Eu queria mesmo era falar sobre as coisas boas do Brasil. E de como é bom ver tudo pela TV. Mas meu tempo, por hoje, acabou.
Arrivederci.
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Eu queria mesmo era falar sobre as coisas boas do Brasil. E de como é bom ver tudo pela TV. Mas meu tempo, por hoje, acabou.
Arrivederci.
Duas personagens históricas abriram o Brasil ao mundo: em 1808, D. João VI abriu os portos do país; em 1990, Fernando Collor de Melo, fez a segunda abertura dos portos.
Resultados?
D. João VI, cujo filho, D. Pedro I, declarou a independência do país, só reconheceu a independência após um tratado de reconhecimento no qual o Brasil assumia dívidas de Portugal (coisa pouca: 2 milhões e meio de libras esterlinas).
Collor, o primeiro presidente eleito por voto direto (em 1989) após o governo militar inaugurado em 1964, foi chutado da presidência num processo de impeachment por denúncias de corrupção e tráfico de influência.
Saudosismo é doença. Não sou saudosista. Sempre tendo a achar que vivo melhor agora do que antes. De facto, vivo melhor agora do que antes. Jorge Luís Borges estava certo: era um conservador na medida em que queria conservar as coisas boas e descartar as ruins. O Rio poderia ter conservado as coisas boas. Mas nem todas as coisas boas resistem ao tempo. São perecíveis como o leite. Não voltaria no tempo, se pudesse. Queria o Rio pulsante, mas como está agora: sem falta de água, sem falta de energia elétrica, com telefones funcionando e uísque de boa origem a preço razoável.
Nos anos de 1950, um tio meu tinha que esperar duas horas para que a central telefônica pudesse completar uma ligação para Cachoeiro de Itapemirim, cidadezinha no sul do estado do Espírito Santo. E para conseguir uísque, Deus do céu, o sujeito tinha que ter um contrabandista pessoal e gastar uma fortuna. Até o início de 1990 o brasileiro que gostava de uísque tinha que ter um contrabandista de confiança.
Quando uma cidade é a capital federal a política faz parte do organismo social. Como respirar. Como beber um uísque. Como dar um beijo. Como dizer olá. Não é um corpo estranho, um ente abstrato e inimigo. A importância da política tinha a devida dimensão. As pessoas discutiam, se importavam. Principalmente, se importavam. Não é necessário ser politizado ou ter a política como um assunto regular para dar ao assunto a importância que deve ter. Em Brasília, a política é um apêndice, um órgão inflamado à espera de uma cirurgia. Em Lisboa, pude ver como o Rio era.
Até a mudança da capital do Brasil para Brasília, aquele nada no meio do nada, o Rio de Janeiro era a capital política, econômica, cultural. O Rio começou a morrer gradualmente no início de 1960, com a inauguração da nova capital federal. Os últimos suspiros foram dados no final dos anos de 1970. Mas não é da decadência que eu queria falar. É do Rio que ainda se sustenta na memória de todos, inclusive daqueles que nunca a conheceram no auge (como eu). É o Rio formado por gente de vários estados brasileiros que migravam em busca do Santo Graal, que se espalhava pelos corredores do poder, pelos restaurantes, pelos bares, pelos cinemas, pelos teatros, pelas calçadas. É o Rio que vibrava, estimulava, mesmo com a falta de água regular.
Lisboa. Lisboa. E eu que vim em 2007 completamente desinteressado pelo país. Só queria fazer o mestrado em Ciência Política e Relações e Internacionais e cair fora. Mas fui tomado de amores. Como um adolescente. É piegas ser tomado de um amor adolescente? Se for por uma cidade, não. Pode ser patético; piegas, nunca. E o pior aconteceu: fui ao Brasil no início de abril. A trabalho. Desembarquei no Rio de Janeiro, cidade onde eu morava antes de vir, e fui tomado de uma angústia honesta como as sombras das raparigas em flor. Sóbrio que nem um bispo, cansado que nem um mouro, o que eu queria mesmo era pegar o avião de volta. Lá estava eu: saudade aguda numa terra devastada.
