente Bush.”

O americano Marc Plattner, co-editor do “Journal of Democracy” e vice-presidente de pesquisa e estudos do National Endowment for Democracy (NED), concorda: o candidato democrata está em vantagem, em termos de imagem internacional, por não estar ligado a Bush. Em termos de popularidade nacional e internacional, o atual presidente americano não é exatamente um pop star. A guerra do Iraque e, mais propriamente, as razões alegadas para a invasão foram cruciais para o estrago em sua imagem. A atual crise financeira também contribuiu para o desgaste.

A saída de Bush, portanto, se constituirá num alívio grande, segundo o brasileiro Alexandre Barros, Ph.D. em ciência política pela Universidade de Chicago e decano de pós-graduação da Unieuro, de Brasília. “O presidente Bush, contrariamente ao seu antecessor, Bill Clinton, além da guerra do Iraque, tinha uma postura percebida como arrogante por muitas pessoas fora dos Estados Unidos.” Raquel Vaz-Pinto diz que, antes mesmo da questão iraquiana, o estilo direto e sem rodeios do presidente americano já tinha sido um choque para os europeus, “habituados ao charme e espírito mais colegial de Bill Clinton”.

Outros dois pontos foram fundamentais para afetar a imagem dos Estados Unidos, na visão do tcheco Tomas Karasek, Ph.D. em relações internacionais e professor da Universidade Charles, em Praga: uma certa histeria da política externa americana, ao tentar agir de forma hegemônica na sociedade internacional, e a força política que Bush representa. “Partidos conservadores de direita não são muito populares na Europa. Em circunstâncias muito especiais (Estados Unidos sob ataque e reagindo de forma resoluta), essa combinação de ser americano e conservador de direita criou uma mistura muito improvável de ser repetida pelo próximo presidente.”

Relatório produzido em 2007 pelo instituto Pew Global mostrou que a imagem dos Estados Unidos tinha piorado entre 2002 e 2007 e o antiamericanismo continuava profundo. A maior rejeição, por motivos óbvios, está concentrada nos países islâmicos do Oriente Médio e da Ásia. E até antigos aliados manifestaram uma opinião desfavorável sobre os Estados Unidos. A Turquia é o país mais antiamericano da lista: 83% dos entrevistados têm uma imagem negativa dos EUA. Na América do Sul, o Brasil aparece com 51% de opiniões desfavoráveis.

Para melhorar a imagem e recuperar o poder de influência dos Estados Unidos no mundo, o Center for Strategic & Internacional Studies (CSIS) criou em 2006 uma comissão bipartidária para definir as bases de uma estratégia política batizada de Smart Power. O relatório, produzido como uma recomendação ao próximo presidente americano, independente do partido, se baseia em cinco áreas críticas: 1) alianças, parcerias e instituições; 2) desenvolvimento global; 3) diplomacia pública; 4) integração econômica; e 5) tecnologia e informação.

Na América Latina, a obsessão antiamericana, para usar o título de um livro do filósofo francês Jean-François Revel, é uma peça de retórica muito confortável para as elites da região, segundo o professor Alexandre Barros. “Elas vivem muito bem, com todo o conforto que podem em matéria de bens privados, mas gostam de explorar o fomento do antiamericanismo junto às massas.”

Na Europa, não há apenas um, mas vários tipos de antiamericanismo, segundo Raquel Vaz-Pinto. “Talvez o mais evidente seja aquele relacionado com a idéia do projeto europeu como alternativa à liderança mundial americana.” Para o sueco Johan Norberg, autor de “In Defense of Global Capitalism” (2003), o desejo de criar uma identidade própria faz que a Europa procure se distanciar dos Estados Unidos e tente ser melhor fazendo que o país mais poderoso do mundo pareça pior.

E nisso há um certo grau de ressentimento, observa Karasek. “A situação só vai mudar quando os Estados Unidos perderem poder e posição.” Nada garante, porém, que o sentimento antiamericano não seja deslocado para outras áreas. Revel, que atribuiu o antiamericanismo europeu, especialmente dos franceses, aos insucessos, inveja e perda de status dos países do continente nas grandes questões internacionais, foi contundente num esboço de explicação: “O mistério do antiamericanismo não é a desinformação. É a vontade de estar desinformado.”

