Arquivo para a categoria 'Portugal'

Entrevista de JPCoutinho a Martim Vasques da Cunha no IICS

Dia corrido. Saio agora para aulas do mestrado. Enquanto isso, fiquem com a bela conversa do Martim Vasques da Cunha, do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), com João Pereira Coutinho, que fez palestra e ministrou um curso sobre política no IICS (vídeo extraído do site da Dicta):

Lisboa 9 graus

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Foto de um entardecer em Lisboa tirada com meu aparelho celular Motorola K-1

Lisboa, finalmente, volta a ser uma cidade civilizada. Cheguei há pouco da universidade, por volta das 22h00. O termômetro na rua indicava 9 graus. O vento dava uma sensação térmica uns dois graus abaixo. Já em casa, o site mostrava temperatura de 7 graus. E frio com dias ensolarados de céu azul, com alguns poucos nublados para agradar esta alma cinzenta.

Depois de quase quatro meses de um calor marroquino (infernal), período no qual eu acordava todos os dias com vontade de morrer, voltei à vida. Meus dias são mais alegres e a produtividade intelectual está em alta, graças ao bom Deus que ouviu minhas preces e mandou o frio.

Fernando Pessoa em livro e tema de congresso internacional

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Clique para ampliar

Começa amanhã em Lisboa o Congresso Internacional Fernando Pessoa com uma série de boas palestras sobre a obra de um dos maiores escritores de língua portuguesa. O programa pode ser lido no site da Casa Fernando Pessoa.

Destaco a conferência da tradutora, professora e especialista na obra do poeta português, Mariana Gray de Castro, que vai falar sobre a relação entre Pessoa e Shakespeare, tema de sua investigação de PhD no King’s College. Ela já havia feito um ótimo trabalho ao relacionar Pessoa com Oscar Wilde na tese de mestrado defendida na Universidade de Oxford.

Também destaco a conferência do tradutor americano Richard Zenith com o tema “António Vieira, imperador do Portugal pessoano”. Zenith é um dos mais importantes tradutores para o inglês de poesia escrita em português. Traduziu, entre outros, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa.

Eleições americanas, Obama nas alturas e a vitória antecipada dos Estados Unidos

Daqui a pouco sigo para a redação do site IOL Portugal Diário para, juntos com outros bloggers portugueses, cobrir o resultado das eleições americanas. Vou, junto com o camarada André Abrantes Amaral, representando o blogue coletivo português O Insurgente. Também estarão lá, em nome do blogue Atlântico, Miguel Morgado e Fernando C. Gabriel.

Parece não haver dúvidas sobre a vitória de Obama. Uma euforia de torcedor de time de futebol. Quando se aplica à disputa política o mesmo tipo de paixão pelo esporte a estupidez senta ao lado da temeridade. Os torcedores de Obama tratam-no por salvador da humanidade. Obama soube capitalizar sobre os instintos mais primitivos que despertou. No fim de semana passado, numa entrevista para a rádio, o homem não se fez de rogado: garantiu que mudaria não só os Estados Unidos, mas o mundo. Depois dessa informação fiquei muito mais tranqüilo e enviei e-mail ao comitê de campanha pedindo uma atenção especial ao Brasil.

Um dos aspectos mais relevantes das eleições presidenciais americanas 2008 foi mostrar o poder político e cultural que os Estados Unidos ainda detém a despeito das zilhões de opiniões mostrando que o império havia ruído e perdera toda a influência na esfera internacional. Independente do candidato vencedor, o país já ganhou.

PS: Falo sobre a Turquia amanhã, se sobreviver à maratona de hoje.

