Um sínodo para pedir aos católicos que abram a Bíblia
António Marujo
Os crentes conhecem mal o texto bíblico e nem sempre o interpretam bem. Um problema que os bispos católicos vão debater até dia 26
Há cinquenta anos, poucos católicos tinham uma Bíblia em casa. Hoje, a situação alterou-se radicalmente, sendo poucos os que não a têm. Mas tê-la significa abri-la? Sondagens internacionais dizem que não. A mesma tendência foi confirmada pelos resultados de um inquérito aos católicos do patriarcado de Lisboa que costumam ir à missa: há uma Bíblia em casa, mas só uma minoria a abre para ler.
A assembleia do Sínodo dos Bispos que, de hoje até dia 26, reúne em Roma 253 bispos católicos de todo o mundo, quer inverter esta realidade, a partir do tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.
O sínodo, criado em 1967 por Paulo VI, é a mais importante instância da Igreja Católica a seguir ao concílio – mas o seu poder, ao contrário deste, não é de decisão, antes de aconselhamento do Papa. Reúne-se, de forma ordinária, de três em três anos.
Tal como em assembleias anteriores, a China não permitiu a saída de nenhum delegado. De Portugal, estarão António Taipa, auxiliar do Porto, e Anacleto Oliveira, auxiliar de Lisboa. Mas o sínodo, que se inicia hoje com a missa presidida pelo Papa Bento XVI na Basílica de São Paulo Extra-Muros, inclui várias novidades: pela primeira vez, nas 22 assembleias já realizadas (dez extraordinárias), um rabi judeu e um patriarca cristão ortodoxo intervirão nos trabalhos.
Shear-Yashuv Cohen, rabino judeu de Haifa (Israel), fala já amanhã, primeiro dia de debate, sobre “o modo como o povo hebreu lê e interpreta a Sagrada Escritura”, disse anteontem, em conferência de imprensa, o secretário do sínodo, o bispo croata Nikola Eterovic.
O patriarca Bartolomeu I, de Constantinopla (Istambul), falará no dia 18. Participam ainda observadores protestantes e anglicanos e, como convidados especiais do Papa, o secretário-geral das Sociedades Bíblicas Unidas, Millar Milloy, e o prior da Comunidade de Taizé, o irmão Aloïs. O Vaticano quer vincar que a Bíblia pertence a todos os cristãos, que estes partilham grande parte do texto com os judeus (o Antigo Testamento corresponde, grosso modo, à Bíblia judaica) e, por isso, todos devem falar do modo de a interpretar.
Riscos da interpretação
Na interpretação está um dos busílis da relação com a Bíblia. O Instrumentum Laboris, texto de trabalho que é o ponto de partida para os debates, é claro: “Não faltam os riscos de uma interpretação arbitrária e redutora, resultantes sobretudo do fundamentalismo, que faz com que, por um lado, se manifeste o desejo de permanecer fiéis ao texto, mas, por outro, se ignore a própria natureza dos textos, caindo em erros graves”, lê-se no documento (disponível em http://www.vatican.va/roman_curia/synod/index_po.htm). Pode ler-se a alusão a correntes como o criacionismo, que defende que a criação do mundo se deu tal qual descrito na Bíblia.
O texto alerta contra o que considera outros desvios: “Existem também as chamadas leituras ideológicas da Bíblia, fruto de pré-compreensões rígidas de ordem espiritual ou social e política ou simplesmente humanas, a que falta o suporte da fé, até formas de contraposição e separação entre a forma escrita, atestada antes de mais na Bíblia, a forma viva do anúncio e a experiência de vida dos crentes”. A conclusão mais dramática vem depois: “Nota-se, em geral, um conhecimento fraco ou impreciso das regras hermenêuticas da Palavra”. Como quem diz: os crentes não sabem interpretar a Bíblia.
No caso católico, a distância em relação à Bíblia tem razão histórica: por causa da Reforma de Lutero, que defendia o acesso de todos à Bíblia e a liberdade de interpretação, a Igreja Católica optou por esconder o texto dos fiéis. Até há meio século, mesmo uma rapariga que quisesse ser freira teria dificuldade em arranjar uma Bíblia para ler sozinha. Com o Concílio Vaticano II, isso mudou.
“Foi uma geração perdida. Há uma maior sensibilidade, mas a Igreja não cumpriu o papel de ensinar a Bíblia”, analisa frei Herculano Alves, director da revista Bíblica, há mais de duas décadas a trabalhar na dinamização bíblica, dos franciscanos capuchinhos. Desde há meio século, esta ordem dedica-se, em Portugal, à promoção da Bíblia, tendo chegado a criar mais de mil grupos bíblicos.
“A Bíblia é para todos”
Trabalhos como este não dão resultado? “Muitas vezes, sentimo-nos a trabalhar contra a corrente”, desabafa Herculano Alves. O inquérito de Lisboa, realizado em 2007 e apresentado em Junho, revelou que nove em cada dez católicos que vão à missa têm em casa o livro mais vendido do mundo; mas 57 por cento não lêem a Bíblia mais do que seis vezes num ano.
“Não podemos querer que em 40 anos se faça o que não se fez em séculos”, relativiza o padre Paulo Franco, de 36 anos, director do Secretariado de Acção Pastoral, de Lisboa. Certo é que o próprio sínodo pouco mexeu com a Igreja em Portugal: “Deveria ter mobilizado mais, muita gente nem sabe que vai haver um sínodo”, lamenta António Couto, de 56 anos, biblista e bispo auxiliar de Braga.
“A Bíblia é para todos”, não hesita em dizer o padre Joaquim Carreira das Neves, professor jubilado de Teologia e um dos mais importantes especialistas portugueses na Bíblia, autor de Jesus Cristo – História e Mistério, entre outras obras. Daí que a Igreja tenha que fazer mais, insistem os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO. Paulo Franco afirma que o patriarcado irá esperar pela reflexão do sínodo para promover novas acções.
Iniciativas como A Bíblia Manuscrita, que pôs milhares de portugueses a escrever a Bíblia à mão, a exposição multimédia A Bíblia em Festa ou a maratona de leitura que hoje começa em Roma, são boas, mas não chegam, dizem todos. “É preciso que em todas as reuniões os católicos se habituem a ler a Bíblia”, afirma Paulo Franco. “O sínodo deveria apelar a que, pelo menos uma vez por mês, as pessoas se juntem para ler e discutir a Bíblia”, acrescenta Carreira das Neves.
Na apresentação do estudo, em Junho, o cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, lembrava que também os padres devem preparar as homilias mais de acordo com a Bíblia. O bispo Couto indica: “Temos de arranjar maneira de colocar este livro de dimensão civilizacional aberto nas mãos das pessoas”.