PS: Mesmo atrasado, reproduzo um artigo meu também publicado no caderno Eu&Fim de Semana, do Valor Econômico, em 31 de outubro, antes, portanto, da vitória de Barack Hussein Obama nas eleição presidencial americana.

A Rússia, a máfia e o economista


Andrei Illarionov com Putin, de quem foi assessor

No dia 14 de novembro, o caderno Eu&Fim de Semana, do jornal Valor Econômico, publicou o texto que segue abaixo (reproduzido no site do OrdemLivre) do ótimo jornalista Chico Mendez, correspondente internacional da Band News e mestrando em Relações Internacionais na Georgetown University:

A Rússia “siciliana”

Por Chico Mendez, para o Valor, de Washington

Nenhum outro país produziu tantos bilionários em tão pouco tempo como a Rússia de Vladimir Putin. Segundo a revista “Forbes”, atualmente apenas os Estados Unidos têm mais bilionários do que a Rússia. É bem provável, porém, que no próximo ano as fortunas dos magnatas do país encolham bastante. A crise econômica que se espalha pelo mundo tem sido cruel com o gigante do Leste Europeu, um dos países que, provavelmente, mais têm sofrido com a fuga de capitais. Na Bolsa de Moscou, as perdas de capitalização de mercado das empresas listadas são calculadas em 75% aproximadamente, no período entre meados do ano e o fim do mês passado. Um desastre.

No momento em que a tendência é culpar a falta de regulamentação do sistema financeiro, o que se passa na Rússia, à primeira vista, são meros desequilíbrios do mercado. Correto? “Errado, muito errado. O que vemos hoje em Moscou é o mais puro reflexo de um governo que optou por um regime político e econômico até então inédito”, afirma o economista russo Andrei Illarionov, pesquisador do Cato Institute.

Os bilionários que surgiram nos últimos anos e o derretimento do mercado russo têm uma raiz em comum: o Kremlin. A concentração de poder nas mãos do Executivo ao longo dos anos de Vladimir Putin e o cerceamento das liberdades individuais remetem Illarionov ao antigo regime comunista de partido único. As distorções causadas por esse excesso de poder explicam o que ele classifica como um governo comandado por mafiosos. “A Rússia não é uma democracia, não é um regime socialista. A Rússia é singular. O que vemos ali é o que mais se aproxima do esquema da Sicília. É o que classifico de sicilianismo”, diz Illarionov, que está no Brasil para realizar uma palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Ele chega ao país duas semanas antes da visita oficial do presidente Dmitry Medvedev.

Illarionov foi o assessor mais próximo do ex-presidente russo entre 2000 e 2005, o homem de confiança do governo na economia e o representante do país no G-8. Hoje, é um incisivo opositor do “sicilianismo” moscovita e, desde que deixou o governo, teme o risco de ser calado à força, onde quer que esteja. Illarionov encontrou refúgio no Cato Institute, famoso por pregar a bíblia libertária na política e na economia. Mudar de país foi a única alternativa que lhe restou para se manter ativo. Illarionov mudou-se com família, mulher e filhos, sem data para voltar. Ou melhor, a data ele não sabe, mas tem consciência de que só volta a morar na Rússia quando o “sicilianismo” acabar. revisões? “Sobre mim, nenhuma. Sobre a Rússia, muitas.”

Illarionov deixou o governo em 2005, depois de fazer um pronunciamento no Kremlin em que apontava os erros do governo Putin. “Imagine o que é falar mal do Putin em sua casa”, relata um amigo do economista que pede para não ser identificado. No seu discurso de despedida, Illarionov afirmou “que começou trabalhando para um governo democrático, mas agora é funcionário de uma ditadura”. “Putin deve ter ficado muito contente, não é?”, brinca o amigo.

Illarionov acha que saiu tarde demais do governo. Em 2005, quando decidiu partir, as evidências do esquema “siciliano” já estavam visíveis. “A grande mudança de rumo na Rússia se dá em 2003, quando Putin decide prender Mikhail Khodorkovsky, ex-proprietário da Yukos”, conta.