Garschagen nas eleições americanas 2008

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Caros, esta semana o blogue não terá as seções fixas por duas razões: na quinta viajo para a Turquia e amanhã vou trabalhar madrugada adentro no site IOL Portugal Diário por conta das eleições americanas. Sobre a Turquia, falo amanhã. Hoje apenas reproduzo o texto que explica como será a cobertura do site:

Especial eleições nos EUA: siga tudo aqui

Conheça a emissão especial que temos reservada para acompanhar o dia «D» na América

O PortugalDiário lançou um site especial para acompanhar a recta final das eleições norte-americanas.
A partir das 22h inicia-se uma cobertura intensiva, com bloggers convidados* – especialistas em política internacional e nas eleições norte-americanas -, que nos acompanharão durante a maratona eleitoral, teremos comentários em directo. As filmagens irão centra-se no nosso painel de convidados, mas também no trabalho da redacção durante as horas que irão mudar o rumo da América.

Às 23h fecham as primeiras urnas, em Kentucky e Indiana, o que poderá dar sinais importantes para o resto da noite. Isto porque Obama e McCain travam uma disputa muito apertada neste último Estado, que desde 1964 dá a vitória a todos os candidatos republicanos. Na última eleição presidencial, o primeiro sinal da derrota para o democrata John Kerry e da reeleição do republicano Bush foi justamente a surpreendente margem de 20 pontos percentuais em favor do republicano em Indiana.

Às 24h surge nova ronda de resultados, quando terminar a votação na Geórgia, em parte da Flórida e na Virgínia, sendo que neste último Estado os democratas não vencem uma eleição presidencial desde 1964. Trinta minutos depois é a vez de surgirem as primeiras projecções depois de fecharem as urnas no Ohio, Carolina do Norte e West Virgínia.

Já de madrugada, à uma da manha, todas as urnas estarão fechadas na Florida, assim como na Pensilvânia, Connecticut, Illinois e as primeiras do Texas. Depois, vão surgindo mais resultados, até à Califórnia, que fechará as urnas às quatro da manhã. Será uma longa madrugada até que se conheça o vencedor nas eleições.

No site especial pode encontrar notícias, os perfis dos candidatos, as curiosidades da campanha, as melhores imagens, um fórum sobre as eleições, blogues, vídeos, um espaço «em directo», que estará a funcionar na noite eleitoral de 4 de Novembro, terça-feira e que poderá ainda trocar comentários com a redacção e seguir todas as informações mais recentes no twitter do PortugalDiário.

Porque o online não pára, teremos uma emissão contínua e a actualização de informação ao minuto durante toda a noite e madrugada. Na manhã de quarta-feira, continuaremos a acompanhar os resultados eleitorais, que irão sendo conhecidos durante o dia – uma informação também visível na infografia que temos disponível -, e ouvir o que têm os portugueses a dizer da eleição mais mediática do mundo.

Seja Obama, seja McCain a entrar na Sala Oval da Casa Branca, queremos saber o que têm os portugueses a dizer sobre o novo presidente dos Estados Unidos da América.

Com a garantia de qualidade do PortugalDiário, prometemos que aqui nada escapa: saberá tudo sobre as tão disputadas e renhidas eleições, ao minuto.

* Conheça o nosso painel de convidados e visite os seus blogues

Paulo Querido
Site de Paulo Querido

Nuno Gouveia
Política 2008

Miguel Morgado e Fernando C. Gabriel
Blog do Atlântico

Bruno Garschagen e André Abrantes Amaral
O Insurgente

Luís Rainha e Nuno Ramos de Almeida
5 Dias

João Jesus Caetano e Hugo Mendes
O País Relativo

Quem quiser pode acompanhar pelo site o trabalho madrugada adentro. Os que quiserem ajudar com alguma sugestão ou comentários podem enviá-los para eleicoes.eua.2008@gmail.com. Serão bem vindos.

As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott (II)

Acrescentei no post As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott o que havia de interessante no texto que eu havia escrito aqui mesmo de forma ligeira pela manhã antes de eu sair para dois eventos na Universidade Católica: um brown-bag lunch com Marc Platnner e uma conferência sobre o teólogo Hans Urs Balthasar.