Lisboa deixou de ser uma mera cidade. Tornou-se a minha cidade.

Voltei para o bunker, que não é Pasárgada nem Canossa. Muita coisa se passou desde o fim do ano, quando o blogue virou um cadáver virtual e insepulto.
Estou de volta e não faço idéia de com qual regularidade e se mantenho o português pré-acordo ortográfico, o que me agrada, ou me atualizo, o que me desagrada (e me obrigaria a grafar a palavra ideia sem o acento agudo).
E vocês, meus caros, portaram-se bem na minha ausência?

Caros,
este blogue dá uma parada até o dia 31. Compromissos familiares, profissionais e com o mestrado me impedem de manter o curso normal do blogue. No último dia do ano postarei aqui um texto que é um balanço sobre 2009 e a experiência de morar em Portugal.
Obrigado pelas visitas constantes ou irregulares, pelos comentários gentis, informativos, críticos. Um blogue se faz com essa conversação que procuro estabelecer e estimular.
Um abraço fraterno a cada um de vocês e um Feliz Natal.
Bruno Garschagen
Lisboa, 22 de dezembro de 2008.







Em 2005, entrevistei o jornalista Hélio Contreiras, que acabara de lançar AI-5: a opressão no Brasil. O livro reunia depoimentos de militares sobre o período mais violento da ditadura no Brasil. Contreiras pretendia reconstruir o impacto do mais pesado ato institucional pelos olhos dos militares levando os leitores para dentro dos quartéis e gabinetes do governo. A história, assim, poderia ser avaliada sob diferentes perspectivas, livre dos limites ideológicos que conduziria a relatos distorcidos.
A relação entre facções da esquerda e os militares já foi objeto de estudos e várias análises. O que desperta interesse ao depoimento de Contreiras é o fato dele ter sido um dos repórteres que na década de 1970 cobria a área militar e estava sujeito não só a truculência do regime, mas a estupidez dos colegas jornalistas de Brasília e do Rio que torciam o nariz por não admitirem sua convivência profissional com os generais, brigadeiros, coronéis, almirantes. Viveu durante anos sob o patrulhamento diário.
Contreiras trabalhou no Correio da Manhã, O Globo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Correio Braziliense, Istoé e hoje edita uma newsletter internacional sobre panorama político. Antes de se decidir pelo jornalismo, estudou para ser diplomata, passou uma temporada em Paris freqüentando as aulas de sociologia na Sorbonne. De lá, mandava matérias para o Correio da Manhã. Em 1972, voltou para o Rio, desistiu do Itamaraty e entrou para O Globo. Começou a cobrir a área militar em 1977, para O Globo. Na Istoé, em 1984, conseguiu depoimentos que provavam as conspirações contra o candidatura de Tancredo Neves. Colaborador do Estadão em 1991, conseguiu o “furo” da renúncia do presidente Fernando Collor de Melo.
Do período em que cobriu a área militar, Contreiras entrevistou dezenas de autoridades de alta patente das Forças Armadas. Grande parte desse material não pôde ser publicado durante o regime. Com o fim da ditadura, viu que tinha material para dois livros. No primeiro, Militares – Confissões – Histórias secretas do Brasil, lançado em 1998, publicou pela primeira vez depoimentos de militares sobre o AI-5, a tortura, as cassações, a sucessão dos generais, o apoio à ditadura chilena, o relacionamento com os Estados Unidos e o plano de intervenção do Brasil no Uruguai.
De seu apartamento no Rio de Janeiro, Contreiras falou de como os militares radicais acumularam força, com apoio da imprensa, a partir dos anos de 1950; sobre a curiosa afinidade ideológica entre extremistas das Forças Armadas e a esquerda; de como as lideranças políticas e civis falharam no golpe de 1964; e afirmou que os militares conseguiram retomar valores perdidos pela participação ativa na política nacional.