Ele se lembra bem do dia em que foi convidado para assessorar o ex-presidente. Recebeu a tarefa convicto de que Putin era o homem certo para levar adiante as transformações iniciadas com Boris Yelstin. Illarionov se recorda também do entusiasmo dos dois primeiros anos no cargo. “Putin tinha um projeto liberal sério para o país. As reformas econômicas que implantamos entre 2000 e 2002 só foram aprovadas por que tínhamos o apoio dele.”

Visivelmente frustrado quando fala de seu país atualmente, Illarionov não sabe explicar o que motivou as transformações no regime russo. Ele considera duas hipóteses e acredita que elas formam uma equação perfeita de poder, um plano pensado cuidadosamente para concentrar as decisões entre um seleto grupo de “amigos”. “Há duas versões para tudo isso. A primeira é de que Putin é um ex-membro da KGB de cabeça liberal e determinado a construir uma nova Rússia. A segunda é de que toda essa reviravolta já estava planejada desde o primeiro dia de seu governo. Acho que as duas versões estão certas. Putin se aproveitou da primeira para concentrar o poder no Kremlin e dar início, assim, à segunda fase. E tudo isso piora significativamente com o aumento do preço do petróleo. Os bilhões de dólares que entraram no país deram muita confiança ao governo e eles resolveram jogar com músculos.”

O petróleo pode ter sido a partícula aceleradora das transformações na Rússia, mas o regime é hoje dependente de um outro fator para manter o poder. “Eles só dependem do uso da força e da coerção”, diz Illarionov. “O regime russo desenvolveu uma tara por poderio militar. No dia em que todos os chefes de Estado mundo afora cumprimentaram Barack Obama por sua vitória, Dmitry Medvedev preferiu anunciar que a Rússia posicionaria mísseis na fronteira com a Polônia em resposta ao sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem instalar na região. Os russos fazem questão de mostrar o seu poderio bélico. Recentemente, anunciaram exercícios militares com a Venezuela no Caribe e violaram todos os tratados internacionais ao invadir a Geórgia.”

O avanço militar acontece simultaneamente a uma intensa propaganda governista, que tem como centro a pessoa de Putin e visa despertar sentimentos nacionalistas. A personificação do governo na figura do atual primeiro-ministro conta com a ajuda dos grupos jovens conhecidos como “nashi”, que cultuam a imagem de Putin e fazem lembrar o Konsomol, a organização da juventude comunista.

A soma de nacionalismo, corrupção, privilégios, avanço militar, medo, coerção e mortes explica por que o mercado russo sofreu perdas maiores do que os de países emergentes. “A natureza da crise na Rússia não é econômica, mas política. Há uma completa deterioração de políticas de governo que garantiriam o retorno do investimento estrangeiro. Com essas mensagens, não resta alternativa ao investidor a não ser deixar o país”, afirma Illarionov.

O mais recente episódio que demonstra a falta de compromisso das autoridades russas ocorreu justamente com a maior joint-venture já feita no país, envolvendo a BP (British Petroleum) e a empresa russa TNK. Descontentes com os sócios britânicos, os oligarcas russos tentam de todas as formas tomar o controle da empresa. Como o muro que separa o público do privado não existe na Rússia, os sinais de que os britânicos estavam incomodando começaram a ser emitidos por autoridades governamentais. No começo do ano, o serviço de imigração negou o pedido de renovação do visto do CEO da parceria, o britânico Robert Dudley. “Esse foi um negócio fechado na presença de Tony Blair e Vladmir Putin, mas ainda assim não há nenhuma garantia de segurança jurídica. O Kremlin diz que prefere ficar neutro na disputa, mas é evidente que autoridades russas estão por trás disso.”