Acabei perdendo o primeiro dia da conferência sobre Hans Urs Balthasar porque decidi ver o seminário do Plattner à noite, no mesmo horário. Enfim, amanhã terei os dois eventos em horários diferentes. Dependendo da hora em que eu chegar em casa escrevo algo aqui.

As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott

Hoje começou o curso A literatura da política que João Pereira Coutinho ministra nos dias 23, 24, 28, 29, 30 e 31 no Instituto Internacional de Ciências Sociais, cujo trabalho eu louvo, saúdo e divulgo entusiasticamente.

Enquanto escrevo este post a primeira aula está para além da metade. São 23h50 em Lisboa, 20h50 em São Paulo. A ementa do curso é a seguinte:

A LITERATURA DA POLÍTICA

Porque a política é também uma arte

Partindo do pensamento de Michael Oakeshott, o curso irá explorar a dimensão teórica e literária da política da fé e da política do ceticismo, tal como apresentadas na obra The Politics of Faith and the Politics of Scepticism. Iremos argumentar que os pólos em que se articulam a prática e o discurso políticos da época moderna, longe de se constituirem como um património da Teoria Política, permitem uma abertura à tradição literária e artística do Ocidente, que a enriquece e a clarifica.

Assim, as sessões serão articuladas da seguinte forma:

1. Apresentação da política da fé e da política do ceticismo em Michael Oakeshott.

2. Francis Bacon e Michel de Montaigne como paradigmas da política da fé e da política do ceticismo.

3. Edmund Burke e William Shakespeare: a importância das “compungidas visitas da Natureza”

4. Monistas e pluralistas: Isaiah Berlin e a apologia de Ivan Turgeniev

5. O ópio dos intelectuais: Raymond Aron e Jean-Paul Sartre

6. Bernard Williams, Paul Gauguin e Joseph Conrad: uma reflexão sobre a contingência

Gostaria de ter a sorte dos paulistanos para participar do curso. Embora esses assuntos sejam temas de conversas freqüentes é sempre educativo ouvir o João discorrer sobre esses temas, ele que na Universidade Católica dá aulas sobre Edmund Burke na cadeira de Tradição dos Grandes Livros para a graduação (aqui chama-se licenciatura) de Ciência Política (não é impressionante um curso ter uma disciplina que trata de obras de referência da cultura mundial?).

O tema principal que perpassa os autores escolhidos é a teoria de Oakeshott sobre política da fé e política do ceticismo. O que são?

A política de fé é baseada na idéia da perfeição humana. E a certeza de que o ser humano pode ser aperfeiçoado faz com que o indivíduo ou grupo que detenha o poder cometa toda sorte de atrocidades para moldar a sociedade de acordo com esse projeto de perfeição. Há alguns elementos que caracterizam a política de fé:

a) a crença de que para cada problema político há somente uma solução, que é a melhor;

b) o desenvolvimento de uma política de perfeição, não importa o método ou instrumentos necessários para sua implantação;

c) o estabelecimento de uma política de uniformidade, que em nome da igualdade aniquila o indivíduo e os avanços decorrentes do estímulo ao mérito, além de se converter numa fonte perversa de desigualdade;

d) se é preciso impor uma política de perfeição, conseqüentemente (mantenho o trema, apesar de sua degola pelo Acordo Ortográfico), sua irmã gêmea é a política da intolerância. A tolerância inviabiliza o projeto de reengenharia social;

e) o resultado final da política de fé é uma política de centralização absoluta do poder e da ação. Só assim o projeto pode se afirmar, se desenvolver e ser preservado.

A política de ceticismo também pode ser chamada de política de imperfeição. Esta não é uma política que se contrapõe à política de fé, embora sejam adversárias; antes é um princípio humano de que a política de fé é uma aberração.