“A esquerda se aproximou dos militares por causa do projeto de defesa do patrimônio do estado. Lembremos que o PT lutou contra as privatizações, que, para os membros do partido, significavam o desmonte do estado brasileiro que, aliás, os militares ajudaram a construir”, disse o jornalista, que morreu em 2006 sem ver esta entrevista publicada.
Antes de começarem a ler, devo fazer uma nota: na época da entrevista eu era um ignorante na história do Brasil desse período (foi a partir dessa conversa que aprofundei as leituras sobre o tema). Antes de encontrar o Contreiras, li seu livro e consultei outras obras para ir preparado. Mesmo assim, a ignorância era maior do que meu esforço circunstancial. O resultado foi ter aceitado determinadas respostas sem questioná-las e deixar de explorar outras que poderiam ter rendido muito mais. É por isso que me desculpo pela falhas perceptíveis que vocês hão de reparar. Decidi publicar a entrevista como o registro histórico da opinião de um profissional que rondou os bastidores do poder militar e pelo fato de amanhã completar 40 anos da edição do AI-5.
Por que os militares radicais levaram a melhor?
Hélio Contreiras: Os radicais foram ganhando muita força e tiveram, inclusive, espaço na imprensa. Isso tudo começou na década de 1950. Os militares sempre tiveram uma participação importante na política. O projeto Petrobras, por exemplo, teve ampla participação dos militares; um grupo a favor do monopólio, outro contra. Começou, então, a haver uma projeção de um grupo de militares por conta dessa visão nacionalista, que defendiam a construção de um estado forte, nessa linha que o PT apóia. É por isso que existe essa simpatia de petistas importantes com os militares — por causa do projeto de estado soberano.
De fato, a esquerda se aproximou dos militares por causa do projeto de defesa do patrimônio do estado. Lembremos que o PT lutou contra as privatizações, que, para os membros do partido, significavam o desmonte do estado brasileiro que os militares ajudaram a construir. A partir da década de 1950, o debate sobre as questões essenciais para o país se intensificou. E a imprensa passou a dar espaço para os militares da linha dura.
Como isso aconteceu?
Os militares autoritários conseguiram mais projeção porque participavam ativamente do debate na imprensa. Pelos jornais, os radicais defendiam suas teses de defesa do estado, pelo desenvolvimento do país sem participação estrangeira. Eles conseguiram se colocar nos debates relevantes para o país, como petróleo, energia nuclear e dependência econômica externa.
Esses militares, inclusive, se projetaram no debate utilizando o tom radical da UDN, lapidado por Carlos Lacerda. Foi Lacerda quem deu mais força àquela linha conspiratória que foi organizada pelos militares para derrubar Getúlio Vargas. Além de não gostarem de Getúlio, que seguia uma linha caudilhesca, os militares não se conformavam com o poder de Gregório Fortunato, o guarda-costas do presidente, e o fato de Vargas estar preparando o sucessor, seu ministro do Trabalho, João Goulart.
Por causa disso, os militares, especialmente os da Aeronáutica, começaram a conspirar. Não foi à toa que o segurança de Carlos Lacerda era um major-aviador da ativa, Rubens Vaz. Quer dizer, um major-aviador da Aeronáutica do país trabalhava como segurança de um jornalista que iniciava a carreira política e conspirava contra o governo. Hoje isso seria uma loucura, mas naquela época de subdesenvolvimento político do país essa situação aconteceu.
E aquele debate por um estado forte, com participação ativa dos militares duros, contava com a simpatia da esquerda. Entre militares radicais e alguns representantes da esquerda havia afinidade.
Quem eram os comunistas e militares que compartilhavam idéias?
Na Aeronáutica, por exemplo, havia o brigadeiro Aníbal Teixeira, que foi ligado à esquerda e vinculado ao Partido Comunista. O antigo MDB teve como presidente do partido o general Oscar Passos. Outros, como Prestes, que tinha sido militar, foi para o Partido Comunista e ainda contava com grande admiração dos militares. Muitos militares tinham pelo Prestes uma verdadeira devoção. Prestes foi aluno exemplar da Escola Militar. Tinha um currículo excepcional. Como militar, como líder, foi muito mais importante do que Lamarca — não tem nem comparação. Essas qualidades despertaram uma grande admiração entre os militares.