Illarionov não se sente à vontade para falar de seu relacionamento com Putin. Diz apenas que cultivaram boas relações entre 2000 e 2001, mas hoje não mantêm nenhum contato. Mas, se pudesse enviar uma mensagem para Putin, o que Illarionov escreveria? “Já mandei recados diariamente durante seis anos. Agora preciso de descanso.” Admite que não será fácil. Pode ser vítima de algum “acidente”, em represália por criticar o governo. “Isso faz parte da vida em Moscou. Qualquer um pode ser atingido.”
Ele recebeu neste ano o que pode ter sido um primeiro sinal de desagrado do governo russo com suas atitudes de rebeldia: a validade de seu passaporte foi reduzida de cinco para dois anos. “Isso tudo é muito triste. O país não tem imprensa livre nem partido independente, as instituições não existem e não há quem garanta a aplicação das leis. Na Rússia, hoje, não prevalecem os valores pessoais, mas sim os do governo.”

Na semana passada, participei de uma conferência com uma autoridade portuguesa na área das relações internacionais (não posso revelar o nome nem o cargo). Depois de escutar pouco mais de 30 minutos de um discurso completamente pró-Rússia, no qual se destacou uma defesa mais ou menos velada do ex-presidente Putin, iniciei a série de perguntas da platéia contrapondo o que a autoridade havia dito sobre o sistema político do país (“a Rússia caminha para um tipo próprio de democracia”) e sobre a área militar (“o governo vem fazendo reformas profundas com a redução do contingente militar”) com duas opiniões de Illarionov extraídas do texto do jornalista brasileiro:

1) “A Rússia não é uma democracia, não é um regime socialista. A Rússia é singular. O que vemos ali é o que mais se aproxima do esquema da Sicília. É o que classifico de sicilianismo”;

2) “O regime russo desenvolveu uma tara por poderio militar. No dia em que todos os chefes de Estado mundo afora cumprimentaram Barack Obama por sua vitória, Dmitry Medvedev preferiu anunciar que a Rússia posicionaria mísseis na fronteira com a Polônia em resposta ao sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem instalar na região. Os russos fazem questão de mostrar o seu poderio bélico. Recentemente, anunciaram exercícios militares com a Venezuela no Caribe e violaram todos os tratados internacionais ao invadir a Geórgia.”

É claro que inaugurar uma sessão de perguntas com uma questão como essa causa um certo desconforto. Antes de começar a responder, a autoridade concedeu-me um sorriso constrangido e fez uma tentativa de desqualificar as opiniões do economista russo com a informação de que Illarionov sempre foi conhecido no governo como um enfant terrible. “Os membros do governo não entendiam como o presidente Putin mantinha Illarionov como assessor”, disse a autoridade, revelando a faceta democrática dos demais assessores e, de certa forma, dele próprio. Por que dele? “Illarionov é um excelente economista e um péssimo político”. Em nenhum momento a autoridade disse que Illarionov havia mentido, embora tenha insistido na avaliação própria de que, apesar do problema das máfias desde o fim da União Soviética, não se pode qualificar o governo como tal.

Na área militar, negou a “tara” denunciada pelo economista.

Um ponto em particular me chamou a atenção. A autoridade disse que se a Rússia se convertesse numa democracia ocidental o Ocidente correria um risco muito maior. Porque, segundo ela, o país teria uma disposição imperialista mais intensa e perigosa do que demonstra hoje.

A única parte da conferência dessa autoridade portuguesa com a qual estive de acordo foi a necessidade de conversar permanentemente com a Rússia e com isso evitar problema advindos pela ausência de diálogo. De resto, lamentável.

Casa em ordem, minissérie de posts sobre a Turquia e Garschagen no vídeo

Caros, ainda não consegui dar conta dos compromissos ao retornar da viagem que fiz a Istambul na semana passada. Espero até quinta-feira colocar a casa em ordem. E a idéia é iniciar uma minissérie de posts sobre a Turquia. Fiquei muito bem impressionado com o que vi e com o que ouvi.

Enquanto isso, se quiserem, podem ver uma parte da minha participação como comentarista do site IOL Portugal Diário na noite da eleição presidencial americana: Eleições EUA: leia a opinião do painel de bloggers.