O fato de a política de ceticismo ser cética em relação à idéia da perfeição humana, e por isso não ter qualquer projeto de remodelagem do indivíduo, faz com que não pretenda abolir a política de fé. Porque a defesa da extinção da patologia racionalista implica necessariamente na assunção do projeto de perfeição pela eliminação das idéias contrárias. Para citar um exemplo ilustrador: um revolucionário (comunista ou fascista) põe fim ao debate com uma bala na nuca do interlocutor; um liberal ou conservador aceita o contraditório e acha que a contraposição de idéias favorece os diferentes modos de vida numa sociedade.

A política de ceticismo tem como elementos substantivos:

a) a crença de que para cada problema político há uma solução que é a melhor sob determinadas circunstâncias. Portanto, não há uma única e perfeita decisão. Há, sim, decisões concorrentes que são aplicadas de acordo com a necessidade, conveniência e oportunidade;

b) a política de ceticismo é uma política de imperfeição porque rejeita a idéia de perfeição humana e, obviamente, todos os desdobramentos nefastos desse projeto;

c) desfrutar as conquistas do desenvolvimento humano e social estimulando e protegendo os diferentes modos de vida;

d) como decorrência do item anterior, há uma forte ligação com o presente porque não há a pretensão de se construir um futuro perfeito. Mas essa ligação com o presente não significa rejeitar (ou renegar) o passado e desconsiderar o futuro.

Há muitos teóricos que analisam a política de fé e a política de ceticismo como pólos desligados que se opõem. A leitura que faço de Oakeshott nesse aspecto é: a política de ceticismo é o grande círculo onde está contido a política de fé. É como revolucionários que vivem numa democracia e querem destruí-la seguindo uma política racionalista (de fé). Quanto à necessidade, ou condição, de haver equilíbrio entre as duas posições, vejo na política de ceticismo todos os elementos de tensão que permitem sua preservação e desenvolvimento ativos sem que seja preciso uma política de fé para desequilibrá-la.

Discordo do entendimento de ver a política de fé como um pólo de equilíbrio, como se a política de ceticismo não contivesse em seu cerne vários pontos de equilíbrio, tensão, oposição etc.

Acho que é possível desenvolver mais esse tema. Mas fica para um próximo post.

Imperdível! Imperdível! João Pereira Coutinho palestra em SP


Edmund Burke

Todas as pessoas de bem têm um compromisso inadiável hoje no Instituto Internacional de Ciências Sociais:

O ESPÍRITO CONSERVADOR
Prof. João Pereira Coutinho
Quarta-feira, dia 22 de outubro de 2008

DESCRIÇÃO

O objetivo da conferência será questionar se o conservadorismo de expressão anglo-saxónica, tal como inicialmente expresso por Edmund Burke em Reflections on the Revolution in France (1790), pode ser entendido como uma “ideologia”. A questão adquire renovada importância porque não são apenas os críticos do conservadorismo que denunciam a ausência de um ideal substantivo (por oposição ao liberalismo ou ao socialismo); os próprios conservadores parecem igualmente avessos a uma defesa sistemática do conservadorismo, optando antes por apresentá-lo como uma “ideologia anti-ideológica” (Quinton), uma “disposição” (Oakeshott), um “espírito” (Buchan), um “instinto” (W. Elliot) ou uma “fé” (Baldwin).

Dessa maneira, abordaremos enfim um assunto polêmico e que até agora ninguém encontrou uma resposta adequada: existe ou não uma atitude que vai contra a tendência totalitária dos nossos dias?

ENTRADA FRANCA

CARGA HORÁRIA

A carga horária é de 2 horas e meia

Não é apenas escrevendo que João Pereira Coutinho é espirituoso e intelectualmente estimulante. Aqui em Portugal já estive em várias palestras que ele proferiu. É tão bom falando quanto produzindo as colunas para a Folha e para o Expresso, de Lisboa.

João vai tratar de um tema que lhe é caro e foi assunto de muitas conversas que tivemos: o espírito conservador. Tanto Burke, ponto de partida da palestra, como os demais autores que escreveram sobre o tema (Lord Cecil e Oakeshott), o espírito conservador é, justamente, um espírito, ou, na adequada definição de Oakeshott, uma disposição. Leiam, se puderem, o ensaio On being conservative (está em inglês e não achei na web qualquer tradução para o português. Em espanhol, achei esse resumo interessante da idéia).