Além da grande afinidade entre Prestes e os militares que aderiram ao comunismo, também havia uma aproximação ideológica entre os militares que não aderiram, mas que sustentavam idéias semelhantes, como a construção do estado forte, de um país soberano. O Geisel, por exemplo, partilhava com Prestes a idéia de um estado poderoso e independente. Lembremos que foi Geisel quem rompeu o acordo militar entre Brasil e Estados Unidos em 1977. Era um nacionalista, como Prestes.
E o apoio da esquerda ao general Euler Monteiro para suceder Geisel?
Pois é. A candidatura do Euler foi um equívoco. O Ulysses Guimarães e o Severo Gomes escolheram um candidato de oposição inviável para competir com o general João Figueiredo, candidato da situação.
O erro foi semelhante ao da escolha do general Teixeira Lott, em 1960?
O Lott foi um dos mais desastrosos candidatos que a esquerda já escolheu. Era um sujeito ultraconservador, anticomunista doente. A pessoa pode ser contra ou a favor do comunismo, mas a partir de um momento passa a ser ridículo. Ele não podia, mas queria transformar o comunismo naquele momento como sendo um grande problema para o país. Não era. A esquerda na tinha força e, além do mais, numa democracia deve haver espaço para todos os partidos. Mas por que escolheram o Lott? Só porque ele cumpriu o dever de garantir a posse do Juscelino Kubitschek, em 1955.
A escolha do Lott foi baseada em quê?
Houve uma festa em torno daquele legalismo, que não era algo tão extraordinário assim. Ele garantiu a posse do Juscelino porque foi pressionado pelo general Benini. Não era o caso de escolhê-lo como candidato. É o mesmo que hoje você apoiar Dulcídio Amaral como candidato à presidência só por ele estar cumprindo o seu papel como presidente da CPI.
E os radicais?
O grupo da linha dura militar cresceu defendendo a moralidade. O grande representante da linha dura na década de 1950 foi o general Dagobert Pereira da Costa, candidato escolhido para assumir o país depois do golpe militar de 1955. Tinha muita força e mais liderança que o Costa e Silva e Castello Branco juntos. Ele iria assumir se o golpe fosse concretizado. O projeto dos militares era ficar mais cinco anos no poder e, depois, convocar uma eleição direta para transmitir o poder a um civil. Era o que se chamou na época de “Operação Cirúrgica”.
Todo o discurso dos militares era permeado de temas como probidade e honestidade. E a imprensa dava muito destaque. Paralelamente, o Lacerda fazia a campanha contra o Getúlio, contra a corrupção. O ambiente que foi criado para combater a corrupção e defender a moralidade tinha participação ativa das lideranças militares. É curioso o fato do Dutra ter sido enaltecido na época como um homem honesto, como se não fosse sua obrigação ser honesto. O mesmo aconteceu com Juarez Távora, cuja pregação nacionalista encantava alguns setores da esquerda.
Qual foi o erro político de João Goulart?
Goulart agiu com uma boa dose de ingenuidade. Acreditou muito em algumas lideranças políticas próximas a ele, não para fazer uma revolução, mas para mudar o país. Mas foi de uma ingenuidade lamentável. Prova disso, foi o fato de ter chamado o general João Batista Figueiredo para conversar. Houve duas conversas entre eles no Edifício Chopin, em Copacabana. Naquele momento, Figueiredo já estava conspirando. Durante a conversa, chegou a ameaçar o presidente, dizendo que se os comunistas não fossem afastados do governo, iria conspirar. O que João Goulart devia ter feito naquele momento? Ordenado a prisão de Figueiredo, no ato. A esquerda brasileira, que nunca antes havia estado no poder, se mostrou extremamente despreparada.
Por que Goulart caiu nessa?