Paulo Francis fala sobre o “Afeto que se encerra”

É sempre divertido ouvir Paulo Francis falando. Mas reparem em algumas opiniões:

1) Disse que não faria a menor diferença se o vencedor das eleições fosse Ronald Reagan, do Partido Republicano, ou Jimmy Carter, do Partido Democrata;

Nota: essa análise política foi de um primarismo monumental.

2) Disse que tudo indicava que Carter, presidente do país entre 1977 e 1981, perderia a eleição para Reagan;

Nota: A derrota se confirmou. Reagan venceu, assumiu o governo em 1981, foi reeleito, e deixou a presidência em 1989. Só não sei se foi uma opinião do Francis de acordo com a leitura que fez das informações disponíveis ou se repetiu a análise de seus colunistas preferidos dos grandes jornais americanos.

3) Afirmou que Reagan, a quem acusou de preguiçoso, seria um sub-Eisenhower.

Nota: Dwight D. Eisenhower foi o 34o. presidente dos Estados Unidos. Republicano, governou o país de 1953 a 1961. Reagan entrou para a história como um dos maiores políticos da história americana e foi um dos maiores responsáveis pelo Fim da Guerra Fria com a derrubada do muro de Berlim e a queda da União Soviética.

Apesar disso, voltem e revejam o vídeo. Olhem a roupa, o óculos e o cabelo. Reparem no que ele diz sobre o embaixador de Cuba. Divirtam-se, até mesmo com os equívocos monumentais.

PS: Ainda na Turquia. Dia atarefado, reuniões, corridas de lá para cá etc. Conheci a sede do jornal Zaman, o mais antigo do país. Depois, almoço com o diretor da maior emissora privada de TV. À noite, jantar com o presidente e o vice-presidente de uma das Câmaras de Istambul, o equivalente, no Brasil, a uma prefeitura. Estou tomando notas das conversas e das impressões. Ao longo da próxima semana vou colocando aqui em forma de posts. Até!

Reinaldo Azevedo no Jô Soares

“Obama representa uma parte do povo americano que o elegeu e uma parte do mundo que o apoiou”

Diogo Costa do OrdemLivre/Cato: “Não se cria prosperidade por estatuto, mas se criam dívidas e bolhas econômicas”

Diretamente de Washington, Diogo Costa, do OrdemLivre/Cato Institute, acaba de responder a uma pergunta que fiz por e-mail:

Diogo, qual será o maior desafio emergencial do presidente eleito na esfera internacional e na esfera doméstica?
Diogo Costa – O grande desafio da campanha de Obama foi demonstrar sua liderança. Seu maior desafio agora é demonstrar sua humildade.

Domesticamente, Obama precisa ter a humildade para entender que a economia é uma rede de interações complexa demais para ser manejada por artimanhas políticas. Não se cria prosperidade por estatuto, mas se criam dívidas e bolhas econômicas.

Externamente, seu desafio é ter humildade para não se tornar um obstáculo para o comércio internacional, e aprender que os acontecimentos mundiais não estão sob seu controle, que ele não tem o poder de exportar a democracia nem de consertar o mundo pelo poder militar.

O desafio de Obama é ter a consciência de que o presidente americano não é o comandante da nação americana, mas o servo da constituição do seu país.

PS: São 5h24 aqui em Lisboa. Aqui me despeço da cobertura das eleições americanas 2008. Espero que tenham gostado.

Aos olhos externos, os EUA deixam de ser Bush para ser Obama

Na FoxNews:

Obama Wins White House, Becomes First Black President

Barack Obama will become the first black president of the United States, with a sweeping Election Day victory.

FOXNews.com
Tuesday, November 04, 2008

Supporters react as they hear results from television that President-elect Barack Obama has been elected President of the United States at Grant Park in Chicago, Tuesday night. (AP Photo)

The 47-year-old Democratic junior senator from Illinois swept to victory over his Republican opponent, Arizona Sen. McCain, building an Electoral College majority of at least 297 votes.

McCain, speaking in Phoenix, Ariz., said he has called Obama to concede. He urged his supporters to move beyond their “disappointment,” and said Obama was worthy of respect.