Sem ser uma ideologia não há, então, no conservadorismo, um conteúdo programático, como existe, por exemplo, no liberalismo. É claro que partidos de cariz conservador se apropriaram de determinadas idéias para enfeixá-las em princípios ideológicos, mas trata-se aqui de uma apropriação de conetúdo e não da análise substantiva da disposição.

Entende-se de forma equivocada que o conservadorismo é contrário às mudanças e serviria como um freio às inovações e às mudanças. Ser conservador é desconfiar das mudanças; é ser sabiamente cético contra às tentativas vorazes de alterações permanentes, que servem como estratégicas desequilibradoras de todas as conquistas positivas do indivíduo na preservação e respeito aos diferentes modos de vida. Sempre lembro a frase de Jorge Luís Borges, que se assumia um conservador no sentido de que queria preservar as coisas boas e descartar as ruins.

Há muito a se falar sobre esse assunto que me estimula. Mas este post é apenas um aperitivo para o prato principal, que é a palestra do João.

Para finalizar, deixo dicas de livros sobre conservadorismo, caso alguém se interesse em avançar na leitura:

1- Conservatism, de LORD HUGH CECIL;

2- Reflections on the revolution in France, de EDMUND BURKE;

3- The Meaning of Conservatism, de ROGER SCRUTON;

4- The Conservative Mind: From Burke to Eliot, de RUSSELL KIRK;

5- A case for conservatism, de JOHN KEKES;

6- The Conservative Case, de QUINTIN HOGG.

7- Rationalism in politics and Other Essays, de MICHAEL OAKESHOTT;

8- Conservatism: an anthology of social and political thought from David Hume to the present, de JERRY Z. MULLER;

9- The Counter-Revolution, de THOMAS MOLNAR;

10- Who was the most right-wing man in history?, de PAUL JOHNSON (artigo para a The Spectator)

11- Por que não sou liberal, de OLAVO DE CARVALHO (artigo para o JB)

Há muitos outros livros sobre o assunto. Esses foram alguns dos que li e recomendo de forma entusiástica. Anotem as sugestões do João e depois me contem, se quiserem, para ampliarmos a lista.

PS: Amanhã falo sobre os temas do curso que o João vai ministrar entre os dias 23 e 31.

João Pereira Coutinho fala sobre brasileiros e portugueses

Caros, não resisto a reproduzir e dividir com vocês esse mordaz e divertido artigo do João Pereira Coutinho sobre portugueses e brasileiros publicado hoje na Folha de S. Paulo. Sim, estou ali no texto, mas diagonal e rapidamente, sem tempo de estragar a leitura. Leiam, leiam:

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Meu Brasil português

Estou a escrever novela sobre os brasileiros em solo luso; intitula-se “Felipão é nosso irmão”

MINHA VONTADE ERA MATAR Miguel Falabella. Não, não houve plágio. Apenas uma coincidência cósmica que me arruinou um projeto televisivo. Leio na imprensa portuguesa que Falabella escreveu telenovela para a Globo onde existe família de portugas. “Negócio da China”, eis o título, e na novela existe Belarmino, português com bigode, dono de uma padaria, casado com Carminda, que grita o dia todo. A completar o quadro, existem os filhos Celeste e Tozé e ainda uma aldeã vinda do interior de Portugal, que veste preto da cabeça aos pés (e usa bigode).

Desconheço se Falabella, como gênio criativo que é, não incluiu outros clichês divertidos sobre os meus compatriotas.
Pessoalmente, sugiro a Falabella uma empregada doméstica, a alentejana Maria das Dores, uma fadista nas horas vagas que gosta de imitar Amália Rodrigues durante a faxina.