Ele teve um chefe da casa militar desastroso, que era o general Assis Brasil, incapaz de tomar algumas atitudes em defesa do presidente. Na prática, ele o traiu. Era desinformado, ficava alheio ao que estava acontecendo. Todo mundo sabia, por exemplo, que o general Antonio Carlos de Andrada Muricy estava conspirando e provavelmente Assis Brasil soubesse disso também, mas deixou a coisa rolar. Ele era incapaz de relatar ao presidente a real situação do país. Goulart não era um panaca, um sujeito primário. Ouviria, sim, o que tinha a dizer seu chefe da Casa Militar, que deveria ter sugerido uma estratégia de defesa política, levando em conta a necessidade do presidente em não receber certos grupos com o objetivo de não desestabilizar o governo.
Goulart estava cercado por pessoas que achavam que as grandes transformações do país poderiam ser feitas sem nenhuma resistência ou hostilidade das elites brasileiras, que naquele momento não queria ouvir falar de reforma agrária, urbana, bancária, tributária. Faltou a Goulart um plano de defesa política estratégica. Num país como o Brasil, não se faz grandes mudanças sem tomar certos cuidados políticos.
Em 1964, Goulart estava realmente vulnerável. Faltou a ele um apoio estratégico para enfrentar a elite. O trabalho da direita e da UDN foi muito radical contando, inclusive, com o apoio do coronel Vernon Walters, adido dos Estados Unidos no Brasil.
Você diz no livro que a sociedade e os políticos cometeram um grave erro em 1964 ao não participarem da articulação para a escolha do presidente. O que aconteceu?
As lideranças políticas e civis falharam em 1964. Foram despreparados, se comportaram de uma maneira muito primária e subalterna. Parece que eles não sabiam o que estava acontecendo no país. Tanto que as lideranças políticas nem tentaram negociar durante a crise. Deviam ter seguido o conselho de Tancredo Neves, para quem o político devia negociar sempre.
Essa falta de ação acabou beneficiando Castello Branco, que dominou a situação, contando, inclusive, com o apoio de muitas lideranças políticas, como Juscelino Kubistchek. A apatia e submissão foram tão graves que o golpe, preparado por Ademar de Barros e Magalhães Pinto, foi dado por telefone. Acho que no país nunca se executou um golpe de forma tão fácil quanto o de 1964. Certamente, se o assessor de Goulart fosse Tancredo Neves, e não Assis Brasil, provavelmente o presidente não teria cometidos tantos erros. Em 1961, por exemplo, foi Tancredo que negociou com Ernesto Geisel a posse de Goulart. Anos depois, na década de 1970, tanto Tancredo como Ulysses Guimarães exerceram um papel heróico na política nacional.
No caso de Tancredo, ele conseguiu ampliar sua influência política de tal forma que em 1984 foi um grande obstáculo para que os radicais continuassem no poder.
Porque as lideranças civis e políticas não reagiram?
As lideranças cometeram três erros graves. O primeiro foi aceitar o golpe passivamente, sem resistência e negociação. O segundo foi se calar diante das violências cometidas na década de 1960.
Entre 1964 e 1968, sob o governo de Costa e Silva, que sucedeu Goulart, ainda ouve alguma liberdade e espaço para a crítica pela oposição. Mas não só a oposição aproveitou-se desse período. A direita radical também se valeu desse momento para conspirar e iniciar os atentados a bomba, atribuídos aos comunistas, mas cometidos por um grupo de oficiais da área de informações do Exército.
Foi o início de um processo de radicalização do processo político forçado e estimulado pelos militares radicais.
Qual foi o terceiro grande erro?
A euforia geral com o milagre econômico. Neste caso, parte da culpa cabe à imprensa, a nós jornalistas, que demos tanto espaço ao ministro Delfim Neto e não conseguimos desmascarar o milagre econômico. Coube a um americano, o professor da Universidade de Berkeley Albert Fishlow desmontar a farsa dizendo que não poderia haver milagre econômico sem distribuição de renda. Porque, na época, muita gente esqueceu da área social por causa da euforia geral com o crescimento econômico. Praticamente não houve quem escrevesse contra, o que levou o Mário Henrique Simonsen (economista e ex-ministro, já falecido) referir-se à ditadura militar como a época das decisões sem crítica.