“Whatever our differences, we are all Americans,” he said, with running mate Sarah Palin standing by his side. “Though we fell short, the failure is mine, not yours.”

President Bush also called Obama to congratulate him.

The Illinois senator climbed over the top at 11 p.m. ET Tuesday with wins in California, Oregon, Washington and Hawaii. It takes 270 electoral votes to win.

Supporters cheered and applauded in Chicago’s Grant Park, where Obama is holding his election night celebration, once it was clear the Illinois senator had clinched the presidency.

Thousands had gathered in Chicago, eagerly watching the returns build in their candidate’s favor. Obama delivered a crushing defeat earlier in the night by clinching Ohio, Pennsylvania and Virginia, states that were key to McCain’s presidential electoral strategy.

And the Democratic nominee took a commanding lead over his Republican rival with a slew of victories in reliable East Coast and Midwestern territory.

Obama has so far won New York, Massachusetts, New Hampshire, Maryland, Rhode Island, Connecticut, New Jersey, Delaware, Vermont and the District of Columbia. He also won all four electoral votes in Maine and scored a victory in his home state of Illinois, as well as in Iowa, Wisconsin, Minnesota, Michigan and the southwestern state of New Mexico.

McCain has won Texas and Georgia, as well as Idaho, Arizona, South Dakota, South Carolina, Mississippi, Utah, Louisiana, Arkansas, North Dakota, Kansas, Wyoming, Alabama, Oklahoma, Tennessee, West Virginia and Kentucky. He won three of Nebraska’s five electoral votes.

The Democratic nominee has so far amassed 297 electoral votes to McCain’s 155.

Pennsylvania, with its 21 electoral votes, was one of the few states that voted Democratic in the 2004 presidential election that McCain was actively pursuing. Another was New Hampshire, which Obama also won Tuesday. McCain aides initially objected to the Pennsylvania call, complaining that it was too early to project.

But McCain’s narrow path to victory was made air tight after he lost Ohio and its 20 electoral votes, and Virginia’s 13.

He would have had to score an upset in a major Democratic state to recover, as well as win Florida and a number of other states President Bush won four years ago that Obama is contesting.

With his victory, Obama, the Hawaiian-born son of a black man from Kenya and a white woman from Kansas, is poised to turn the page on Republican policies of the last eight years, as well as some racial barriers that have stood for generations.

Races in Missouri and Indiana are still too close to call, as is the race in North Carolina.

Only Alaska voters continued to cast their ballots after a frenzied day of campaigning that brought the historic and sprawling presidential race to a close.

Both candidates took their campaigns well into Election Day, as each battled for votes at the 11th hour.

McCain, who all along faced an uphill road to attaining the 270 electoral votes needed to win, first flew into Colorado for his final rally. Then he visited dozens of volunteers at a New Mexico phone bank, before finally heading home to Phoenix to watch returns.

Obama, in an election day tradition that perhaps demonstrated his confidence, played basketball Tuesday afternoon in Chicago with friends and staff.

Both candidates and their running mates joined enthusiastic voters Tuesday morning in casting their ballots. An estimated 153 million voters were eligible, and in an indication of interest in the battle for the White House, 40 million of them had already voted as Election Day dawned.

The Associated Press contributed to this report.

A eleição do candidato do Partido Democrata, para além de todo o resto, me preocupa pela celebração intensa e agressiva do personagem. Mais uma vez, os Estados Unidos deixam de ser o país formado por indivíduos e por toda uma rica complexidade cultural para ter no sorriso largo do eleito a representação do Governo.

A nação terá a favor e contra si as ações de um homem que dá rosto ao estado. Não será o país do jazz, do bourbon, de Cole Porter, de Gershwin, de William Faulkner, de Jackson Pollock, mas o país da administração política de turno. Aos olhos externos, o país deixa de ser Bush para ser Obama, para o bem e para o mal.

Mudança? Esperança? Não creio.

A força obtida pelos blogues

Um dos aspectos importantes a se tratar com a devida calma e enquadramento é a força obtida pelos blogues, dentro e fora dos Estados Unidos, a partir do trabalho feito e provocado pelas eleições americanas.

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