Gastronomicamente, o prato da família seria bacalhau: salada de bacalhau, purê de bacalhau e ainda sorvete de bacalhau. E um dos filhos do casal lusitano (por exemplo, Celeste) começa a preocupar a família no dia em que revela que Nossa Senhora de Fátima costuma aparecer-lhe aos pés da cama, pedindo-lhe que conserve a virgindade até o dia do casamento. Pormenor importante: mesmo Nossa Senhora de Fátima usa bigode, mas um bigode dourado, celestial, que irradia conforto e luz.
Tozé, o rapaz, tem um único sonho: estudar direito em Coimbra e ser “doutor”, como seu herói Salazar.

Dizia que minha vontade era matar Miguel Falabella. A razão é simples e urgente: inspirado pelas observações hilárias e autoflagelantes do meu amigo Bruno Garschagen, um jornalista brasileiro que vive em Lisboa, também eu estou a escrever novela sobre os brasileiros em solo luso. Intitula-se “Felipão é nosso irmão” e pretende ser um retrato fiel dos brazucas, seus hábitos e suas vivências, em Portugal. A história tem como figuras centrais Ladislau e Rosicleide, jovem casal que cruzou o Atlântico em busca de vida melhor. Mas é um erro pensar que Ladislau e Rosicleide deixaram o Brasil para trás em busca de novas experiências ou conhecimentos; na verdade, eles arrastaram o Brasil com eles e, mesmo em Lisboa, o casal acredita genuinamente que continua a viver nos subúrbios do Rio.

Ladislau gosta de vestir verde e amarelo todo o dia, como se fosse uma bandeira humana em perpétua declaração de amor ao Brasil. A excentricidade fez com que os vizinhos portugueses o batizassem com o apelido de “Bandeirinha”; outros, de “Carmen Miranda”. Mas Ladislau não se importa e, todos os sábados, quando não trabalha na construção civil, ele acende uma vela por Nossa Senhora do Caravaggio, outra por Luiz Felipe Scolari e depois decide acordar o bairro inteiro com os grandes temas da música sertaneja.

Quando a polícia aparece em cena, pedindo respeito pelos vizinhos, Ladislau insulta a intolerância dos portugueses e a forma como Portugal trata os “irmãos” brasileiros. “É só preconceito!”, grita Ladislau, que considera seu direito bombardear seus vizinhos com potência sonora digna de Chernobyl.

A fúria de Ladislau só é aplacada quando Rosicleide prepara dez quilos de feijão para o almoço: salada de feijão, purê de feijão e ainda sorvete de feijão. Ladislau come tudo e, no final, levanta-se, coloca a mão sobre o peito e canta: “Deitado eternamente em berço esplêndido/ Ao som do mar e à luz do céu profundo…”. Adormece de seguida, roncando a tarde inteira. Os anos passam. Ladislau e Rosicleide vão perdendo as ilusões. Portugal é país caro; o regresso ao Brasil é uma impossibilidade econômica; e com o nascimento de duas crianças (Zézé e Ayrton, ambos de pais diferentes), Ladislau tem idéia luminosa: importar a família brasileira para Portugal. Dito e feito. A novela termina com os familiares de Ladislau e Rosicleide dormindo nas gavetas da sala e Ladislau, de calção e chinelo, fazendo churrasco na rua ao som de pagode. Os vizinhos portugueses já não protestam; fugiram do bairro nos últimos anos.

E agora? Como defender a originalidade do meu projeto? Eu só vejo uma solução: cruzar a minha história com a história de Falabella. Por cada cena de portugueses no Rio, eu daria a imagem inspiradora dos brasileiros em Lisboa. E, quem sabe, talvez fosse possível casar a Celeste de Falabella com o meu Ayrton, desde que Ayrton não abusasse no feijão.

Miguel Esteves Cardoso em conversa para se lamber os dedos

Miguel Esteves Cardoso concede entrevista para a rádio portuguesa TSF. A propósito do seu mais novo livro, Em Portugal não se come mal, fala sobre gastronomia. Conversa para se lambuzar.

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