Mas por que Juscelino, que não era um bobo em política, aceitou passivamente essa situação?
Ele não correspondeu, não teve visão política, não percebeu o que estava acontecendo no país. As lideranças civis falharam naquele momento, entende? E quem reagiu depois? Só a esquerda.
Os militares moderados reagiram de alguma forma contra os radicais nesse período?
Sim, sim. O coronel Boaventura Cavalcanti Júnior, por exemplo, reagiu em 1968 e foi cassado depois.
Costa e Silva cedeu às pressões dos radicais especificamente por estar vulnerável pelo suposto envolvimento da esposa no desvio de verbas da Capes?
Este e outros casos relacionados à dona Iolanda, pelo que sei, não a envolviam em corrupção, mas com uso de sua influência na política, especialmente no apoio a Paulo Maluf. Mesmo assim, Costa e Silva, com as acusações, ficou moralmente abalado. Os radicais estavam usando sua esposa para tentar desmoralizá-lo.
O grande equívoco de Costa e Silva, um sujeito mais primário, mais despreparado do que João Goulart, foi imaginar que podia governar cercado de radicais. Ele queria liberalizar o regime cercado de militares da linha dura, como o coronel Andreazza, que fez inúmeras grosserias contra os jornalistas na cobertura da obra da ponte Rio-Niterói. Foi uma das mais sofridas missões que os jornalistas brasileiros tiveram porque o Andrezza sempre foi um sujeito grosso, estúpido, desrespeitoso. Ele queria jornalistas como Ibrahim Sued. Ele dizia: “Ibrahim, quero que você prepare a imagem do general Costa e Silva; que você popularize a imagem do presidente”. O Ibrahim sugeriu que o general fosse chamado, em sua coluna no jornal, de “seu Artur”. Andreazza gostou da idéia. Comparo Andreazza ao Maluf, que também foi grosseiro muitas vezes com os jornalistas e é do mesmo tipo moral.
Você responsabiliza os militares pelo desencadeamento da luta armada. E apresenta depoimentos de membros das Forças Armadas que mostram como o AI-5 estimulou os estudantes a adotarem a guerrilha. Como isso aconteceu?
Antes da decretação do AI-5, os militares duros realizaram alguns atentados para forçar a radicalização, que para eles era interessante. O que fez a esquerda? Decidiu combater o regime da mesma forma violenta. Além de contarem com a censura e com a propaganda oficial a seu favor, os militares detinham um enorme arsenal e poder bélico. A luta, desde o começo, foi desigual.
O fato é que o AI-5 fechou todos os espaços para que houvesse uma oposição legal. Com isso, estimulou a radicalização, que beneficiou os militares radicais.
A esquerda radical foi responsável pela decretação do AI-5?
Não, não acho que a esquerda possa ser responsabilizada. Mas é claro que a esquerda foi muito imprudente em 1964. Ela, além de subestimar a ação dos radicais militares, os desafiou com um discurso agressivo em defesa de reformas profundas. A esquerda não agiu de forma cuidadosa, algo fundamental quando se pretende realizar uma mudança social no país. Parece terem ignorado o fato de que as forças conservadoras sempre foram muito poderosas no Brasil.
O envolvimento das Forças Armadas com o poder a partir de 1964, segundo diz o coronel Chaves no livro, comprometeu valores tradicionais dos militares, como legalidade, lealdade e companheirismo. Pela sua experiência na cobertura da área militar e com as fontes que tem, o senhor acha que os militares conseguiram retomar esses valores depois dessas quatro décadas?
Sim, a ética voltou a ter importância no conjunto das Forças Armadas e o preparo profissional dos militares, hoje, é bem superior ao daquela época. A situação só não é melhor por causa da enorme carência de recursos, algo que, futuramente, pode ser perigoso, causar insubordinação, atos de rebeldia e até deixar o país indefeso.